Ailton Villanova

12 de dezembro de 2019

A CAVEIRA QUE NÃO ERA

Campeão de levantamento de copos e arremesso de cascos de caranguejos e siris, nas competições específicas ocorridas anualmente, em toda a década de 50, no Bar do Pereirinha, o distinto Expedito dos Santos (Ditão) saiu de casa numa sexta-feira à tarde, e não voltou mais.

 

No Bar do Pereireinha, que se localizava no aterro do mangue do Bom Parto e onde Ditão dava expediente alcoolífero diário, o boato era o de que Ditão havia fugado com a Edileuza, mulher do vigilante noturno Josafá Pacheco. Mas, este logo desfez a fofoca:

 

– Minha Cicinha continua lá em casa, linda, maravilhosa e gostosa. Quem quiser que vá lá pra conferir!

 

Imediatamente, cinco voluntários se apresentaram para a tarefa. Só voltaram da casa da casa do Pacheco no outro dia, às 5 da manhã, dividindo suas respectivas atenções com a animadíssima Cicinha.

 

Pois bem. Na quarta-feira seguinte ao dia do desaparecimento do Ditão – que ocorrera no sábado anterior –, a procura ao cara já se estendia até aos vizinhos estados de Sergipe e Pernambuco. Não ficou um só hospital ou uma única delegacia de polícia no território alagoano que não fossem visitados por parentes e amigos do Ditão. Dona Balbina, sua genitora, estava desesperadíssima.

 

O irmão mais velho do sumido, o baixinho chamado Alcides, vulgo Cidinho, e que morava na Paraíba, se mandou de lá pra Maceió, ao saber do drama pelo qual estava passando sua amada genitora. Foi aqui chegando e logo perguntando:

 

– Maínha, já acharam o mano Ditão?

– Acharam nada, meu fio! A estas alturas eu acho até que ele tá é morto…!  – respondeu a mãe, entre lágrimas.

– Será, maínha? A senhora já mandou ver no IML?

 

A mãe bateu na testa com a mão espalmada, e exclamou:

 

– Eita, meu Deus! Esqueci…! Esqueci de procurar no IML!

– Pelo menos o esqueleto dele deve tá lá, num é maínha? – completou Cidinho. – Vamos pra lá agora!

– Vamos!

 

Foram. Mãe, filho e um monte de parentes estacionaram suas pessoas na porta do Instituto Médico Legal, e o Alcides meteu os peitos lá dentro, de venta acesa e os olhos esbugalhados. Aí, trombou com o vigilante Benedito Alves, que reagiu:

 

– Ei! Quê que hai? E vai entrando assim… sem pedir licença e nem nada? Tá pensando que isto aqui é cu de “manjuana”?  Vá dando meia volta e se arrancando… Vamos, vamos!

 

O baixinho Alcides, que na Paraíba trabalhava como  capanga de certo político, arretou-se com tratamento que lhe fora dispensado pelo vigilante. Então, não contou conversa: sacou da cintura um revólver-38 da cinta, esfregou na venta do cara e disse:

 

– Me respeite, cabra safado! Repita o que disse, se quiser fazer companhia aos defuntos que estão guardados aqui dentro…!

 

Aí, o vigilante “frocou”:

 

– Quêisso, meu amigo?! Será que a gente não pode mais nem tirar uma brincadeira com os amigos?

– E eu sou lá seu amigo, seu merda!  Eu vim aqui pra  saber se o meu irmão Ditão tá guardado aqui dentro. Ele tá, ou não tá?

 

E o cara, tremendo em cima dos solados dos pés:

 

– Bem… se ele num estiver aqui, a gente dá um jeito de ele estar, né?

 

Deram. Depois de muitas confabulações entre o vigilante e o baixinho Cidinho, arrumaram lá um esqueleto velho, empoeirado, colocaram dentro de uma caixa de papelão e entregaram para a chorosa mãe do Ditão.

 

Dia seguinte, ao retornar do cemitério, onde haviam sido sepultados os supostos “restos mortais” do Ditão, a família o encontrou em casa, deitado no sofá da sala, curtindo uma bruta ressaca.

 

Ditão havia passado uma semana inteira farreando em Fernão Velho,  com os amigos Chico Boca de Sandália e Biu Cara de Rato.

 

 

UMA CARA EXCITANTE

 

O problema do Florisbel se agravava dia após dia. Apelidado de Cara de Priquito, ele não aguentou mais e procurou o psicólogo Marcos Queiroz, por indicação do amigo José Jesuíno, o Duda do restaurante:

 

– Minha situação está ficando cada vez mais crítica. Gostaria que o senhor me ajudasse…

– Me conte o seu drama, meu amigo. – pediu o psicólogo.

 

E o Florisbel:

 

– Seguinte, doutor… todas as vezes que olho no espelho eu fico excitado! Será que isso é narcisismo?

 

E o psicólogo:

 

– Não. Não é. O seu problema é outro bem mais sério.

– E o que é, doutor?

– O seu problema está na cara, rapaz! Ele só se resolve com uma rigorosa cirurgia plástica!

– Puxa! Já vi que é grave mesmo!

– É. É, sim. Você já reparou que a sua cara é uma xoxota escritinha?

 

Com Diego Villanova