Antônio Pereira

8 de janeiro de 2021

A polêmica de Elba Ramalho e seu anticomunismo primitivo

A cantora Elba Ramalho, depois de se envolver em uma notícia de rompimento das regras sanitárias contra a Covid-19 e supostamente ter cedido sua casa em uma praia para aglomeração de mais de 500 pessoas, cuja festa foi fechada pela Polícia Militar, acabou dando declarações no mínimo polêmicas. No afã de explicar a pandemia, a cantora afirmou que tudo é uma grande armação comunista mundial para perseguir cristãos, levando-os à morte de forma deliberada.

Veja o que ela disse: “Mas tudo bem, estamos aqui, cristãos, sobrevivendo. E vamos sobreviver a essa turbulência que a humanidade está atravessando. Para muitas pessoas é apenas uma pandemia, para nós, o senhor sabe e eu sei, é muito mais coisa por trás dessa pandemia e que vem ainda com o intuito de nos destruir. Nós somos o incômodo, o calo dos comunistas. Somos nós cristãos, mas nós somos também a resistência e vamos permanecer fiéis, porque Deus vai nos proteger”, afirma ela.

Pronto, mais uma celebridade se envolve em  polêmica ao falar de política sem qualquer embasamento técnico ou mesmo em sintonia com a realidade.

Elba Ramalho, que tem um histórico de apoio e voto em candidatos de direita, teve notoriedade política no final da década de 80 quando fazia showmícios para o então candidato a presidente, Fernando Collor de Mello, contra o torneiro mecânico Luiz Inácio Lula da Silva. Na época desse apoio explícito, o cantor e compositor Geraldo Azevedo, autor de boa parte do repertório de sucesso da cantora, chegou a ameaçar retirar suas músicas, impedindo Elba de interpreta-las durante os comícios do candidato colorido.

Depois da forte repercussão negativa da declaração, somado ao uso de sua casa para festa em plena pandemia, a cantora se desculpou e tentou justificar sua fala. “Fui mal interpretada, existia um contexto de cunho espiritual, as pessoas não entenderam. Sinto muito. Um grande mal-entendido. Minhas sinceras desculpas”, disse ela.

O que é o anticomunismo?

O anticomunismo é um fenômeno histórico que remonta ao século XIX, sendo encontrado tanto na Europa quanto na América. Está presente não apenas em discursos que pregam a perseguição de comunistas, mas também em um conjunto de ideais em defesa da propriedade privada que colocam o comunismo como uma ameaça à democracia – segundo alguns discursos liberais, a democracia seria possível apenas no capitalismo

Na obra Dicionário de Política, Luciano Bonnet afirma que o anticomunismo pode ser entendido não somente como um conjunto de ideias do campo das “direitas” contrárias ao comunismo, mas sim como um fenômeno muito mais complexo e também com uma grande pluralidade. O autor aponta que existem anticomunismos de origem fascista, clerical ou reacionário, os quais podem desencadear ações de violência, pois parte de seu discurso e prática consistem na oposição ferrenha aos comunistas e à caracterização destes como fonte de todo tipo de malefícios, por exemplo, na encíclica Divinis Redemptoris, de 1937, na qual o papa Pio XI afirmava que “vós, sem dúvida, Veneráveis Irmãos, já percebestes de que perigo ameaçador falamos: é do comunismo, denominado bolchevista e ateu, que se propõe como fim peculiar revolucionar radicalmente a ordem social e subverter os próprios fundamentos da civilização cristã.” Hitler, por sua vez, afirmou, durante o processo eleitoral de 1933, que o marxismo era o principal inimigo do movimento nazista. “Jamais, jamais me desviarei da tarefa de esmagar o marxismo… Só pode haver um vencedor: ou o marxismo ou o povo alemão! E a Alemanha triunfará!” Bonnet afirma ainda que é possível encontrar o anticomunismo no meio liberal e até dentro do próprio espectro de “esquerda”, mais próximo aos ideais socialdemocratas, que defendem uma economia mais livre do controle estatal.

Com informações de: cafehistoria.com.br