Ailton Villanova

25 de setembro de 2019

SEGREDOS RECÍPROCOS

Irmão Febrônio Aragão, falecido há mais de 60 anos, foi um missionário católico de grandes méritos. Nascido no, à época, distrito do Pinheiro, apêndice do bairro do Farol, esse religioso optou por levar o Evangelho aos irmãos da África Negra. Febrônio Aragão, ou simplesmente irmão Aragão, além de ser um grande sacerdote, teve lá os seus defeitos, cometeu os seus pecados. Na sua incursão pela África, de repente ele se achou numa uma aldeia tão atrasada, mas tão atrasada, cujos habitantes jamais tiveram contato com um branco. A princípio, os entendimentos foram difíceis. Afeito aos grandes desafios, Aragão velho de guerra decidiu fixar-se no pedaço. Algum tempo depois, os nativos foram se tornando receptivos e então tudo ficou bem para as partes.

Aí, irmão Aragão se soltou!

Belo dia, correu na aldeia a notícia de que havia nascido o décimo filho do chefe da tribo. Acontece que, sendo os pais pretos retintos, o menino veio ao mundo com a pele côr café-com-leite, ou por outra, marronzinha. Desconfiado, o chefe mandou chamar o missionário:

– Irmão, tem alguma coisa errada por aqui. Esse meu filho nunca poderia ter nascido meio preto, meio branco. Me explique isso direitinho.

Missionário Aragão ficou mais branco do que cêra de vela, lamentou-se intimamente pela fraqueza e decidiu apelar para os sentimentos cristãos do líder negro, se é que ele tinha algum:

– Meu filho, os caminhos do Senhor são impenetráveis e imponderáveis! Por que culpar alguém pelo nascimento dessa criança, quando ela é o símbolo da aliança do seu povo com a civilização?

– Sou selvagem mas não sou idiota, padre. Não posso ser desmoralizado desse jeito. Tá na cara que o senhor é o pai! Portanto, o senhor vai pro caldeirão!

Vendo chegar a sua hora, irmão Aragão jogou a sua última cartada, usando um argumento mais popular, mais entendível pro chefe da aldeia:

– Escute, meu filho, vou lhe dar um exemplo da vontade divina: olhe os rebanhos de cabras deste lugar. Olhou direitinho? Elas são brancas, mas, às vezes, tem nascido uma preta… Essa é a vontade do Senhor: não se deve tentar entender, apenas aceitar.

Ao ouvir o argumento de Aragão, o chefe pediu para todos saírem da oca, aproximou-se do missionário e falou bem baixinho:

– Certo, padre, entendi. O senhor ganhou. Não direi nada sobre a criança, eu juro, mas, por favor, não diga nada aos outros sobre as cabras…

 

Desabafo de um velho tarado

 

Todas as tardes o velhusco Aristides Pompeu era visto na esquina da rua Dois de Dezembro com a praça Pedro II, no centro de Maceió, soltando loas para as garotas que por ali transitavam, principalmente depois das cinco da tarde.

Certa feita, ao fazer uma proposta oitavada a uma senhora um tanto parruda, levou uma porrada tão violenta no pé do ouvido, que caiu estatelado na calçada.

Minutos depois, refeito da bordoada, ele sentou no meio-fio e desabafou:

– Ninguém respeita mais ninguém. Velho antigamente é que tinha saída. Todo mundo reverenciava o pessoal antigo. Dava lugar nos trens, nas ônibus, nos bondes. Hoje, velho é tratado na base do pescoção. Tem até campeonato de atropelar velho. Meu compadre Antiógenes tem levado tanto esbofeteamento que está adquirindo uma tromba de elefante no nariz. Tanto que não sabe se continua convidando as meninas para lugares escurinhos ou procura entrar para um jardim zoológico.

 

Não morreu, mas explodiu!

 

Benzinato Caroba, lavrador radicado em Quebrangulo, pegou uma tosse tão filha da puta que logo pensou em caixão e vela preta. Com a mão no peito e a alma em farrapos, procurou os préstimos do curandeiro Zezinhho Curáu, que falava dificultoso e só recebia com hora marcada. Benzinato chegou pro cara e se abriu:

– Tô precisando das suas rezas, seu Zezinho Curáu!

– Quê que você tem?

– Tô com uma ronqueira da bobônica aqui na caixa dos peitos, que até tô parecendo carro engasgado!

O curandeiro, que não era de muita conversa, falou que Benzinato estava contaminado de ar comprimido nas paredes do vazio, pelo que tinha de fazer um tratamento especial.

E com voz de bula de farmácia, ele completou:

– Você tá carecendo de uma boa garrafada medicanalista.

E mandou que Benzinato Caroba metesse num litro de cachaça duas colheres de pólvora, uma porção de pimenta malagueta, meia raiz de tamiarana, um prego enferrujado, unha de capivara ralada e meia dúzia de caroços de melão-de-são-caetano. Misturar tudo e engolir. Benzinato juntou tudo, saculejou e mandou goela a dentro. Felizmente não morreu. Apenasmente explodiu.

 

Examinador religioso

 

A professora Ana Regina chegou em casa chateadíssima, porque fora reprovada pela vigésima vez no exame de motorista. Mas, estava consolada:

– O examinador me reprovou novamente, Edgard. – disse ela ao marido – Mas eu gostei muito dele, porque ele é tão religioso, que dá gosto!

– Religioso? Como você sabe? – indagou o marido.

– É que a cada baliza, a cada meia-embreagem que eu fazia, ele dizia assim: “Meu Deus! Minha Nossa Senhora!”…