Ailton Villanova

7 de dezembro de 2019

O SERESTEIRO ATRAPALHADO

Mais conhecido como “Guilhé”, o barbeiro José Guilhermino Fonsêca era um cara romântico pra mais da conta. Basta dizer que era canceriano. Amigo de infância do famosíssimo astro da música popular brasileira Djavan, ele nasceu no bairro Pitanguinha, localizado na parte alta de Maceió. Apesar do esforço para ser compreendido pelas mulheres, Guilhé jamais caiu nas graças de uma delas, sequer.

 

Guilhé era barbeiro. De modo que só andava perfumado e bem alinhado. Se querem saber, foi ele quem incentivou o Djavan a ser cantor, desviando-o da carreira de craque do bate-bola. Melhor para o público brasileiro, que ganhou um artista da qualidade desse nosso nobilíssimo conterrâneo.

 

Nas peladas do campo de futebol da antiga Vila Operária da Fábrica Alexandria, situado na divisa Farol/Bom Parto, Djavan matava a pau, com a pelota o pé. Driblava o adversário, deixando-o de bunda o chão. Nos intervalos do primeiro para o segundo tempo, ele aproveitava para inventar músicas de toda qualidade e espécie. Foi quando Guilhé chegou pra ele, e lascou lá um papo premonitório:

 

– Djavan, meu irmão, vou te falar um papo de futuro… Futebol não é pra você, não. Nesse barato tu é meio fraco!

 

Djavan alarmou-se:

 

– Quêisso, Guilhé! Você não é meu amigo, não? Eu sinto que vou ser um craque!

– Vai! Tu vai ser craque é da música, meu chapa! Repare no que tô dizendo.

– Mas, eu nasci pra jogar bola, Gulhé!

– Nasceu não! Tu nasceu pra ser famoso na música. Vá por mim, cara! Futebol num dá dinheiro, meu irmão…!

 

Preciso dizer mais alguma coisa de Djavan? Não preciso. O que eu preciso é continuar falando do Guilhermino, eterno apaixonado pelas mulheres.

 

Enquanto nosso astro do cancioneiro nacional encantava plateias mundiais e recebia entusiasmados aplausos em tudo quanto é canto do planeta, eis que Guilhé permanecia na sua amada Pitanguinha , exercitando o ofício capilarístico e sonhando com o surgimento da mulher que o faria feliz para o resto da vida.

 

Belo dia, montado na sua bicicleta Monark, ele circulava pelo bairro vizinho chamado Pinheiro quando, de repente, topou com a morena Maria José, a Zezé. Seu coração disparou e imediatamente ele se apaixonou.

 

Zezé sequer notou a figura do Guilhé que, a partir daquela hora não a tirou mais do pensamento. Mil vezes ele tentou, sem sucesso, se aproximar da morenaça. Até descobrir onde ela morava, o barbeiro gastou quase todas as suas energias circulando pelas ruas do Pinheiro. Os pneus de sua “bike” se desgastaram até ficarem carecas. Bom de escrita, Guilhé produziu incontáveis missivas declatórias de amor eterno à Zezé, que não estava nem aí pra ele. Viúva, o barato dela era o finado marido Tonhão, assassinado havia anos, com mais de cem balaços, num tiroteio que travou com a polícia, no Tabuleiro do Martins. Tonhão foi um tremendo arruaceiro.

 

Desesperado por conta do amor não correspondido, Guilhé recorreu ao amigo Djavan, num ligação telefônica:

 

– “Dija”, meu chapa, eu quero um conselho seu…!

 

E contou todo o seu drama pro amigo, num desabafo quilométrico. Aí, Djavan foi pragmático e sábio:

 

– Guilhé, toda mulher é romântica e gosta de ser enaltecida. Já que você também é romântico, eu tenho uma ideia que acredito dará certo…

– Tem mesmo, “Dija”? – vibrou Guilhermino. – Manda de lá essa ideia!

– Faça uma serenata pra ela!

– Uma serenata, “Dija”???!!! Mas, eu não sei cantar direito, meu irmão…

– Não tem problema. Pegue o meu repertório, escolha as músicas que melhor se adaptem à ocasião e mande brasa. Garanto que ela irá adorar…!

 

Nessa mesma noite, já chegando a madrugada, Guilhermino – todo perfumado e vestindo o seu melhor terno – estacionou sua pessoa ao pé da janela do quarto da morena, dedilhou as cordas do violão – plem, plem, plim, tóóiiimm – escolheu o tom, abriu o bocão e, todo desafinado, tentando imitar o Djavan, sapecou:

 

– “Meu ar de dominador/ Dizia que eu ia ser seu/E  você seria minha/ (…) Fiquei mudo ao lhe conhecer…

 

Guilhé só cantou até aí. Não pôde continuar porque recebeu violenta tijolada no meio da testa, estendendo-se no chão, desmaiado, com um imenso calombo no meio da testa.

 

A morena Zezé não soube apreciar a performance do apaixonado cantador. Ela sonhava com os anjos, deitada no seu leito, quando foi subitamente acordada com o berreiro do Guilhé. Aí, reagiu na conformidade do susto que lhe provocou incontrolável revolta: deu garra de um tijolo que inexplicavelmente se achava no batente da janela e o arremessou na direção do apaixonado:

 

Dia seguinte, ele recebia alta do Pronto Socorro sem esconder a sua indignação, dado o fato de que a sugestão  oferecida pelo amigão de infância não havia sido das mais felizes:

 

– Pô, o Djavan devia ter me dado uma ideia melhor! Isso é amigo? Não é!

 

Com Diego Villanova