Ailton Villanova

3 de outubro de 2019

Bebeu também a memória!

No Bar do Vicentão, de saudosa memória, a negrada enchia a cara e ao mesmo tempo assistia, pelo ensebado receptor de televisão da casa, a partida de futebol envolvendo os times do Palmeiras e do São Paulo. Inserido nesse contexto encontrava-se o distinto cidadão chamado Alcebíades Mamede, o Bida, que bebia a sua cervejinha, tranquilo no seu canto. Terminava uma, pedia outra.

Mal terminou o bate bola na TV, o bar começou a esvasiar e, lá pelas duas da madrugada, não tinha mais ninguém, a exceção do gerente, do garçom e do Bida.

Em dado momento, o garçom chegou pra ele anunciou:

– O bar está fechado, parêia. Aqui tem  conta!

Com  vista mais embaralhada do que letra de médico, Bida contou a grana que tinha no bolso, pagou a despesa, tentou levantar-se e caiu estatelado no chão. Tentou reerguer-se caiu de novo. Mais uma vez, outra estabacada.

– Desculpa aí, meu! Pacienciazinha comigo tá?

Dado o fato de que não conseguia ficar de pé, depois de mais de duzentas tentativas, Bida saiu rastejando até a porta do bar, na esperança de que o ar fresco pudesse lhe deixar sóbrio, para poder se levantar.

Fora do bar, tentou outras mais de cinquenta vezes se levantar e  o resultado foi o mesmo das vezes anteriores.  Bida já estava todo  de hematomas, de equimoses e escoriações de toda ordem.

Horas mais tarde, bastante cansado, ele resolveu rastejar os oito quarteirões que separavam o bar de sua residência. Quando chegou  à porta, insistiu em se levantar mais uma vez e… nada! Com muito sacrifício ergueu-se um pouco, tirou as chaves do bolso, com uma delas abriu a porta e foi se arrastando até o quarto de dormir.

Bida subiu na cama e, de tão cansado se achava, que logo caiu no sono. Na manhã seguinte, acordou com a  mulher lhe dando o  esbregue:

– Bonito, né, seu Bida? Encheu a cara novamente, não foi?

– Eeeeuuu?! Quem foi que lhe disse isso? – ele retrucou com a maior cara de santo.

E a mulher:

– Ligaram do bar. Você esqueceu lá a sua cadeira de rodas, outra vez!

 

Cavaleiro em apuros

 

Nascido e criado na capital, o mancebo Magnaldo Vicente , visitava, pela primeira vez, uma cidade interiorana, na qualidade de pesquisador de certo instituto de estatística. Encontrava-se, então, na histórica Palmeira dos Indios. Com um certo ar de superioridade, ele procurou uma fazenda e disse ao capataz:

– Gostaria de alugar um bom cavalo!

O capataz manjou na figura e respondeu:

– Todos os nossos cavalos estão indisponíveis… Ah, um momento! Posso lhe ceder o meu, que é amestrado.

– Abestado?

– Não, senhor. Eu disse a-mes-tra-do!

– Ah, bom. Ótimo!

O capataz prosseguiu:

– Para andar, você tem de dizer “Graças a Deus!” e, para ele parar, você diz “Ave Maria!”

Magnaldo montou no cavalo e falou:

– Graças a Deus!

O bicho disparou estrada afora e o Magnaldo adorando aquela aventura. De repente, ele notou qure o cavalo estava se dirigindo para um abismo. Cadê que se lembrava da palavra para fazê-lo parar?  E começou a rezar em voz alta:

– Ave Maria…

O animal parou bem na beirinha do desfiladeiro. Suando frio, Magnaldo Vicente passou a mão pela testa e suspirou aliviado:

– Graças a Deeeuuusss…

 

O defunto que morreu rindo

 

O diarista Guadalnoberto de Almeida era  um grande amigo do finado Pretérito Souza, que teve uma morte trágica, entretanto bastante interessante. Dá pra entender o termo “morte interessante”? Pois bem, na ótica, ou por outra, na descrição do sobredito Guadalnoberto, o óbito do Protérito não poderia ser considerado de outro modo.

Era de manhã quando o Guadalnoberto bateu na porta da prefalada vítima e atendeu um seu irmão. Sem mais delongas, o  recém-chegado sapecou:

– Vim avisar que mataram o Protérito, nestante, na porta da sorveteria do Mané Olhão.

– Ai, meu Deus! – gemeu o irmão, segurando-se na parede para não cair.

O mensageiro completou:

– Fique tranquilo porque o seu irmão morreu numa boa!

– Como morreu numa boa? Ele não foi assassinado?

– Foi. Mas morreu rindo!

– Rindo? Como pode um cara assassinado morrer rindo?

– É que ele levou uma facada no sovaco!

 

Mosquito capado

 

No meio da mata, a do Rolo, em Rio Largo, três caçadores davam um tempo na perseguição aos bichos. Em volta de uma fogueira, eles biritavam e discutiam qual deles era o mais hábil no manejo do facão de arrasto. Na verdade, só dois dos caçadores discutiam. O terceiro, chamado Benedito Santino, mais conhecido como Bremó, permanrecia calado, só acompanhando o papo dos companheiros.

Em dado momento, um deles viu uma mariposa voando e, com um golpe certeiro, cortou-a ao meio. Começava a se vangloriar do feito, quando o segundo, antes que os seus parceiros tivessem tempo de reparar direito no detalhe, cortou duas moscas em pleno vôo. Depois dessas proezas, os dois ficaram na expectativa da reação do Bremó, que continuava na dele.

De repente, apareceu um pernilongo voando. Bremó moveu o seu facão com rapidez – zip, zipt! -, mas o mosquito continuou voando. Os dois outros caçadores permaneceram olhando para o Bremó, que não dizia nada. Até que um dos caçadores não aguentou:

– Ô Bremó, o pernilongo continua voando!

Aí, ele falou:,

– Bom, voando ele tá, mas nunca mais vai fazer pernilonguinho.