Ailton Villanova

3 de dezembro de 2019

O DEFUNTO ERRADO

Religiosa ao extremo e moradora do bairro Bom Parto, em Maceió, dona Edite Balbino dos Santos (Ditinha para os mais chegados) apreciava bastante exercitar o seu espírito solidário. Solteirona, além de tecelã da fábrica de tecidos Alexandria, ela era presidente da congregação “Filhas de Maria”, cuja sede funcionava dentro da própria paróquia bompartense. Dona Ditinha não perdia um enterro.

 

Quando morria um cristão no Bom Parto ou em qualquer outro bairro adjacente, alguém batia na porta dela:

 

– Dona Ditinha, fulano morreu!

 

 

E lá ia ela apressadinha para a casa do inditoso ou da inditosa carregando um rosário de contas negras e um livro contendo orações e rituais religiosos católicos. Chegava lá, abria o livro em cima de um móvel, mandava o pau a rezar, ao tempo em que marcava através das contas do rosário, as quintas das ave-marias e pai nossos. Para completar, ainda puxava os cânticos, que eram acompanhados por todos os presentes.

 

Dona Ditinha era famosa no barato velorial.

 

Certo dia, encontrava-se a santa criatura aguando as plantas do jardim de casa quando parou um carro na porta, dele descendo uma chorosa senhora, por sinal sua prima, que foi logo avisando, sem mais delongas:

 

– Ditinha, o Diomedes morreu!

 

A rezadeira caiu desmaiada. A notícia da morte do seu único e querido irmão Dió a pegou de surpresa.

 

A prima que fora levar a infausta notícia, atrapalhou-se toda na hora de informar o local do velório. De modo que, horas mais tarde, quando Ditinha, muito nervosa e emocionada, em lá chegando, foi mal interpretada e agredida estranha e impiedosamente por uma madame descontroladíssima.

 

Primeiro, Ditinha levou uma porrada no pau da venta. Depois, apanhou no lombo, tendo a bíblia que havia levado, servido de instrumento para a agressão. Mas, Ditinha foi a culpada de tudo. Ele não devia ter prestado atenção no terreno onde estava pisando?  Devia.

 

Quando Ditinha entrou no velório, já foi fazendo aquele drama, sem olhar direito na cara do defunto que repousava todo aprumado dentro do esquife:

 

– Buá… buááá… Snif… Dió. Meu querido… ooohhh Dióóó…

 

A madame que choramingava do lado do esquife, não gostou daquela encenação. Julgando-se traída e, por conseguinte ofendida, a mulher, que era viúva do finado, deu uma volta em torno do caixão, segurou Ditinha pela goela, aplicou-lhe  violenta porrada na cara e completou a agressão utilizando, como látego, a pesada bíblia que ela conduzia.

 

Coincidência: o nome daquele finado também era Diomedes!

 

Em suma: as explicações e justificativas para a confusão que se estabeleceu no velório, concluíram que, na afobação, Ditinha havia entrado no velório errado.

 

 

NO TROCO, A LIÇÃO

 

Brincalhão ao extremo, o baixinho Roosevelt de Almeida Rocha, exsurgiu de uma família de humildes operários da finada fábrica de tecidos Alexandria, que sustentou o bairro Bom Parto por mais de quatro décadas. Quando ele concluiu o curso primário, no Grupo Escolar Cincinato Pino, foi trabalhar numa loja de móveis da Rua do Comércio de Maceió. À noite, estudava no Colégio Guido de Fontgaland, que ficava no Farol. Seu sonho: ser médico. Conseguiu, anos mais tarde, a custa de muitos sacrifícios.

 

Rossevelt nunca se descuidou de sua veia humorística. No trabalho, no colégio, depois na faculdade de medicina, ele era a alegria da turma. Operoso, aproveitava o tempo que lhe sobrava para dirigir o taxi de um tio chamado Osvaldo. O dinheiro que dele resultava era para comprar livros.

 

Graduou-se médico e, quando dispunha de uma folga, olha ele ao volante do taxi do tio Osvaldo. A grana que dele provinha ele investia no seu consultório, que ficava na Rua Augusta, centro de Maceió. Parou de dirigir taxi porque logrou classificar-se em primeiro lugar num concurso público para médico plantonista do Hospital de Pronto Socorro.

 

Uma bela noite, doutor Roosevelt Rocha voltava pra casa, no Farol, dirigindo o seu fusquinha quando foi parado numa “blitz”, na Praça do Centenário. O comandante da guarnição de PMs que operava na fiscalização, mandou que ele parasse, ele parou, e o cara berrou:

 

– Desce, porra!

 

O militar nem permitiu que ele emitisse um “ai”. No mesmo tom arrogante, o oficial anunciou:

 

– O carro tá preso! Olhaí o farol apagado!

– Mas, seu tenente… – tentou dialogar o médico – Eu nem sabia…

– Cala a boca, “nêgo” safado! Esse carro é seu mesmo, ou é roubado, hein, nego?

– É meu…

– E por que você tá todo de branco? Nego de branco só pode ser pai-de-santo… Quá, quá, quá… O carro tá preso! Vá embora, se não quiser ser preso, também! Fora!

 

Dia seguinte, quase na mesma hora em que seu carrinho fora apreendido na blitz passada, doutor Roosevelt cumpria plantão no HPS quando baixou lá um sujeito aos prantos, com o fundo das calças todo melado de cocô, apresentando um quadro suspeito de infarto:

 

– Socorro, doutor! Me salve, meu doutorzinho…!

 

O cara era o arrogante e “brabo” oficial DA NOITE ANTERIOR, que apreendera o fusca E AINDA  DESACATARA o médico…QUE NAQUELE MOMENTO ESTAVA LHE SALVANDO A VIDA.

 

Com Diego Villanova