Gerônimo Vicente

17 de maio de 2020

Atos fascistas no Brasil, podem tornar os brasileiros vítimas do fascismo no exterior

Comunidade asiático-americana repudia xenofobia contra os chineses. Muitos têm a nacionalidade confundida e são perseguidos nos EUA (John Tlumacki / The Boston Globe, via Getty Images)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Os atos que pregam ações antidemocráticas no Brasil podem trazer sérias consequências para os brasileiros que moram ou visitarão o exterior no período pós-pandemia. É necessário que tenhamos consciência de que o país se direciona para ser o próximo epicentro do coronavírus e o fato de o número de mortes, somente em São Paulo superar o país mais populoso do mundo que é a China, com 2 bilhões de habitantes, já demonstra que o caos está instalado na saúde pública nacional e, posteriormente na vida daqueles brasileiros que, antes  orgulhavam-se de conhecer novas culturas por meio do turismo internacional.

O assunto começou, na semana anterior, a ser tema de reportagens na imprensa brasileira, essa já  preocupada com a falta de uma política de controle do coronavírus no  país e  com a possibilidade de os brasileiros serem barrados em países europeus quando forem retomadas as viagens internacionais. É que a União Europeia estabeleceu como critério para reabertura das fronteiras internas, o baixo nível de  transmissão da doença. Indicador monitorado na maioria dos países europeus, a taxa de contágio (Rt) indica para quantas pessoas, na média, cada infectado transmite o coronavírus. Quando ela está acima de 1, a doença está fora de controle e a infecção está se acelerando. O problema para os brasileiros que é a taxa de contágio estimada para o Brasil não só é o dobro do considerado minimamente aceitável como também está entre as mais altas entre 54 países acompanhados pelo Imperial College (centro de referência no controle de epidemias), segundo estudo publicado na quarta-feira (13). Além do mais, no  Brasil, o  número de casos confirmados já  superou países europeus como Alemanha, França, Espanha e Itália que detinham as posições negativas quanto à doença. 

Os protestos, considerados como fascistas contra as instituições públicas e que  tentam impedir o isolamento social, certamente contribuem para esses dados adversos no Brasil e  refletirão, negativamente na imagem dos brasileiros lá fora. Essas manifestações, aliadas à onda governamental contrária à OMS, têm provocado o baixo índice de isolamento social em todo o país e, evidentemente, as altas taxas de mortes e de infecções.

 Se o  racismo e xenofobia já predominam entre os europeus e entre os norte-americanos, quanto mais para quem se deslocar de um país da América do Sul que se tornou o epicentro da crise sanitária para países político-econômicos mais avançados?

Alguns fatos já traduzem que  a realidade social pós-pandemia não será  mesma em países europeus e nos Estados Unidos. Grupos de extrema-direita que já se mostravam afoitos e,  em nações europeias e em estados da América do Norte ganham mais força ao atribuir aos imigrantes  a transmissão da causa da Covid-19, uma notícia falsa que pode se transformar em pós-verdade.

Algumas reportagens que tenho lido indicam  que essa situação já é evidente. O site  Democracy Now (Democracia Agora) dos EUA, por exemplo, aponta que  as comunidades negras e pardas estão sendo desproporcionalmente alvo dos policiais na manutenção do isolamento social. Os dados divulgados revelam que mais de 80% das intimações emitidas pelo Departamento de Polícia de Nova York por violações de distanciamento social foram para negros e latino-americanos e 92% das pessoas presas por não distanciamento social são não-brancas. Nas abordagens, têm sido comum, os policiais oferecerem máscaras às pessoas brancas, mas adotarem medidas repressivas contra os negros e latinos que estão nas ruas sem justificativas.

Na Itália,  residentes na cidade de Bérgamo, na região da Lombardia e a que registrou maior número de casos entre os italianos, estão sendo expulsos de cidades suíças fronteiriças, como Muggio e Chiasso, pontos constantes de deslocamento de  habitantes do país vizinho. Internamente, após  o afrouxamento do isolamento, desde a semana passada, casos corriqueiros de preconceitos, como homofobia e discriminação por enfermidades espalharam-se por cidades como Milão e Roma. Um desses casos que li, foi o de  um estudante perseguido por vizinhos em Roma que acusaram a mãe dele de ter infectado  todo o condomínio onde moram. Na sexta-feira (15), apoiadores de atos fascistas e homofóbicos saíram às ruas em grupos na capital italiana desafiando  o afrouxamento por etapas  e lançando ataques ao governo. Neste domingo (17),Dia Internacional contra a Homofobia, o primeiro-ministro italiano Giuseppe Conte reagiu com a mensagem: “O Dia Internacional contra a Homofobia não é um aniversário simples, uma ocasião comemorativa. Deve ser também um momento de reflexão para todos e, em particular, para aqueles em funções institucionais a tomar medidas para incentivar a inclusão e o respeito das pessoas”

No Reino Unido, em Leicester, a repórter Suima Kotecha, da BBC, foi vítima de ataques  de um homem contrário ao isolamento social durante uma transmissão ao vivo. Kotecha é britânica de nascimento, porém como é de origem  étnica negra ou minoritária  foi sujeita ao racismo enquanto informava sobre a crise do coronavírus. Outro repórter de origem árabe, Inzamam Rashid, da Sky News, twittou: “não posso dizer quantas mensagens racistas, vis e odiosas que recebi nas últimas semanas enquanto cobria a crise do Covid-19 . Diariamente, recebo comentários vis.” 

Voltando aos EUA, integrantes da  Comissão Asiático-Americana repudiam o racismo contra a comunidade asiático-americana por causa do coronavírus. Muitos deles estão sendo confundidos com chineses. A jornalista sul-coreana  Euny Hong descreveu na sexta-feira (15), as angústias que tem passado, ao ser revista nos aeroportos norte-americanos, quando é obrigada a provar que não é chinesa. Ela tentou pintar o cabelo de loiro para despistar a desconfiança, mas desistiu ao saber que tem alergia à tinta. Depois compartilhou o drama com uma amiga meio chinesa-americana que a recomendou levar cópias dos livros dela que tem a palavra coreano no título. Mas chegou a conclusão que o único jeito de se livrar mais rápidos das abordagens era  citar o grupo musical sul-coreano BTS, sucesso entre os adolescentes do mundo inteiro, assim como faz um brasileiro ao  se referir à Neymar e Pelé para agradar aos estrangeiros.

O mais absurdo citado no artigo publicado no New York Times foi Euny Hong afirmar que alguns vendedores de roupas americanos viram uma oportunidade de negócios em camisetas com as frases  “Sou asiática, mas não sou chinesa. Não sou chinesa, sou coreana. Não sou chinês, sou malaio ”etc.

E   veja que estamos nos referindo ao segundo maior país do Mundo na Economia, prestes a ocupar a primeira posição em menos de dez anos. Imagine, nós brasileiros provenientes no futuro de um país epicentro da pandemia e com um dos maiores níveis de pobreza do mundo. Será uma marca indelével. O Brasil vai demorar a recuperar a reputação internacional em todos os sentidos, graças ao seu retrocesso político e econômico estimulado por aqueles que sempre detiveram o poder nas mãos.