Antônio Pereira

20 de janeiro de 2021

A namorada, o senador e a boquinha no serviço público

Coerência – substantivo feminino
  1. 1.
    qualidade, condição ou estado de coerente.
  2. 2.
    ligação, nexo ou harmonia entre dois fatos ou duas ideias; relação harmônica, conexão.

Até que ponto a nomeação da namorada de um político para um cargo público configura-se algo negativo ou antiético?

O senador Rodrigo Cunha, aliado e apoiador do prefeito de Maceió, João Henrique Caldas, o JHC, como em toda aliança desse nível, indicou o Secretário de Assistência Social (SEMAS), Carlos Jorge, que por sua vez indicou a namorada do senador, Millane Hora para o cargo de Assessora Especial de Política Sociais, com um salário de R$ 11 mil por mês.

A notícia, como era de se esperar, teve grande repercussão, já que Rodrigo Cunha foi eleito senador com uma grande margem de votos, exatamente por ter um discurso de ética política, combatendo a velha política, que, entre outras coisas, em tese, seria contra a nomeação de parentes e agregados para cargos públicos com vultosos salários.

Longe de mim fazer juízo de valor sobre as qualidades técnicas da namorada do senador, mas não deixa de ser uma incoerência política por parte dele essa nomeação, já que prega uma nova forma de fazer política, fugindo do tradicional apadrinhamento, oferecendo a famosa boquinha para os seus, pagos pelo erário. O mesmo serve para o prefeito eleito da capital alagoana, JHC, que tem o mesmo discurso que o senador.

Como se não tivesse nada a ver com o caso, o senador Rodrigo Cunha saiu em defesa da amada, tentando justificar a nomeação pela suposta capacidade técnica de Millane Hora para o cargo. Segundo ele, Millane é uma mulher independente que sempre teve a vida profissional estruturada, tanto como advogada, quanto como artista. ‘Desejo muito sucesso em mais este desafio e, pelo que conheço de Millane, o povo de Maceió vai contar com todo o seu esforço e sua dedicação’, disse em nota.

Por sua vez, Millane disse que o critério de sua nomeação foi técnico e “não por ter um relacionamento com o senador Rodrigo Cunha” e classificou como “função de confiança”. Diante dos questionamentos, ela detalhou que realiza trabalhos sociais, principalmente com mulheres vítimas de violência, e que deve estender essa atuação para a esfera pública.

Millane é uma cantora alagoana, cujas proezas musicais foram ter participado como vocalista da banda Timbalada e  do programa The Voice Brasil, da Rede Globo, entre outros.

Postura retilínea 

 

A coerência política é um caminho sem volta. Não dá para falar uma coisa e fazer outra.

Tecnicamente, não foi o senador Rodrigo Cunha quem nomeou a namorada, mas certamente teve a sua anuência e concordância, ainda mais tendo ele indicado o secretário, que na prática vai ser o chefe da namorada.

Sei que nove entre dez pessoas, caso tivessem a oportunidade fariam a mesma coisa, mas a questão não é essa e sim o fato do senador ter todo um discurso de boas práticas políticas, ética e coerência, que não se encaixam no caso em discussão. É no mínimo uma falta de bom senso a nomeação da namorada para um cargo tão importante, com um salário vultoso. Chama a atenção, tanto é que foi alvo de inúmeras matérias na imprensa e motivo desse artigo.

Esse tipo de ação política só contribui para o descrédito, a fulanização das práticas públicas, jogando no mesmo balaio os que são éticos dos que são meros indicadores de cargos públicos para apaniguados seguidores.

Namoro não é parentesco

 

A nomeação da namorada para um cargo com um salário alto não é novidade no meio político. Em 2019, a equipe jurídica do Senado foi mobilizada para justificar a nomeação da namorada do senador capixaba, Marcos do Val na Diretoria-Geral da casa para ganhar R$ 10.805,49. Os assessores jurídicos do Senado foram mobilizados para analisar o caso, cujo resultado foi um documento de 14 páginas no qual a equipe jurídica da Casa concluiu que “namoro não é parentesco”.

Depois de 14 páginas de argumentação, os advogados do Senado concluem que o chamado “namoro qualificado” ocorre quando há um relacionamento afetivo em que de fato existe uma convivência pública, contínua e duradoura entre o casal.

“ Entretanto, mesmo nesse caso, se não houver o nítido objetivo de constituir uma família futura, não se constitui a união estável”.

*Com informações do Congresso Em Foco