Ailton Villanova

9 de outubro de 2019

Mais uma força pro Bebeto

Dalamberto José, o Bebeto, sempre foi o “filhinho da mamãe”. Rebento único do casal Estaniberto/Ornibalda Porciúncula, ele primou pelos estudos, tendo concluído muito cedo os antigos ginasial e científico. Mas, rapaz bastante ativo e de espírito independente, passou a trabalhar como vendedor numa loja do shopping e a frequentar um cursinho noturno para submeter-se ao vestibular de economia. De modo que só voltava pra casa tarde da noite. Certa ocasião, extrapolou o horário de costume e encontrou a mãe preocupada:

– Por onde você andou, meu filho? Desse jeito você me mata de preocupação!

E ele, se justificando:

– Sabe, mãe… depois da aula acabei indo pro motel com a Ditinha, aquela gatinha maravilhosa que mora perto da praça…

– Que horror, menino! Ainda bem que não aconteceu nada com você. Vou perdoá-lo, porque que contou a verdade. Agora, tome um prato de sopa e vá dormir, seu danado!

Dia seguinte, Bebeto só chegou em casa quando os pais estavam tomando o café da manhã. E a mãe, aos prantos:

– Ai, meu Cristo! O que você andou fazendo dessa vez, meu filho? Passei a noite em claro, pensando que tinha acontecido  alguma desgraça…

E o rapagão:

– Ah, mãe, não exagera! Eu fui com a professora de matemática até a casa dela, pra tomar uma aula adicional e aí… já viu, né?  Ripa na chulipa!

E a coroa, mais conformada:

– Pelo menos falou a verdade de novo! Tome um prato de sopa e vá descansar.

No dia seguinte Bebeto nem apareceu eu casa. Só voltou três dias depois. Até o emprego ele tinha abandonado!

Desesperadíssima, olhos inchados de tanto chorar, dessa vez dona Ornibalda partiu firme pra cima do filho:

– Irresponsável! Você está querendo me matar, quer? E agora, o que foi que aconteceu?

E Bebeto, com a cara mais cínica do mundo:

– Ah, mãe, sem drama, tá?

– Onde você estava, seu safado? – insistiu a mãe.

– Na praia. Dessa vez foi com duas gatinhas gêmeas lá do cursinho. A gente pegou um barco e se mandou pra Maragogi. Uma loucura, mãe!

Nisso, seu Estaniberto, o pai, que nunca abrira a boca pra nada, deu garra de uma frigideira. Numa agilidade incrível, dona Ornibalda abufelou-se com o marido:

– Larga isso, Estaniberto! Você não vai bater no menino só por causa disso, vai?

E o pai:

– Mas é claro que não! Eu vou é fritar um bife pra ele. Até quando você acha que o coitadinho vai agüentar esse rítmo, tomando a sua sopinha mixuruca?

 

 

Papo de doido

Um sujeito entrou no bar do Natalino e o garçom Rodivaldo, que na ocasião estava incrivelmente sóbrio, chegou junto:

– O que o amigo toma?

– Eu tomo uma boa vitamina toda manhã, tomo remédios  pra combater minha dor de coluna… Ah, aos sábados à noite tomo uma cervejinha com os amigos.

– Acho que o amigo não entendeu: o que eu perguntei é o que gostaria de…

– Bom, eu gostaria de ser rico, de ter uma casa na praia; que não houvesse guerras no mundo, que houvesse uma solução definitiva pro problema da pobreza…

E o garçom, já meio puto:

– O que eu estou querendo saber é o que o senhor quer pra beber!

– Ah, bom. Vamos ver… O que você tem?

– Eu? Nada. Só tô meio chateado porque o meu CSA nunca mais ganhou um jogo!

 

 

Memória traiçoeira

Antigo guarda-livros de grandes firmas alagoanas, o aposentado Joventino Xavier é um velhusco simpático, bem humorado. Mas muito teimoso.

Aos 97 anos de idade, seu Joventino não se conforma com o fato de sua memória andar funcionando devagar, ele que já foi possuidor de um raciocínio privilegiadíssimo. Hoje em dia, ele tem de usar constantemente caneta e papel, para não perder o controle das coisas. Essa é uma tarefa que não realiza com muito gosto. Dona Lucrécia, a esposa, está sempre pegando no pé do coitado:

– Não esqueça de anotar as coisas bem direitinho, viu, meu velho?

Domingo desses, o casal assistia televisão quando o ancião inventou de querer tomar sorvete. Dona Lucrécia sugeriu que ele pedisse a empregada para pegar o sorvete na geladeira. Ele retrucou:

– Pode deixar que eu mesmo pego! Quero movimentar as canelas!

– Ah, nesse caso é melhor você anotar aí no caderninho, pra não esquecer.

– Que escrever que nada! E eu vou lá esquecer uma besteira dessa!

Dito isto, seu Joventino dirigiu-se à copa. Antes de chegar lá, ouviu dona Lucrécia gritar:

– Ô Tino, põe um pouco de chocolate, pra ficar mais gostoso!

– Pode deixar.

– Olha, fica mais bonitinho com uma cereja em cima… Acho bom você anotar!

– Não precisa, eu já disse! Tô caducando não!

Minutos depois o velhote voltou à sala e deu para a esposa um sanduíche de queijo. Ela olhou pro prato com cara de quem não entendeu nada e disse:

– Viu, Tino? Eu não lhe disse pra anotar? Você esqueceu a mostarda!