Ailton Villanova

10 de setembro de 2019

Entre uma cachacinha e a visão…

No recanto mais afastado de Japaratinga viveu um cidadão intitulado Pedro Cândido, popularizado como “Seu Candinho”, pescador profissional, que era bastante chegado a uma cachacinha. Bendito dia, ele passou a sentir uma dor muito forte num dos olhos, opinando alguns metidos a entendidos, ser o primeiro sintoma de glaucoma brabo.

Os dias foram indo e o olhinho do Candinho quase fechando. Passou-se mais uma semana, e a sua outra vista também ficou comprometida. Ele mal enxergava uma garrafa de birita diante de sua pessoa. Mas os seus costumeiros porres continuavam firmes.

Ocorre que numa das idas do oftalmologista Nairo Freitas a Japaratinga (onde, mais tarde, chegou a exercer mais de um mandato de vereador), seu Candinho foi a sua procura, por indicação de correligionários.

Doutor Nairo sentou o pescador numa cadeira, tirou da pasta uns instrumentos de exame de vista e passou a observar os butucos dos olhos do paciente. Enquanto examinava o paciente,  médico indagou:

– Conte-me direitinho quais os sintomas que o senhor está sentindo, seu Candinho…

O pescador abriu a boca para responder à pergunta do esculápio e um bafo violento de cachaça tomou conta do ambiente. Nairo acusou heroicamente o golpe alcoolífero e, meio embriagado, emendou:

– Aaarrrááá! Já manjei no seu problema! Ou o senhor para de beber, ou fica cego!

O velho demorou algum tempo calado, deu uma manjadinha no doutor e perguntou:

– Que mal lhe pergunte, o senhor é de muito longe daqui?

– Sou de Maceió.

– O senhor conhece muito bem esse Brasil?

E o Nairo, tentando advinhar qual a intenção do cara:

– Conheço. Já andei por este país todo!

– E pelo mundo, já andou?

– Já percorri toda a Europa, conheço os Estados Unidos, a África, o Oriente Médio…

– Já vi que o senhor conhece o mundo inteiro!

– Quase todo.

– Quase todo?

– Sim.

O velho calou-se um pouco, olhou pro teto, coçou o cucuruto, respirou fundo e sapecou:

– Doutor, o senhor acha mesmo que  ainda tem alguma coisa por aí, que vale a pena ser vista?

 

 

Com uma “dedada” ela levanta!

 

Irmã Angélica era uma missionária antigona, que vivia no agreste pernambucano, isso nos idos de 1927. Um dia, transitando por uma feira livre da região, teve a atenção despertada para um papagaio muito vivo e inteligente, que rezava o Pai Nosso trepado num poleiro. A religiosa emocionou-se até às lágrimas.

– Quanto o senhor quer pelo lourinho? – ela perguntou ao feirante, dono da ave.

O cara foi curto e grosso:

– Seis mirréis!

Irmã Angélica comprou o penoso, levou pra casa e o instalou perto da janela do seu quarto, que ficava no primeiro andar. De repente, começou a chover e lá em baixo um transeunte reclamou:

– Eita aguinha fiadaputa!

Instantes depois, uma mula empacou na rua. Desesperado, seu dono abriu o bocão a reclamar e, aí, um sujeito que passava naquele  momento, deu a dica:

– Enfia o dedo no cu dessa égua, que ela num instantinho levanta!

Lá em cima, quietinho no seu poleiro, o papagaio ouvia tudo com muita atenção. Dois dias depois, a missionária decidiu que levaria o seu bichinho de estimação para o padre Nildo benzê-lo. Tanto insistiu que o reverendo accedeu. Na hora em que o reverendo despejava a água benta na sua cabecinha, o louro gritou:

– Eita aguinha fiadaputa!

Ao ouvir o palavrão, irmã Angélica desmaiou. Reparando na cena, o papagaio sapecou:

– Enfia o dedo no cu dessa égua, que ela num instantinho levanta!

 

 

O complicador foi o suspensório!

 

Hoje em dia aposentado, o paraibano José Agatenor de Alencar incursionou um milhão de vezes por este Nordeste velho sofredor, montado no seu carrão Maverick de saudosa memória. Durante anos, ele trabalhou para conceituado laboratório farmacêutico, na condição de propagandista de remédios para vacas e bois. Um dia, quando ainda na ativa, lá ia ele pilotando o seu carangão pelo interior de Sergipe, pé enfincado no acelerador.  De repente, avistou na sua frente um sujeito magrinho pedalando uma bicicleta na maior tranquilidade. Nesse momento, acometeu-lhe a ideia de dar um susto no coitado: aproximou-se dele e chamou o dedo na buzina – prrraaammmm! -, obrigando-o encolher-se no acostamento. Mais adiante diminuiu a marcha e viu o cara e a bicicleta passarem por ele disparados, puxando mais de 100km por hora.

Agatenor não se conformou com o fato de ter sido passado para trás por uma simples bicicleta. Daí, resolveu pisar mais fundo ainda no acelerador do Mavericão. Cortou o magrinho e a bicicleta perto de uma curva, a 200km por hora. Um pouco mais a frente, reduziu novamente a velocidade e… nova surpresa! A danada da bicicleta passava por ele outra vez! Isso se repetiu tanto que, já muito puto, o gatgenor resolveu parar a fim de ver se entendia o que estava se passando.

Mal o propagandista de remédios abriu a porta do automóvel para descer, o bicicletista passou voando que nem um bólido e sumiu lá na frente.

– Putaquipariu! Num tô entendendo! – coçou a cabeça Agatenor.

Agatenor resolveu voltar pro carro e, quando se preparava pra isso, reparou que a bicicleta montada pelo magrinho, vinha vindo de marcha à ré, em velocidade espantosa! E sumiu na curva que havia ficado para trás. Aí foi que Agatenor não entendeu mais nada, e resolveu partir de vez. Sobreveio outro susto: a bicicleta já vinha pela frente, virada no cão. E foi lá atrás e voltou, dessa vez mais devagar. Deu uma ré em velocidade mais lenta. E ficou indo e vindo, que nem iô-iô. Até que, finalmente, parou ao lado do Maverick.

Ofegante, o ciclista magrinho desceu da bicicleta e fez um patético apêlo ao Agatenor:

– Meu patrão, será que o senhor me deixa tirar o meu suspensório de elástico, que ficou preso aí na maçaneta do seu carro?

 

Com Diego Villanova