Política

23 de março de 2019 09:50

“Braskem extrai, o chão treme”

CEI na Câmara de Vereadores de Maceió tem objetivo de apurar causa das rachaduras nos bairros Pinheiro, Mutange e Bebedouro

↑ Francisco Sales diz que a CEI terá uma grande responsabilidade para buscar os causadores dos danos (Foto: Sandro Lima)

Depois de um ano do primeiro tremor no bairro Pinheiro, seus moradores ainda vivem dias de apreensão e medo com o que pode ocorrer e sem o apontamento dos responsáveis pelas rachaduras. Para ajudar a buscar estas respostas, a Câmara Municipal de Maceió (CMM) criou recentemente uma Comissão Especial de Inquérito (CEI) para acompanhar o caso, presidida pelo vereador Francisco Sales (PPL). À Tribuna, o parlamentar relata o que o grupo já fez e o que pretende fazer para trazer à luz as respostas a todas as perguntas ainda em aberto. Desde que tudo começou, Francisco Sales tem apontado a Braskem como uma das causadoras – se não a principal – do problema. Sem cravar que a empresa é culpada, ele não acredita que permitirão que ela siga extraindo sal-gema da região após tudo ser solucionado.

 

Tribuna Independente – A Comissão Especial de Investigação [CEI] na Câmara Municipal de Maceió [CMM] é recém-formada, já teve algumas ações e participou da audiência no Senado sobre o bairro Pinheiro. Quais são os próximos passos da Comissão?

Francisco Sales – O primeiro ato foi a criação da CEI, onde ficou decidido que eu seria o presidente, o vereador José Márcio Filho [PSDB] seria o relator e a Silvânia Barbosa [PRTB], a secretária; fizemos uma reunião com a Defesa Civil municipal, Corpo de Bombeiros e os novos membros do Nudec do Pinheiro [Núcleo Comunitário de Defesa Civil], com quem tivemos uma reunião na sede da Prefeitura de Maceió para colher informações oficiais da Defesa Civil municipal e conversar com os moradores que fazem parte do Núcleo, já eles estão no bairro e vem sentindo tudo há mais de um ano; e fomos ao Senado para participar da audiência convocada pelo Rodrigo Cunha [PSDB] e solicitamos todos os dados apresentados para a CEI para podermos analisá-los e nos ajudar em nossa investigação. Daqui para frente vamos nos reunir com o Ministério Público, com cinco promotores que estão acompanhando o caso. Queremos um trabalho conjunto com eles, com a CPRM [Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais] e com a Defesa Civil municipal.

Tribuna Independente – Que poderes têm a CEI nesse caso, até onde ela pode chegar para ajudar às famílias que vivem no bairro?

Francisco Sales – Acredito que a maior atribuição do Poder Legislativo, do legislador, é fiscalizar e não [fazer] as leis. Essa é nossa função, fazer as investigações. No caso, independente da CEI. É função do vereador. A CEI vem com muita maturidade para podermos contribuir, convidar quem tiver de sê-lo, convocar quem tiver que ser, com muita responsabilidade, para buscar quem são os causadores do problema e, ao mesmo tempo, encontrar as soluções. A sociedade está muito acostumada com investigação do Ministério Público, mas também é função do Legislativo fazer isso.

Tribuna Independente – Desde que a situação do Pinheiro começou a ganhar a dimensão que tem hoje, o senhor tem sempre apontado a responsabilização da Braskem. Inclusive foi sugestão sua que a empresa parasse de atuar no bairro. Depois de tudo que já acompanhou sobre o caso, ainda acredita que a culpa é da empresa?

Francisco Sales – Vamos pegar o nosso Trapichão. Quando ele está com o gramado danificado, a gente não poupa, paralisa as atividades esportivas, para cuidar da grama? Como é que um solo está danificado, seja a Braskem ou não a causadora de tudo isso, e ainda se continua a exploração do sal-gema na região? É uma pergunta que eu não consigo ter respostas. Venho há quase um ano pedindo que alguém me responda isso. Ontem [quinta-feira, 21] a CPRM deixou muito clara a situação dos bairros Pinheiro e Bebedouro, também. Eles continuam com os quatro poços nos bairros de Bebedouro e Mutange a todo vapor, 24 horas sem parar. É um vizinho barulhento. Eu digo o seguinte: é a mesma coisa de você ser vizinho de um bêbado, que faz barulho. A Braskem é esse vizinho, que incomoda muito. Onde eles fazem a extração, a 100 ou 200 metros, o chão treme. Se fizermos uma pesquisa com os moradores de Bebedouro, Mutange e Pinheiro, acredito que quase todos gostariam que ver a empresa muito longe. É um péssimo vizinho. É uma coisa terrível. Falo de uma forma muito responsável, preventiva. Disse no Senado e vou repetir: se depois disso tudo, que as causas das rachaduras forem encontradas, seja a Braskem ou não a causadora de tudo, e a CPRM disser que a Braskem pode seguir operando naquela região, eu renuncio ao meu mandato. A gente não vai entender mais nada. Como é que o solo está daquele jeito, quebrado?

Tribuna Independente – Como o senhor avalia a proposta de evacuar o bairro Pinheiro por completo, até mesmo em áreas não marcadas como afetadas?

Francisco Sales – Tem que ter muita responsabilidade. O comércio vem sentindo muito. As pessoas estão doentes. Fizemos uma reunião e elas não conseguem mais conversar. Eles estão chorando, em pânico. Tem que ter muita maturidade. O Ministério Público, inclusive, já pediu para que o fornecimento de água e energia fosse desligado no bairro. Acho que tem de ter muito cuidado. Nesse momento, acho, precisamos melhorar a comunicação, conversar com a sociedade, precisamos que o Governo do Estado e a Prefeitura conversem com o Governo Federal. Essa coisa não é brincadeira, mas um grande problema que precisa de respostas e de um grande trabalho para que aquelas pessoas saibam que o poder público está fazendo a sua parte. Sobre evacuar o bairro todo, olhe, eu não sou técnico. Mas quando a CPRM diz que tem que evacuar a área vermelha, e as amarela e laranja quando chover 30mm… são os técnicos que dizem isso e 30mm é muito pouco. Você ter de deixar suas casas, que estão nas áreas amarela e laranja, por causa de 30mm? Me pergunto como as pessoas vão medir isso ou como o poder público vai informá-las. A gente está vendo aí a quadra chuvosa cada vez mais perto e as pessoas ficando numa situação mais delicada ainda. Sou de um tempo que escutava dos meus pais e avós que quando chovesse era para ir para casa. Agora, para aquelas pessoas, quando chover é para sair de casa. É muito complicado. Quando comecei a acompanhar lá, há quase um ano, as pessoas não queriam nem abrir as portas com medo de suas casas se desvalorizarem. Queriam esconder o problema como se ele fosse sumir. E agora a gente vê tudo isso.

Fonte: Tribuna Independente / Texto: Carlos Amaral

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