Antônio Pereira

7 de maio de 2020

Sérgio Moro foi sugado pelo próprio buraco que cavou

Ávido por assumir uma possível vaga no Supremo Tribunal Federal (STF), Sérgio Moro abriu mão do seu cargo de juiz federal, multifestejado pela mídia e boa parte da população brasileira, para assumir como ministro da Justiça do presidente Jair Bolsoanaro.

Como ministro, o ex-juiz foi usado e abusado por Bolsonaro para inflar sua própria popularidade. Moro era apresentado como um bibelô por Bolsonaro, levando, inclusive, o ex-juiz para ridículas aparições em estádios de futebol. Moro chegou também a ser convencido a usar camisas de times de futebol, o que ele fez de bom grado, diga-se de passagem.

Assim, durante meses, Sérgio Moro e Jair Bolsonaro ‘dividiram’ as atenções da mídia e também de parte do poder político no país.

De meados do ano passado para cá, Sérgio Moro vinha sendo assediado por Bolsonaro para trocar, punir, retirar o superintendente da Polícia Federal (PF) no Rio de Janeiro, por supostamente o delegado não ser afeito à família Bolsonaro. O presidente, segundo declaração do próprio Sérgio Moro, queria ser informado sobre ações da Polícia Federal, principalmente as que atacavam os negócios dos seus filhos e da milícia carioca que o apoia. Moro, por limitações legais, não fazia esse trabalho de leva-e-traz, como queria o presidente. Em último ato, Sérgio Moro pede demissão, sai atirando e revolta a massa bolsonarista. Alguns chegam a ‘acusar’ o ex-juiz e agora ex-ministro de ‘comunista’, quase um petista infiltrado no governo.

Ato contínuo, Sérgio Moro foi arrolado pelo Supremo Tribunal Federal, através do ministro Celso de Melo a depor em inquérito que apura possível falta do presidente, ao querer interferir ou mesmo saber sobre ações e investigações em andamento pela Polícia Federal.

Sérgio Moro presta depoimento na PF de Curitiba, causando forte expectativa na imprensa, particularmente nos jornalistas que sempre apoiaram o ex-juiz quando este condenou o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, mesmo não apresentando provas concretas dos supostos crimes do petista.

Agora, Sérgio Moro, depois de ter seu depoimento revelado na íntegra, começa a ser questionado quanto a sua capacidade política e até jurídica, visto que não mostrou nenhuma prova concreta do envolvimento do presidente Jair Bolsonaro no crime de interferência nos trabalhos da PF. Moro, para não construir provas contra si, resolveu revelar aos delegados da PF e procuradores da República, apenas disse-me-disse, tendo com maior indício uma reunião ministerial, quando Bolsonaro teria deixado clara a sua intenção de saber dos inquéritos da PF e demais investigações do órgão, especialmente no Rio de Janeiro.

Na qualidade de ex-juiz e ex-ministro, Sérgio Moro aos poucos vai amargando um certo ostracismo, nada comum dos últimos anos, quando era alçado ao patamar de superestrela nacional no combate ao crime organizado.

Sérgio Moro, portanto, pode ser sugado pelo próprio buraco que ajudou a cavar na medida que vê seu nome cada vez mais vinculado a um presidente antidemocrático, avesso ao combate à corrupção, concentrado única e exclusivamente em proteger seus filhos e a si próprio.

A história pode ser cruel para Moro e Bolsonaro. O tempo vai dizer isso.