Gerônimo Vicente

12 de abril de 2020

Dados e geoprocessamento introduzem o jornalismo de precisão no país

Qual a primeira  informação que interessa  ao telespectador, leitor e usuários de sites noticiosos em meio a divulgação da pandemia do coronavírus? Quem respondeu o número de  mortes e casos suspeitos da Covid-19 no mundo, no Brasil e em seu estado acertou. Além de assimilar a transmissão desses dados numéricos, quem  absorve esse conhecimento também tem prestado atenção na disposição estética na divulgação  desses registros computacionais da doença na TV, jornal e portais de notícias.É o chamado Jornalismo de Precisão, aquele em que, o profissional mergulha na matemática,  no geoprocessamento e transmite um fato com uma exatidão.

É também chamado de Jornalismo de Dados  e o que desperta a curiosidade dos usuários é justamente a sua disposição estética. Nos telejornais, a primeira imagem  a ser mostrada, evidentemente depois do apresentador, são os dados atualizados da doença, sempre em fontes mais visíveis e em tamanho que possam ser memorizados pelo telespectador. Nos portais  noticiosos e portais interativos, esses números são apresentados e induzem os usuários a replicar e a manipular esses dados, conforme seu grau de interesse, como por exemplo, ao querer saber a situação de sua localidade. Nos jornais, cabe à visualização de dados,  por meio de artes gráficas, ,representar esse papel que exercem os meios de comunicação eletrônicos.

Essa nova modalidade do jornalismo demorou a  ser adotada, na mídia brasileira e a resistência maior vinha das emissoras de televisão. O problema alegado era a falta de um profissional habilitado para atuar com  estatística, matemática e geografia ao mesmo tempo. A tecnologia da informação oferecia as fontes de se chegar a esse objetivo, mas os profissionais de jornalismo não viam neles essa atribuição. Com a globalização da crise sanitária, as redações tiveram que se adaptar às pressas.

O jornalismo de precisão ou de dados surgiu no início desta década (2010) primeiramente nas universidades americanas e europeias e, depois se expandiu para  a redação, onde poucos profissionais demonstraram interesse nas ferramentas que lhes proporcionaram nova forma de apurar e de dispor a notícia para seus usuários. Portais noticiosos de grandes jornais como Washington Post (EUA), Le Monde (França), El País (Espanha) foram os primeiros a adotar  essa estrutura.

“O Jornalismo de Dados  é um novo conjunto de competências para buscar, entender e visualizar fontes digitais em um momento em que os conhecimentos básicos do jornalismo tradicional já não são suficientes. Não se trata da substituição do jornalismo tradicional, mas de um acréscimo a ele”. 

O conceito é da organização Knight Center Journalism, uma entidade vinculada à Universidade de  Texas, em Austin-EUA e que tem sob seu comando um brasileiro chamado Rosental Alves.Por ela,  são oferecidos cursos gratuitos para jornalistas de todo o mundo, onde se cobra em dólar apenas a certificação.Um  desses cursos chega a inscrever entre 1 milhão a 5 milhões de pessoas de todos os cantos do planeta.

Em 2010 fiz um curso de Jornalismo de Dados pela Knight Center, em português e fiquei surpreso com o poder de extração de notícias, a partir de dados garimpados na Internet, alguns desses vindo de informações abertas por organizações governamentais, outras de entidades civis  e também por meio da chamada deep web (internet profunda), o mesmo  sistema utilizado pelos hackers que grampearam telefones de autoridades como o ministro Sérgio Moro e os procuradores da Operação Lava Jato. 

Esse tipo de  atividade jornalística é sequenciada por outros elementos computacionais como, as ações de geoprocessamento, ou seja, o  uso de mapas interativos como o Google Map,  por exemplo e softwares de mesclagem e visualização desses dados como, o Tableau Public.

Por esses sistemas, o jornalista que já era generalista por atribuição, tornou-se um multiprofissional, pois passou lidar, ao mesmo tempo, com a investigação da informação a partir de uma fonte virtual, com o tabelamento da apuração, a disposição gráfica e o geoprocessamento desses dados. Quando percebi a complexidade de fatos, alertei alguns companheiros jornalistas sobre esse futuro desafiador. Porém, boa parte ignorou essa nova situação por achar que a  função profissional se resumia em apurar, digitar, diagramar e editar texto.

Enquanto os profissionais consideravam que dados eram responsabilidade de pesquisador e  de estatístico, os estudantes de comunicação já visualizavam essa modalidade jornalística do futuro. Percebi essa mudança, durante uma oficina que ministrei em 2015, na Bienal Internacional do Livros em Alagoas. Concorrendo com, nada mais, nada menos  que a cantora Fernanda Takai, da banda Pato Fu, que na ocasião lançava um livro no mesmo horário, registrei a presença de 20 alunos do curso de Jornalismo na minha exposição , a maioria da Universidade Tiradentes. Eles  também se surpreenderam com vastidão de informações que podem ser raspadas da internet, a partir de uma tabela em PDF, de sites de dados como o DataSUS, Dataprev, IBGE, Ibama e Ipea, além dos portais de transparência pública. Na última eleição de 2018 em Alagoas, um grupo de estudantes de Comunicação da Ufal utilizou essas ferramentas para auxiliar um dos portais de notícias na apuração de votos.

Enfim, foi necessário que uma catástrofe mundial, como a Covid-19 para que  a mídia brasileira passasse a exercer com mais aptidão o jornalismo de dados, exatamente quando a população necessita se atualizar sobre esses  números. Nas últimas semanas, notei jornalistas, os telespectadores, leitores, internautas e influenciadores digitais recorrendo a sites de dados e a profissionais renomados que são peritos no jornalismo de precisão,  como, o inglês Marx Rose, o espanhol Alberto Cairo e a  brasileira Natália Mazotte (Escola de Dados) para replicar os infográficos sobre a doença em suas redes sociais.

O Site de Marx Rose, pesquisador da Universidade de Oxford, Inglaterra e fundador do https://ourworldindata.org/ que reúne dados sobre os grandes problemas globais é, atualmente o mais acessado do mundo, atualmente com apresentação em dados em tempo real da Covid-19.

Já o geoprocessamento também começa a ser aplicado pelos governos estaduais, por meio de mapas  interativos em telefones celulares. Na semana anterior, o governo de São Paulo fez parceria com uma empresa telefônica para mapear o movimento da população e, a partir daí ter uma dimensão sobre  o cumprimento do isolamento social.Outros estados seguem a iniciativa.

Esse modelo de geoprocessamento como cobertura jornalística, primeiramente adotado pelo Google foi uma sequência da introdução do jornalismo de dados por volta de 2012 com os primeiros cursos ministrados por universidades europeias e norte-americanas. O sistema de mapas foi introduzido no jornalismo  no ano se, por ocasião do atentado à Maratona de Boston (2013)  a partir do momento em que os suspeitos foram descobertos por de fotos tiradas por telefones celulares das pessoas presentes que identificaram o  movimento deles por meio do mapeamento.

Com a catástrofe  sanitária, os números  tornaram-se cada vez essenciais na informação jornalística, pois nos pressionam a redobrar  os cuidados e cobrar que os demais façam a sua parte.

Alguns exemplos de dados utilizados no  jornalismo mundial

O site mais acessados no mundo sobre dados sobre a Covid-19

Dados do  site  tps://ourworldindata.org

Slides com dados atualizados (clique)

  

Dados deste domingo no Corriere Della Sera sobre o coronavírus na Itália

Geoprocessamento dos casos de coronavírus nos Estados Unidos divulgados pelo Washington Post.

Dados do site

acesse:

Dados do G1