Gerônimo Vicente

10 de maio de 2020

Coincidências entre a Revolta da Vacina e a atual negação sanitária

Situação das ruas do Rio de Janeiro após o levante popular e militar contra a vacinação em massa

Dias atrás, um grupo de pesquisadores  da área de saúde foi ameaçado  por investigar quais seriam os efeitos da cloroquina em um paciente infectado pelo coronavírus. A ação criminosa de grupos fascistas, aportados no atual governo, tinha como objetivo evitar que o discurso governamental de que o medicamento era eficaz no combate à doença fosse desfeito pela ciência. O ato criminoso é bem parecido com o que passou o sanitarista Oswaldo Cruz,  durante a chamada Revolta da Vacina,  em 1904 ao sofrer execração pública, da população, dos políticos e até da imprensa, essa última  apresentando-se de modo deplorável contra aquele que, anos mais tarde  seria considerado um dos maiores pesquisadores do mundo e sua obra científica ajudou a erradicar aquelas doenças chamadas de tropicais.

Em meus arquivos encontrei, textos e imagens que retratam que a ignorância política e os interesses econômicos prevaleceram, no início do século 20, tanto quanto a marcha realizada, na semana passada,  por políticos e empresários  rumo ao Supremo Tribunal Federal  (STF)  para pressionar  pela reabertura do comércio e pelo fim do isolamento social. Uma ação nefasta e apelidada de “presepada” pelos ministros da corte máxima do judiciário brasileiro.

Em  novembro de 1904, o governo  presidido por Rodrigues Alves deu início a uma campanha de vacinação no país, sendo o Rio de Janeiro, a capital federal, “cidade-cobaia” das aplicações imunizadoras contra a peste bubônica, febre amarela, cólera e varíola, doenças causadas pela ocupação urbana desordenada em área insalubres. A solução dos técnicos em saúde seria uma higienização  e vacinação em massa. Um desses técnicos da Saúde Pública era o jovem microbiologista Oswaldo Cruz, com experiência internacional  na área, mas que ao assumir o cargo de diretor da Saúde Pùblica do governo federal  adotou os mesmos procedimentos de hoje para combater as epidemias constantes e foi taxado de inimigo do povo. Cruz aceitou o desafio de erradicar as doenças que, anualmente matava centenas de pessoas no Rio, ao aplicar métodos como,  o isolamento dos doentes, a  notificação compulsória dos casos positivos, a captura dos vetores, como mosquitos e ratos e a desinfecção de moradias em áreas de focos.

A reação popular foi violenta, a partir da ideia de vacinar a população. A imprensa da época e a oposição no Congresso Nacional “inventaram” que a forma de imunização teria como propósito  provocar a mortes daqueles infectados  e assim higienizar a cidade. Uma rebelião estourou nas ruas  e a Escola Militar provocou um levante que obrigou ao governo a recuar da ideia em 1904. No entanto, em 1907 a febre amarela estava erradicada e isso favoreceu para que, em 1908  um novo surto de varíola levasse, espontaneamente as pessoas a procurar os postos de vacinação.

Entretanto, antes de  ter seu legado reconhecido, Oswaldo Cruz sofreu a mais colérica perseguição contra um pesquisador da área de saúde no país. Seu nome era mal  comentado em bares, praças e tachado de cientista desligado das realidades do país. O jornal Correio da Manhã, o mais afoito no combate à campanha de vacinação em massa, “manchetava”  títulos apelativos em um deles  afirmava que um chefe de família chegara em casa e ficava em dúvida sobre se a honra de família estaria ilesa,  porque um desconhecido, referindo-se ao vacinador, havia  adentrado o recinto sem a devida autorização e violado sua esposa e filhas. “A messalina entrega-se a quem quer, mas a virgem, a esposa e a filha terão que desnudar braços e colos para os agentes da vacina”, era  o conteúdo do texto. Charges tratavam Oswaldo Cruz, como o “mata-mosquitos” e o retratavam como inimigo do povo.

Oswaldo Cruz, microbiologista e sanitarista brasileiro, reconhecido internacionalmente, mas execrado em seu país

Para complicar ainda mais a situação do jovem sanitarista, o prefeito do Rio Pereira Passos concretizou seu projeto urbanístico de saneamento, apenas na orla marítima deixando ao “deus dará”, milhares de  favelados nas mesmas condições sociais precárias de antes. Assim aumentou a desconfiança sobre a vacinação com a revolta popular, aliada a ações de levantes promovidas por apoiadores do ex-presidente da República, o alagoano Floriano Peixoto que tentou aplicar golpe de Estado contra Rodrigues Alves. A revolta foi sufocada por uma forte reação do governo federal que mobilizou tropas aliadas  e, em um ato tão truculento quanto a da oposição, prendeu revoltosos e até desempregados que moravam em cortiços participantes dos protestos e mandaram todos para o ainda inexplorado território do Acre, no norte do país.

E assim, a história desse país é marcada por retrocessos sobre retrocessos, de modo que chegamos ao atual  estágio de nos questionarmos sobre em que século estamos vivendo.