Ailton Villanova

6 de junho de 2018

Radionosocômio

O futebol brasileiro perdeu, décadas atrás, dois daqueles que poderiam ter sido grandes atletas. Mas, em compensação, o rádio ganhou uma bela dupla de narradores esportivos (um hoje aposentado e o outro residindo nas alturas celestiais) e excelentes animadores de programas de estúdio. Estou falando dos distintos colegas Reinaldo Cavalcante e José Carlos Campos. O primeiro certamente seria aclamado o maior centro-médio nacional se o destino cruel não tivesse colocado no seu caminho um zagueiro maluco. Num lance de bola dividida, o adversário acertou uma má intencionada bicuda na parte anterior da perna direita do nosso querido Rei, provocando uma fratura que mais tarde resultou na amputação daquele membro. A medicina, à época, não possuía os extraordinários recursos de hoje.

O outro colega, José Carlos, falecido neste 2018, havia perdido o braço direito num acidente rodoviário, em Sergipe. Anos depois, vítima de pertinaz moléstia, depois de sofrer num leito hospitalar, em Maceió,teve uma perna cortada. Esses  companheiros sofreram bastante em decorrência desses acontecimentos lamentáveis. Mas venceram pela garra, pela força de vontade que sempre possuíram.

Teve outro radialista, o saudoso Fernando Correia, que nunca foi chegado a um bate-bola, mas era um tremendo profissional da comunicação. O acaso lhe tirara um dos dedos da mão.

Então, por coincidência estavam os três sobreditos em pleno expediente na antiga Difusora, na Pedro Monteiro, quando surgiram  umas cinco colegiais, com a pretensão de conhecer os estúdios da emissora pioneira. Elas tinham sido conduzidas ao andar superior pelo zeloso e sempre eficiente e solícito Pedro Belo, que também possuía um pequeno defeito de postura nos pés (a turma no rádio o chamava carinhosamente de “quinze pro meio-dia”). Naquilo que as garotas bateram os olhos no trio – o sonotécnico Fernando Correia e os locutores Reinaldo Cavalcante e José Carlos Campos) não conseguiram conter a exclamação: “Ooohh!”

Sempre descontraído e dono de excepcional presença de espírito, Reinaldo Cavalcante mandou:

– Calma, senhoritas! Vocês não entraram em nenhum hospital de mutilados. Vocês estão mesmo na Rádio Difusora!

Aí, o riso foi geral. É por isso que o velho Reinaldo continua sendo aclamado como o mais alto-astral da radiofonia alagoana.

 

 

Exagero de Pão!

 

O cangaceiro José de Lima, o famigerado Azogado, matador impiedoso do bando de Lampião, paradoxalmente era chegado a uma missa. Certo dia, gozando de merecidas férias no Sertão, ele entrou na igreja cujo pároco era padre Ezíquio, tido como “santo”, e ficou lá aguardando o início do santo sacrifício da missa. Enquanto esperava, batia papo com alguns fiéis. A certa altura confidenciou:

– Eu sô um cabra certinho, num sabe? Os amigo qui me discurpe,

mas num gosto de mintira. Se o sujeito sortá uma lorota e eu num gostá, eu faço “huuummmm”. Se ele num justificá, eu passo bala nos corno dele!

Padre Ezíquio não pôde deixar de escutar a conversa do cangaceiro e ficou preocupado com aquilo. Daí a instantes dava início ao ofício religioso. No primeiro banco, bem compenetrado, Azogado prestava a maior atenção no que o reverendo dizia. Na hora do sermão, o padre explicava o milagre da multiplicação dos pães:

– … E naquela ocasião, Jesus alimentou cinco mil pessoas com cinco pães…

Da primeira fila, onde se achava, o cangaceiro grunhiu:

– Huuuummmmm…

Muito ligeiro, o padre ajuntou:

– Mas era cada pão do tamanho desta igreja!

 

 

Vítima persistente

 

Empossado no cargo de delegado de polícia de carreira, após concluir, com louvor, o curso respectivo na Academia de Polícia Civil, o ilustre palmeiro-indiense Cícero Firmiano foi nomeado para comandar a polícia judiciária na região agrestina. O primeiro caso que lhe caiu nas mãos foi assassinato de uma mulher, cujo marido foi pre-so em flagrante levado à delegacia.

Metido a arrochado, só pra impor respeito, Firmiano encarou o acusado:

– Matou a mulher, hein? Por quê? Quero ouvir a sua versão. Vá, conte.

Cinicamente, o sujeito começou:

– Pois doutor, eu considero esse caso um lamentável acidente.

– Não quero ouvir os seus comentários. Eu quero saber como se deu o crime.

– Ah, tá bom. Foi assim: eu tava na cozinha com a faca de cortar presunto na mão. De repente, entra minha mulher, tropeça, cai sobre a faca e é espetada no peito.

E o delegado Firmiano, com aquele seu olhinho desconfiado:

– Sim, continue.

– Ela caiu umas sete vezes, mais ou menos, doutor. Caía e levantava. Caía e levantava…

 

 

Doença cruel

 

Inteligência limitada, o José Oritânio entrou em casa cabisbaixo, muito abatido. Preocupada, dona Francelina, a esposa, encostou nele:

– O que foi que houve, meu velho?

– Uma tragédia, Francelina! – respondeu ele.

– Quem foi que morreu?

– Por enquanto ainda não morreu ninguém… Mas vai morrer!

– E quem  é que vai morrer, meu Deus?

– Eu!

– Valei-me meu Padrinho Cícero! Quem lhe ameaçou de morte?

– Ninguém. O caso é que fui lá no doutor Zé Dias, e pelo que ele me disse eu vou ter que ser capado!

– Ôxi! Capado?! E o que diabo você tem?

– Peguei uma tal doença chamada colesterol. Segundo o doutor, o remédio é cortar os ovos!

 

Com Diego Villanova