Gerônimo Vicente

18 de abril de 2020

O merchandising político do sabão em pó no combate à meningite em Alagoas

Em 1975 cheguei a casa onde morava com uma caixa de sabão pó. Em todos os  lares alagoanos, ainda não se falava em máquina de lavar e o  tanque de concreto era o instrumento mais eficaz, além de que os ingredientes considerados aptos para a  uma limpeza perfeita eram o sabão em pedra, uma bacia de alumínio e as mãos. 

Alguém deve estar questionando, o porquê de se falar em sabão em pó . É que  somente agora,  passados 45 anos e depois de expandir as leituras para entender, ainda mais, o momento de pandemia a que vivenciamos é que achei a explicação para meu ato de levar para casa um produto de lavagem de roupas inovador e que prometia deixar as peças de vestuários mais brancas, para a alegria das donas de casas mais pobres e que se sentiram atraídas pelo novo saponáceo em forma de talco, tirando-lhe o peso e a alergia do sabão em pedra das mãos.

 Naquele período em Alagoas detinha 70% de  pessoas analfabetas, saneamento zero e doenças tropicais imperando em todas as regiões. Esses indicadores negativos  assustaram os profissionais de saúde norte-americanos que vieram a Maceió no navio-hospital Hope, em 1973-1974 para salvar vidas da miséria absoluta na área da saúde (contei essa história nos primeiros posts do blog). 

Em 1975, eu  iniciava a adolescência, quando fui vacinado contra a meningite, doença bacteriana que se espalhou pelo país desde 1970. O início dos contágios seu deu pelo bairro de Santo Amaro, em São Paulo e foi  se disseminando Brasil afora. Ocorre que a ditadura militar ocultou a endemia da população brasileira durante cinco anos e, somente depois da importação da vacina do laboratório francês Pasteur é que o processo de imunização tardia começou. Primeiro no Sul e Sudeste e dois anos mais tarde, no Nordeste e Norte. Quem ultrapassou os 50 anos pode observar que, provavelmente, do lado esquerdo do braço, há um marca da pistola de vacinação que depois de aplicada, sangrava por longo tempo até vir a secreção e,  finalmente, a cicatriz deixada pelo movimento da agulha.

Estudava  na Escola Estadual Maria José Loureiro, no Cepa e a unidade de ensino recebeu na sala, promotores de vendas da  empresa, produtora do sabão em pó. A distribuição do produto ocorreu em todas a rede oficial de ensino. Ainda não existia a palavra marketing por essas bandas, mas  a boa ação da empresa junto à massa pobre era um modo de expandir a venda produto, conquistando consumidores  e através deles escantear o sabão em pedra. A investida também tinha a justificativa de que a inovação na lavagem de roupa era umas das formas de se combater a meningite. A lavagem  por sabão em pedra também tinha o mesmo efeito, mas o objetivo  da multinacional era fazer com que o futuro consumidor de baixa renda não detectasse resultado no modo tradicional de deixar as roupas e as mãos limpas e de combater a epidemia e sim, entender o sabão em pó como uma espécie de vacina. Até se parece com a polêmica atual da cloroquina.

Presume-se que a estratégia foi combinada  com o governo militar já que ao ser revelada, a doença causou pânico na população e, principalmente às mães que tinham crianças em idade escolar.Receber  um produto anunciado  no rádio e na televisão e gratuito era uma forma de aliviar a tensão familiar provocada pela doença. Ocorre que o Brasil atravessava o chamado “milagre econômico” produzido a partir de montante de  empréstimos em bancos estrangeiros para realização de obras faraônicas como, a Transamazônica, a  ferrovia transnordestina e estádios de futebol em função do tricampeonato mundial (o Trapichão foi um deles) para que fosse apresentado à população um falso desenvolvimento, cujas consequências vieram com a redemocratização do país, a partir de 1985, quando a inflação galopante, os juros estratosféricos e longa recessão na economia deram às caras.

Nesta semana, houve uma mudança drástica no Ministério da Saúde em meio a pandemia da Covid-19. Não via nenhum heroísmo em Henrique Mandetta, mas  apenas um comprometimento profissional, por ser médico e, consequentemente, ter a obrigação de seguir as recomendações médicas internacionais. Porém, a saída de  sua experiente equipe, mostra que a ciência e técnica perderam espaço para uma onda de negacionismo no país e inédito no mundo.O temor é que a população perca o controle da informação sobre a doença e  o sinal de que isso possa ocorrer começa a ser dado com a indicação de um militar  para assessorar as decisões do novo ministro. 

E assim, poderemos ter uma situação bem típica a que ocorreu na década de 1970 com a epidemia da meningite, ocasião em que os dados da doença foram omitidos e veículos de comunicação censuraram seus  jornalistas, como mostra uma reportagem da BBC, publicada no dia 20 de março deste ano (leia aqui).

  Um dos trechos que mais me  atraiu nessa reportagem  do site britânico mostra que o epidemiologista  José Cássio de Moraes que junto a uma comissão de médicos detectaram o surto de meningite e procuraram alertar as autoridades. O governo se recusou a admitir a existência da epidemia e o médico reagiu da seguinte forma: “os militares proibiram a divulgação de dados. Pensavam que conseguiriam deter a epidemia por decreto. Se eu não divulgo, é como se não existisse. Não sabiam que o vírus era analfabeto e não sabia ler Diário Oficial”.

Também um artigo publicado  pelo Conselho regional de Medicina de São Paulo no final de 2005 sobre a tentativa de censura  da divulgação da meningite no Brasil pela Ditadura Militar traz-nos uma reflexão sobre a postura das autoridades sanitárias diante da pandemia do coronavírus do país . (leitura).