Dr. Wanderley Neto

7 de novembro de 2021

A ARTE DE JULGAR

“A vida é breve, a arte é longa e o julgamento é difícil”. Esta singular frase foi proferida por Hipócrates, considerado o pai da Medicina, muitos séculos atrás, continua atual e oportuna. À sua época, a expectativa de vida de um ser humano era de 35 anos. A arte, a que se referia, era a Medicina, que depois se tornou também ciência. E o julgamento é o tema que abordaremos hoje. Não se trata das questões jurídicas, hoje embasadas por leis, mas que mesmo assim carecem de interpretação e por isto também são difíceis, às vezes, de serem aplicadas. Trata-se de julgar fatos ou pessoas pelos seus pensamentos, ações ou omissões. E como é difícil e temerária esta tarefa! Para assumí-la por inteiro, há que se ter algumas qualidades e, certamente, não ter alguns defeitos que possam comprometer o julgamento.

A inveja é seguramente o pior inimigo. O invejoso se martiriza com o êxito alheio, por isso a inveja é um defeito perverso que atrofia a mente e amesquinha o ser humano. O invejoso sempre terá um julgamento pré-concebido sobre as pessoas e invariavelmente sofre com sucesso dos outros.

O preconceito é outro ingrediente que não permite julgamento, mas condenação sumária. A superficialidade das informações é outro ingrediente que acompanha os apressados e leva seguramente a avaliações equivocadas e muito distante da realidade.

Para julgar um fato ou uma pessoa e, mais ainda, tecer comentário público a respeito, há que se ter serenidade, isenção, informação e honestidade intelectual. A serenidade permite a contemplação, a análise fria baseada em dados e um compromisso com a verdade. A isenção verifica se não há, no gesto, conflito de interesse, muito comum na política e nos negócios. Hoje é obrigatório nas conferências médicas que se declare possível conflito de interesse no assunto a ser tratado, para que as pessoas possam também julgar o mérito das informações repassadas pelo apresentador.

A informação sobre o assunto é fundamental e relevante para não se falar sobre o que não entende. E a honestidade intelectual é o requisito que impede que pessoas, com maior capacidade intelectual, não usem este predicado para fundamentar argumentos que na realidade são sofismas.

Sobretudo se permite que, frente a um julgamento equivocado, possam voltar atrás em suas avaliações e corrigir um erro cometido, exercitando a humildade: um valor maior que deve sempre estar presente em nossas vidas. Nesses tempos de fúria e de tanta mensagem carregada de ódio, não passe a frente o que recebe sem uma boa revisão. Você pode ser a vítima mais a frente.