Gerônimo Vicente

4 de abril de 2020

Dois relatos literários que nos servem de alerta  em tempos de pandemia

 Na semana passada aproveitei alguns espaços de folgas do trabalho remoto para me debruçar sobre livros integrantes da chamada Literatura Pandêmica.O termo surgiu recentemente entre escritores europeus, diante da pandemia mundial do coronavírus, mas o gênero literário, ainda não-reconhecido deste modo, existe desde o  século 14, embora tenha se apresentado mais, espontaneamente, no século 18 quando foi lançado o romance The Last Man (O Último Homem) da escritora Mary Shelley que, em 1826 lançou a literatura científica apocalíptica. O romance relata uma praga na terra que somente termina em 2073 com apenas um homem chamado  Lionel Verney.

 O que me chamou a atenção  ao comparar com a situação a que assistimos é que os fatos  se assemelham nas narrativas lidas . Inclusive esses relatos remontam a época que sequer existia a ciência.  

O quadro de colapso na saúde do Equador, exposto  nas redes sociais por meio das imagens de corpos abandonados nas ruas da cidade Guayaquil coincide bastante com os trechos das obras de dois escritores escolhidos  para produzir o conteúdo de texto desta semana:Giovanni Bocaccio, italiano de Florença e autor de Decameron, escrito entre  1348-1353, com mais de 15 mil páginas e 100 capítulos e o brasileiro Ruy Castro, autor de Carnaval da Guerra e da Gripe.

Decameron contra  a história de sete mulheres e três homens de uma vila toscana de Florência no norte da Itália que aproveitam a quarentena da Peste Negra para se divertir em meio a orgias  que incluíam bebedeiras, atos sexuais e boatos sobre a doença. O livro foi transformado em filme na década de 1970. Chegou a ser censurado no Brasil pelo Regime MIlitar, mas foi liberado com a abertura política e encaixado na categoria de cinema erótico.

Carnaval da Guerra e da Gripe, do jornalista e escritor Ruy Castro conta a introdução da gripe espanhola no Brasil, em 1918, entrando pelo Rio de Janeiro e se espalhando por grande parte do país, incluindo Alagoas. Além de nos relatar a história da epidemia, o livro narra o estilo carioca de ser. Apesar dos milhares de mortos, houve sim o carnaval no ano seguinte, 1919 sem que o povo fluminense  tivesse a certeza da imunidade plena.

Ambas as obras deixou-me mais alerta sobre as consequências graves que podem causar  à falta do isolamento social no combate a essa nova doença que não escolhe extrato bancário, nem bens patrimoniais de suas vítimas. À propósito esse modelo de evitar o contágio  foi a forma mais eficaz de conter a epidemia durante a medieval Peste Negra e na moderna Gripe Espanhola, conforme relatam trechos dos dois livros. 

Nas duas catástrofes, o isolamento social somente foi adotado depois   que todo o sistema de saúde e econômico entrou em colapso e parte da população estava morta.

Vou começar reproduzindo trechos do Livro Decameron de Giovanni Bocacci no capítulo em que ele aborda a Peste Negra:

Pintura que relata a Peste Negra durante a guerra entre Inglaterra e França em 1348

“Havíamos chegado ao ano profícuo da encarnação do Filho de Deus, de 1348, quando a egrégia cidade de Florença, mais bela que qualquer outra cidade itálica, sobreveio a mortífera pestilência. Em consequência de nossas ações iníquas, esta pestilência lançada aos mortes por justa ira de Deus e para nossa expiação, começara nas plagas orientais, alguns anos antes e se  expandira para o Ocidente.

Naquela cidade de Florença, cuidado algum valeu, nem importou qualquer providência humana. Proibiu-se a entrada  de qualquer enfermo. Muitos conselhos se distribuíram para a conservação do bom estado sanitário. De nada valeram as súplicas humildes, feitas em grande número, ora por pessoas devota isoladas, ora por procissões humanas alinhadas.

Em Florença, no começo, apareciam tanto nos homens  como nas mulheres, seja na virilha, seja na axilas, determinadas inchações. Destas algumas cresciam como maçãs; outras como ovo; umas cresciam mais; outra menos; o vulgo dava-lhes  a denominação de bubões. Logo após, o aspecto da enfermidade começou a modificar-se; ela passou a por manchas negras ou lívidas nos doentes. que se tornaram mortíferas.

Os trabalhadores míseros e pobres morriam. Caíam sem vida, pelas vilas esparsas e pelos campos, juntamente com suas famílias, sem qualquer auxílio médico, nem ajuda de servidor; morriam, não como homens e sim como animais. Em consequência, os operários de campo perturbados em seus costumes e como transformados em habitantes lascivos, não se preocupavam com coisa alguma, nem coisa alguma desejavam fazer. Todos, como se esperassem pelo dia em que se veriam levados pela morte, esforçavam-se, com o máximo de diligência no sentido de consumir os frutos que se achavam presentes. Os animais começam a pastar pelos campos a seu bel-prazer. Cem mil criaturas humanas foram tolhidas da vida. Nesse total, incluem  tanto os  indivíduos levados pela força da pestífera enfermidade, como os que, enfermos foram mal atendidos ou se viram abandonados às suas contingências, devido ao medo que os são nutriam. Antes  do episódio mortífero, ninguém teria dito que tanta gente houvesse dentro da cidade” (Giovanni Bocaccio, 1353).

A Peste Negra matou 75 milhões de pessoas na Europa, afetando, principalmente a Inglaterra, França e Itália, países que em algumas localidades perderam entre 60 e 90% de sua população. Apesar de Bocaccio se referir à origem oriental da peste, escritores, como a inglesa Minette Walters  no livro Last Hour (Última Hora) e que também faz referência à epidemia, atribui o surgimento aos ratos que se expandiram com o aparecimento por  parte do continente europeu, das cidades onde antes eram matas virgens.

 Já a gripe espanhola, chegada ao Brasil em 1918 teve impacto similar à introdução do coronavírus neste ano. No livro Carnaval da Guerra e da Gripe, lançado  em 2019, por Ruy Castro, os contágios e os sintomas se assemelham, assim como a providência tardia que resultou em milhares de morte no Rio de Janeiro.

Castro é  jornalista, biógrafo e escritor brasileiro é autor de obras como O Anjo Pornográfico (a vida de Nelson Rodrigues), Estrela Solitária (sobre Garrincha), Carmen (sobre Carmen Miranda) e de livros de reconstituição histórica, como Chega de Saudade (sobre a Bossa nova), Ela é Carioca (sobre o bairro de Ipanema, no Rio) e A Noite do Meu Bem (sobre o samba canção). 

 No livro ele nos conta o seguinte sobre a gripe espanhola que não surgiu na Espanha, mas esse país levou a culpa por divulgar os primeiros casos; na verdade, alega-se que a doença foi transmitida por soldados norte-americanos dos estados do Kansas e Nova Iorque. 

Segundo Castro, a doença chegou ao Brasil por meio do navio-correio britânico Demerara que aportou em 16 de setembro de 2016 no porto do Rio de Janeiro. Ao desembarcarem, cerca de 200 tripulantes foram para a Praça Mauá, na região do Porto e de lá, para as gafieiras da zona portuária e beijaram as mulheres que lhes abriram os braços. Em questão de dias, segundo o escritor,  as pessoas começaram a se sentir mal, caírem doentes  e morrer em questão de horas. 

 No livro, Castro diz que o alerta demorou e, como receita caseira aconselhava-se quinino, como santo remédio. Todos os tipos de purgantes e “destronca-peitos” foram  recomendados, entre eles, a mistura de alfazema, limão, coco, cebola, vinho do porto, sal de azedas, cachaça e fumo de rolo. De nada adiantou. Uma instituição oferecia canja de galinha contra a gripe. A própria Bayer passou a oferecer fenacetina, anunciada como tiro-queda e bem-estar  com a rapidez de um raio, mas a fórmula falhou.

“As mortes em massa começaram a gerar consequências que ninguém podia controlar. Sem leitos suficientes nos hospitais da cidade, os doentes eram amontoados no chão das enfermaria e corredores.Muitos morriam antes de ser atendidos. Os hospitais foram fechados às visitas e nos enterros só se permitia a presença dos mais próximos.Em pouco tempo os velhos rituais – velório, cortejo e sepultamento ficaram impraticáveis. As casas funerárias passaram a não dar conta. Então, começou a faltar madeira e gente para fabricar caixões funerários. As pessoas morriam e ficavam nas portas das casas, esperando pelos caminhões e carroças que deveriam levá-las. Às vezes, descobria-se que alguém dado como morto ainda respirava,era liquidado ali mesmo a golpes de pá. Os recolhidos nas ruas sem identificação eram despejados em valas-comuns ou incendiados.”

O livro relata ainda que a Cruz Vermelha e o Exército armaram hospitais emergenciais e postos de atendimento, mas faltaram medicamentos. A população era orientada a evitar ônibus, bondes e trens e que se pudesse andasse a pé. Fábrica, lojas, cinemas, bordéis, concertos, restaurantes, tudo fechou, conforme conta Ruy Castro. A  cidades do Rio de Janeiro se transformaram em cidades-fantasmas.

 “Curiosamente, as igrejas pareciam imunes ao perigo. Nelas rezava pelos parentes mortos e pelo padroeiro São Sebastião para levar a gripe embora”.

De longe, ainda se via pela janelas mortos em câmeras ardentes. Depois as casas passaram a fechar janelas e portas por temer emanações vindas de fora, embora o inimigo já estivesse dentro. A Casa das Fazendas Pretas que vendia  panos de luto teve seu apogeu ao vender lutos elegantes e completos em doze horas. Mas com a gripe contagiando também as funcionárias da loja qualquer cor passou a valer como luto, diz a publicação. Os doentes eram tantos que faltou quem  vendesse comida, transportasse produtos e aplicasse injeção.

A inflação subiu e o preço do ovo passou a custar o da galinha inteira e o do pão foi comparado ao da cesta básica. Houve falta de produtos e, consequentemente saques foram cometidos pessoas contagiadas. Foi necessário a polícia garantir, pelo menos, uma farmácia e uma padaria aberta. 

Na falta de coveiros, os presidiários eram soltos para realizar os sepultamentos.

A Gripe Espanhola levou de pobres a magnatas do Rio como, os irmão Jorge e Antônio Lage que dominavam a navegação marítima no Brasil, o craque do América-RJ, Belfort Duarte também morreu da gripe, a cafetina Alice Cavalo de Pau, imperatriz dos bordéis da Lapa e o poeta Olavo Bilac que se recuperou da doença mas teve como sequela um problema cardíaco que lhe levou à morte. 

Segundo o médico Miguel Couto, 600 mil foram contagiados somente no Rio de Janeiro e 15 mil morreram, de acordo com o que relata o livro de Ruy Castro.

Mediante ao que assistimos, diariamente com o quadro estatístico de pandemia no Brasil sendo objeto de disputa política, de notícias falsas geradas  no próprio governo federal e da falta de ação do poder público para conter massa de usuários de ônibus, trens, metrôs, estabelecimentos bancários e mercados públicos em meio aos decretos de isolamento social, não estamos tão distantes da concretização dos relatos catástroficos  semelhantes às duas diferentes épocas. 

O certo é que, como diz o compositor Milton Nascimento “nada será como antes, amanhã”.