Gerônimo Vicente

24 de maio de 2020

Cólera em Alagoas, no século 19, foi notícia no New York Times

Texto de 1856 do New York Times

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A primeira notícia que se tem sobre epidemia em Alagoas é datada de 1855, talvez a pioneira disseminação de doença desde quando o estado foi emancipado em 1817. Tratou-se do cólera (o vírus)  ou a cólera (a doença) que entrou no território alagoano pelo município de Penedo em novembro daquele ano, depois  que um trabalhador de uma fábrica de óleo vegetal ter se infectado e, a partir daí, expandiu-se  por toda a região do litoral sul, chegou à capital alagoana em 12 de dezembro de 1855 e seguiu para o norte, fazendo vítimas fatais e milhares de flagelados. A origem da morbidade  em Alagoas estava do outro lado  Rio São Francisco que era a cidade de Neópolis, em Sergipe, província essa que  recebera a doença pelo Rio Real, na divisão com a província da Bahia. Essa por sua vez adquiriu o cólera, segundo pesquisas acadêmicas,  por meio de pescadores de baleias na praia do Rio Vermelho, iniciando-se, deste modo,o roteiro epidêmico por toda  a região Nordeste naquele período.

O vírus, segundo os  pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz, Kaori Kodama,Tânia Salgado Pimenta, Francisco Inácio Bastos e Jaime Gregório  no artigo intitulado “Mortalidade Escrava durante a Epidemia do Cólera no Rio de Janeiro (1855-1856)”,  chegou ao Brasil em maio de 1855 pelo porto de Belém, trazido por uma embarcação portuguesa, chamada O Defensor que tinha como passageiros colonos da cidade do Porto.Embora alertadas por um médico que atuava como inspetor de saúde  no ancoradouro, as autoridades resolveram liberar a embarcação e a doença se espalhou pela capital do Pará, estendeu-se pelo Maranhão, Amazonas, Bahia e dai, subiu com uma celeridade impressionante em direção ao Nordeste do país. As maiores vítimas foram escravos, já que senhores de engenhos, autoridades, políticas, religiosas e judiciária   evadiram-se das cidades e freguesias  atingidas. Como sugestão de leitura indico o livro Alagoas em Tempos de Cólera, do professor Sávio de Almeida.

E quando falei em notícia no início do texto é porque  a chegada da cólera no Brasil virou fato noticioso internacional, depois de se espalhar e devastar milhares de vidas pela Europa de 1832 a 1857. A epidemia chamou a atenção do jornal americano New York Times e, talvez, pela primeira vez, Alagoas, na condição de mais nova província do Império,  foi destaque em reportagem internacional  com o contúdeo informativo drástico.

Na edição de 22 de março de 1856, ocasião em que a doença já havia feito estragos e  contabilizavam-se os mortos, o periódico, considerado um dos mais lidos do mundo, informou a situação da propagação do vírus na província de Alagoas. A notícia chegou ao jornal por meio de uma correspondência levada do Rio de Janeiro em uma embarcação chamada June E.  Williams que tinha como capitão, um homem  de nome Urquhart e que havia aportado em News Orleans, principal porto norte-americano naquela ocasião. Os jornalistas tomaram anotação da expansão doença no Brasil a partir da capital do Império, o Rio de Janeiro e  relataram também  os dados de Alagoas,  uma das províncias mais atingidas na rota  sul-norte do país pelo vírus da cólera devido às precárias condições sanitárias da época  do império escravagista.

O jornal conta que a devastação em Penedo e Piaçabuçu, sul de Alagoas, foi terrível e destaca a coragem do povo alagoano. “Felizmente, o povo não perdeu a sua coragem diante a situação de flagelo e estimulou a ajuda mútua”, afirma The News Times.

Segundo o jornal internacional, Piaçabuçu, com uma população de cerca de mil “almas”  teve 800 infectados. Em  Penedo e regiões vizinhas 1500 pessoas adoeceram. Já o centro da província que era Maceió,  um número de vítima não foi maior, porque foram adotadas medidas preventivas com antecipação, como a  construção  de pontos de quarentenas e enfermarias chamadas  de “Lazareto”, um deles no porto do Francês, local onde os doentes trazidos de barcos eram tratados para evitar contato com a área urbana. 

A reportagem secular do jornal americano cita ainda a situação da cólera na Bahia  e aponta a  comunidade de Santo Amaro como o local de disseminação da doença no Nordeste do país.  A falta de gêneros de primeira necessidade como, alimentação e vestuários nas províncias de Bahia, Sergipe, Alagoas e Pernambuco também foi destacada na página do New York Times em março de 1856.

O que se pode perceber  ao acessar o texto escrito em inglês é que a informação demorou dois meses para ser noticiada  aos americanos, pois a informação trazida  na embarcação é de 23 de janeiro de 1856 e a notícia publicada é de 22 de março daquele ano.

Esse recorte encontrei no portal do jornal New York Times,  em 2009, quando o acesso às informações noticiosas era disponível aos leitores. Na ocasião, além dessa,  encontrei  outras informações importantes sobre a  história da província de Alagoas como, por exemplo, a viagem do imperador Dom Pedro II em um barco a vapor por toda a extensão do Rio São Francisco e que teve como convidados na comitiva correspondentes de jornais estrangeiros. Atualmente, o espaço é pago e já não se pode visualizar a página completa do jornal,  como há dez antes. Mas ainda é possível acessar um resumo da informação sobre a província e o Estado de Alagoas no mais destacado jornal impresso do mundo.

Acesse a notícia  do New York Times  (em inglês)