Gerônimo Vicente

26 de abril de 2020

Pandemia, jornalismo móvel e o grito de comunidades esquecidas

 

Quarta-feira, 22 de abril de 2020 – Blumenau-Santa Catarina

Aglomeração com idosos e crianças no meio das pessoas recepcionadas  sem álcool gel.Corredor polonês de aplausos que podem disseminar vírus. E, para completar, um músico tocando saxofone soltando salivas para tudo quanto é lado. Essa foi uma das cenas  mais esquisitas e, ao mesmo tempo preocupante, registrada na semana passada, no  início do pico da  epidemia do coronavírus no Brasil. As imagens foram registradas em um shopping da cidade de Blumenau, em Santa Catarina, estado onde o governador  resolveu permitir a abertura do comércio.

 O combo de irregularidades provocou reações contrárias nas redes corais e despertou a atenção dos principais veículos de comunicação do país e do Mundo. A repercussão pode se ampliar porque, neste sábado (25), a cidade catarinense registrou recorde de novos casos da Covid-19. São 25 a mais  no total de 105 diagnósticos registrados na sexta-feira. E  a conta já chegou ao colo do prefeito Mário Hildebrandt, acusado de  ter se omitido  a atender as recomendações da Organização Mundial da Saúde. As imagens foram expostas por usuários de redes sociais. Embora os clientes fizessem parte da aglomeração sem distanciamento social, eles  ficaram espantados com presença massiva dos demais adeptos da desobediência e  resolveram filmar. O fato se transformou  em pauta jornalística que ultrapassou fronteiras. É o chamado jornalismo móvel que assim como o jornalismo de dados está sendo lembrado por toda a mídia do mundo durante essa crise sanitária.

Essa modalidade de jornalismo surgiu no  início da década atual  – 2010, ocasião em que, devido a  concorrência acirrada  pelo jornalismo em tempo real  e em buscas de  novos assinantes e usuários, os principais portais de notícias dos países ocidentais  passaram a estabelecer a comunidade, não só como fontes, mas também como distribuidora de informações. Assim nasceu  a aba “Você é o Repórter”, frase que incomodou bastante as entidades sindicais de jornalistas que viam na ação, o princípio da precarização da categoria.. 

Imagem de telefone celular de um participantes registrou explosão em Boston essencial para a investigação do atentado

O método já vinha  ganhando formas, desde o atentado de 11 de setembro de 2001 contra o World Trade Center  em Nova Iorque. O jornalismo norte-americano recorreu às imagens das câmeras de videomonitoramento para melhor entender o atentado. No entanto, foi outro atentado que  levou adiante o chamado mobile  journalism.: o da maratona de Boston-EUA, em 2013, quando duas explosões de bombas caseiras provocaram a morte de três pessoas. O compartilhamento de imagens da prova por pessoas presentes ao evento esportivo permitiu que o FBI, a polícia federal norte-americana, apontasse os irmãos chechenos Dzhokhar Tsarnaev e Tamerlan Tsarnaev como os responsáveis e os trucidaram.

 No Brasil, as manifestações de 2013 contra o aumento abusivo dos preços da passagens de ônibus e que levou milhões de pessoas às ruas foi o estopim para a utilização de vídeos caseiros como fontes de notícias. Desse movimento, surgiram mídia alternativas como o Mídia Ninja, TV Favela e outros canais vinculados aos movimentos sociais. Jornalistas também apostaram no projeto ao utilizarem as ferramentas do smartphones e, por último, surfando  nos protestos de 2013,  surgiu  como  a “extrema-direita” eleita em série  nas eleições presidenciais e parlamentares de  2018, a partir do mau uso das ferramentas móveis.

Contudo, a crise provocada pela Covid-19 redimensionou a forma de se fazer jornalismo, notadamente nos veículos de comunicação eletrônicos. As  notícias da epidemia nas cidades chinesas de Wuhan e Hubei, epicentros da Covid-19,  somente foram possíveis graças  aos  habitantes confinados e  outros que se arriscaram a sair de casa  por necessidade, que se tornaram  principais informantes da mídia ocidental. Na Europa, os veículos eletrônicos de comunicação, como drones e smartphones indicaram  o panorama da crise sanitária, nas cidades atingidas. 

A televisão brasileira teve que se render aos esquecidos programas de videoconferência, como o Google Meet, Zoom, Skype, WhatsApp e outros que se transformaram em softwares de entrevistas pautadas , a partir das imagens referentes à pandemia e   viralizadas em redes sociais, principalmente aquelas com sentido adverso às recomendações da OMS, como aglomerações, denúncias sobre falta de EPIs (Equipamento de Proteção  Individual) feitas por profissionais da saúde, ausência de leitos nas unidades hospitalares. além das mais variadas teorias conspiratórias, por incrível  que parece estimuladas por agentes públicos pagos pelo povo.

O resultado prático positivo da pauta a partir do jornalismo móvel é  que as comunidades  desassistidas revelam, ao seu  modo  o desprezo e as mazelas do poder público e essas reclamações obrigam os representantes engravatados  a dar explicações sobre o desleixo de suas atribuições . Por exemplo, no caso do vídeo do shopping em Blumenau, não fossem  os detalhes apontados pelos usuários das redes sociais que por meio de memes  detectaram o show de   horrores,  como o saxofonista disparando salivas sobre os clientes e  a aglomeração de idosos e crianças juntos, o assunto não ganharia repercussão  e, certamente o Ministério Público catarinense  não pediria a abertura de termo consubstanciado para apurar crime contra a saúde público.

O  Chamado Mojo (mobile journalism) ganha, a partir dessa crise sanitária uma dimensão que junto com as redes sociais podem ocupar em um futuro breve,  o espaço da mídia eletrônica tradicional.