Ailton Villanova

11 de dezembro de 2019

A TRANSA NO LOTAÇÂO

Nas décadas de 50 e 60 proliferou no trânsito de Maceió um tipo de veículo coletivo compacto ou adaptado conhecido como auto-lotação. Mais tarde, e até hoje, essa modalidade de transporte de passageiros, bairro a bairro, evoluiu para as Vans, que são absolutamente confortáveis e mais versáteis.

 

As linhas suburbanas bairros-centro-bairros eram bem servidas de “lotações” que ofereciam ao passageiro a “comodidade” de viajar sentadinho, muitas vezes espremidinho, mas nunca em pé, como nos ônibus.  A cada um desses veículos era permitido o transporte de 10 passageiros, fora o cobrador. Entretanto, em determinados horários a capacidade deles subia para 15 ou mais. Dependia da concordância do passageiro e, naturalmente, da irresponsabilidade do motorista.

 

Numa determinada feita, em meio a concorrência entre transportadores de passageiros, surgiu no cenário um veículo Mercedes-Benz, todo adubado, que não era nem ônibus e nem lotação. Era intermediário. Capacidade: 30 passageiros. Mas nele viajavam até 50. O “Mercedinho” era vermelhinho e não se bitolava apenas à uma única linha. Era “free lancer”. Percorria todas as opcionais disponíveis na capital, porque seu proprietário era uma autoridade do governo. Todo mundo queria andar montado nesse veiculo.

 

O “Mercedinho” fazia o maior sucesso entre a galera. Muitas vezes, em dias festivos, circulava impunemente com passageiros mal-acomodados, uns por cima dos outros.

 

Não é preciso dizer que nos períodos juninos, carnavalescos e natalinos os transportes coletivos mal davam para suprir a demanda de usuários. O Mercedinho, então, coqueluche de sua época, trafegava até com passageiros aboletados no teto.

 

Certa véspera de Natal, aí por volta das 20 horas, o Mercedinho, cumprindo o itinerário circular de volta ao bairro Bebedouro, parou num dos pontos localizados no mercado público da Levada. Aí, subiram mais de cem passageiros, entre eles a morena Aretuza, contra-mestra do grupo folclórico “Baianas do Jardim Celeste”. Funcionária de uma loja localizada naquele mercado, ela estava largando do trabalho e voltando ao Bebedouro, onde morava, para chegar em tempo de participar da exibição do seu grupo na praça Santo Antonio.

 

Mal Aretuza subiu, foi empurrada pela multidão de passageiros para os fundos do coletivo. Desequilibrada, e naquele arrocho todo, caiu no colo de um sujeito da cara de tarado que, aproveitando a ocasião, abufelou-se com ela. E haja o sujeito a fungar e a gemer, no seu cangote.

 

Em dado momento, inexplicavelmente Aretuza, estava com a saia levantada até a cintura e numa transa aloprada com o sujeito. A cada frenada do coletivo, uma gozada. E a turma aplaudia.

 

Finalmente, o Mercedinho chegou ao destino final, desceram todos os passageiros e Aretuza continuou chamando na grande com o cara. Cadê que os dois quiseram descer!

 

O Mercedinho cumpriu mais três viagens, indo e voltando e o casal se desmantelando. Nessa noite, as Baianas do Jardim Celeste se exibiram para o distinto público sem a sua rebolativa contra-mestra, que preferiu continuar curtindo um barato muuuiiito mais animado.

 

 

DESMORALIZOU!

 

Na Praça dos Martírios (onde se localiza o antigo Palácio go Governo de Alagoas, hoje museu) dos tempos alegres e felizes, a rapaziada se juntava nas noites de sábado e domingo para paquerar as menininhas do pedaço e adjacências, que ficavam circulando e exibindo os seus melhores sorrisos. Tudo muito inocente, educado e respeitoso. Tempos que marcam profundas saudades, aqueles.

 

A cada final de semana noturno na praça, o ritual era o mesmo. O cheiro de perfume no ar dava um toque romântico às trocas de olhares entre moças e rapazes. Um deles, entretanto, se sobressaia dos demais, por sua chatice e boçalidade. Seu nome: Antiógenes. Só ele era o bonito. Só ele era o mais querido. Só ele era o galã.

 

Belo dia, surgiu uma cara feminina nova no pedaço. Uma pequena do rosto de boneca e das pernas mais lindas do mundo. Logo, Antiógenes deu em cima dela. Não demorou muito, os dois estavam de mãos dadas, trocando beijos, alcovitados pelo escurinho do beco que fica ao lado da Igreja dos Martírios.

 

A garota, avançadinha para a sua época, propôs ao galã ele procurasse um local onde pudessem ficar mais à vontade.

 

Os motéis estavam começando a surgir em Maceió e o de Dona Railda, já havia inaugurado há um bom tempo, essa modalidade de ambiente privado para encontros amorosos. O motel Railda ficava na Rua Goiás, bairro do Farol, com acesso também pela ladeira do Bom Parto. Tudo muito higiênico, tudo perfumado, tudo muito organizado.

 

O casal chegou lá de taxi. Mal os dois entraram no quarto, Antiógenes já foi tirando a roupa e jogando em uma cadeira. Ficou peladão.

 

A garota deu o breque:

 

– Calma, rapaz! Você não vai dizer nada especial neste momento?

 

E o boçal, exibindo a peça genital:

 

– Olha, meu amor, nestas horas, se eu tenho alguma coisa pra dizer, eu digo com o meu pau aqui, tá entendendo?

 

A moça franziu a testa, apertou bem os olhos, reparou  bem no pinto do sujeito e retrucou:

 

– Ué! Que pau?! É essa besteirinha aí? Quase não enxergo!

 

A garota saiu do quarto e deixou o imbecil falando sozinho. Nunca mais o Antiógenes baixou na praça. Sumiu do mapa!

 

Com Diego Villanova