Ailton Villanova

18 de setembro de 2019

O MORTO QUE NÃO MORREU

No Bom Parto dos bons tempos existiu, entre tantas figuras populares, o cidadão intitulado Benedito Santino, mais conhecido como “Biu Bremó” (a orígem do apelido eu conto depois). Operário da finada Fábrica Alexandria, ele foi um grande proseador. A turma gostava de ouví-lo contar causos e histórias que jamais viveu, mas que sua fértil imaginação produzia com facilidade incrível.

Meu avô Juca Tenório, bom de pontaria, era adepto de caçadas a animais silvestres nas florestas alagoanas, assim como seu Bremó, companheiro de aventuras matenses. O velho apreciava mexer com a criatividade de seu Bremó.

Um dia, depois de ter sofrido um acidente, que quase o deixou sem as canelas, Juca Tenório aposentou-se, abdicou do seu lado aventureiro e passou a viver uma vida caseira, entretanto sem o tédio que comumente se experimenta em casos do tipo. Mas a sua veia humorística continuou sempre afiada.

Bastante criativo, possuidor de muitas habilidades, Juca Tenório achou de montar uma barbearia, só para ter os amigos por perto. Deu certo. Até os garotos Divaldo e Divany Suruagy, que a época moravam no Alto da Conceição, frequentavam o salão do velho Juca.

Certa tarde, eis que adentra no recinto o popularíssimo Bremó. Foi uma festa. Seu Juca não contou conversa:

– E então, amigo velho, como vão as caçadas?

E seu Bremó, exibindo a sua tradicional peça dentária com dois dentes de ouro na frente:

– Boas pra mais da conta, seu Juca!

– O que mais você tem caçado ultimamente?

– Olha, pra lhe ser sincero, eu tenho preferido caçar mais onça. Ontem mesmo fui caçar na Mata do Rolo. Acontece que na pressa de sair de casa, acabei esquecendo de botar munição na minha espingarda 28…

– E como é que você fez? Apareceu alguma onça?

– Logo na primeira noite! E quando fiz pontaria e apertei o gatilho é que ví que não tinha nem um chumbinho pra remédio! E a onça danada de braba, alí na minha frente!

Aí, o velho Juca achou de dar corda no caçador:

– Mas só tinha uma onça, Biu? Aquela mata está cheia de bichos. Por acaso não tinha nem uma cobra?

E Biu Bremó que não gostava de pouca mentira, respondeu:

– Tinha logo duas. E não eram cobrinhas qualquer. Eram duas gibóias de mais de dez metros de comprimento. As traiçoeiras, surgiram por trás de mim, já pensou?

– Tinha algum tigre brasileiro?

– Tinha. Mas o tigre não era brasileiro, não. Era tigre da África. Ficou só me manjando, assim… do lado. E eu de olho nele.

Meu avô Juca estava achando pouco e deu mais um incremento na provocação:

– Ô Bremó, se na Mata do Rolo tem tigre, é bem capaz de ter leão… Será que tem?

– Ora se tem… Tem, sim. Agora mesmo eu ia falar do leão que me surgiu. Era um leãozão de mais de cinco metros!

– Minha Nossa Senhora! E você sem um chumbinho, sequer, na espingarda?

– E então, meu amigo.

Foi nesse ponto que, se segurando pra não cair na risada, Juca Tenório colocou o mentiroso entre a cruz e a espada:

– Essa foi demais, Bremó! Você com uma onça na sua frente, duas gibóias atrás, mais um tigre e um leão famintos querendo lhe comer… o que foi que aconteceu, afinal?

Bremó pensou um pouco e, sem alternativa, fulminou:

– O senhor não está vendo, seu Juca? Morri!

E estendeu-se no chão.

 

 

Ué, cadê a igreja?!

 

Eraldo Pitu foi um biriteiro que viveu no Farol. Às vezes, dava um dia de serviço, quando estava sem grana para alimentar o vício da embriaguês. Um dia ele se achava em frente a igreja de Nossa Senhora do Rosário, na rua do Sol, olhando pro alto, balançando que nem badalo de sino, quando se aproximou o colega Nelson Frieirinha:

– Ô parêia, quê que tu tá fazendo aí de cara pra cima?

E o Eraldo:

– Tô querendo ver as horas, aí no relógio da torre da igreja, e num consigo!

– Claro que num consegue, porque tu tá bêbo demais! Deixa que eu vejo pra você…

Então Frieirinha levantou a cabeça, fixou a vista nos ares e ficou parado, no maior silêncio!

Eraldo Pitu agoniou-se com a espera:

– Comequié, rapaz, ainda não viu as horas aí na torre  da igreja?

– Qualé a hora, bicho? Num tô nem vendo a igreja! Onde que ela tá?

 

O celular do Severino

 

O porteiro Severino Elias, negrinho de bom caráter, sempre batalhou na vida para possuir do bom e do melhor, dentro das suas possibilidades e limitações, claro. Além de porteiro noturno de um edifício finório da orla marítima, Severino (mais conhecido como Biu Pretinho) é também funcionário de um lava-jato na Ponta Verde. Trabalha lá apenas no horário vespertino. A manhã ele pega pra dormir, que não é de ferro.

De tanto ver os ricaços do prédio falando ao celular, Biu Pretinho botou na cachola a idéia de também possuir um bicho daqueles. Comprou um celularzinho modesto e, aí, começou a esnobar.

Domingo desses, estando de folga, meteu-se numa bermuda xadrez, camisa polo e sapato-tênis, o escurinho achou-se tirando onda de bacana na praia de Ponta Verde! De vez em quando parava junto de uma roda de garotinhas, danava o dedo na tecla do aparelho e simulava mil ligações. Diabo é que ninguém reparava na sua pose, com aquele celular no ouvido. Isso começou a incomodar o Biu Pretinho.

A única pessoa que prestou atenção nele foi um garotão que, do lugar onde se achava – uns oito metros de distância -, gritou para todo o povo da praia escutar:

– Ei, negrinho! Quanto é que tá o jogo, aí no seu radinho de pilha?

Biu Pretinho estourou o celular no chão.

 

Com Diego Villanova