Política

12 de janeiro de 2019 10:22

Marcelo Victor, a cria política do governo que Renan Filho não conseguiu impedir

Influência política do deputado na disputa pela presidência da ALE é fruto da postura do governador no primeiro mandato

↑ Marcelo Victor fez as vezes de líder do governo e conseguiu projeção ao ponto de não ser abandonado pelos deputados (Foto: Ascom ALE)

A força política de Marcelo Victor dentro da Assembleia Legislativa do Estado (ALE) entre os demais parlamentares é resultado da postura do governador Renan Filho (MDB), ao ponto de o chefe do Poder Executivo não conseguir desmobilizar o apoio ao deputado na eleição da Mesa Diretora da Casa que ocorrerá no dia 1° de fevereiro após a posse dos deputados eleitos.

Mas, de onde vem o poder de articulação e a força política de Marcelo Victor entre os seus pares? Por que os parlamentares que o apoiam não cederam diante das pressões governamentais? A Tribuna Independente buscou informações acerca desse crescimento exponencial do deputado.

A conclusão é que “Marcelo Victor é criação de Renan Filho”. A resposta é quase uníssona entre os parlamentares e outras fontes ouvidas pela reportagem. As fontes ouvidas pela reportagem pediram para não ser identificadas.

“Os deputados têm dificuldade de conversar com o governo, dialogar e ter acesso. Daí, o Marcelo Victor fez o contrário, o Luiz (Dantas, atual presidente da ALE) não usou as prerrogativas de presidente. O Marcelo assumiu e comandou a Assembleia. Os deputados sentiram firmeza nele. O que Marcelo Victor prometia em votação, prometia de discussão, ele fez lá dentro. Então, era muito difícil o governador reverter essa disputa pela presidência da Assembleia”, lembrou o deputado.

O parlamentar revela ainda que essa história de apoiar Renan Filho ao lhe conceder a “governabilidade” é conversa para inglês ver. Na verdade, há uma série de demandas dos parlamentares já prontas que se não forem atendidas pelo governador, as pautas de origem governamental não tramitarão na Assembleia Legislativa ou terão dificuldades em avançar.

“O governo vai ter que ceder. Os deputados irão, de certeza, pegar esses espaços que o governo tomou. O Marcelo vai levar para o governador uma pauta em bloco dizendo o que a Assembleia Legislativa quer. O Marcelo Victor já fazia isso na primeira gestão. Depois que o Marcelo assumiu a 1ª Secretaria na Mesa Diretora, ele acabou se tornando tudo na Casa, sendo o líder do governo e até mesmo organizando questões alusivas à presidência. É fato que o governador fortaleceu muito o Marcelo Victor”, comenta o deputado.

Guardadas as proporções, o parlamentar faz um comparativo. “Não foram os americanos que ensinaram e deram armas para o Bin Laden? Pronto, a mesma coisa aconteceu entre o governador e o Marcelo”.

Contudo, os deputados ouvidos pela reportagem – que pediram para não se identificar – ressaltam que em política tudo pode acontecer, mas destacam, mais uma vez, a força de Marcelo Victor junto a eles no parlamento.

“Não é impossível porque impossível é muito forte. Agora é muito difícil o governo reverter, pois não enxergávamos o Olavo [Calheiros, tio de Renan Filho e então candidato à presidência da ALE], com bons olhos e tem do outro lado uma pessoa que vai ao seu gabinete, que te escuta, que leva a sua pauta e o governo fortaleceu demais isso aí”, diz.

O deputado recorda ainda a segunda eleição para presidência da Assembleia Legislativa quando Marcelo Victor não ganhou a presidência, mas se fortaleceu com os demais parlamentares.

“Qual a dificuldade disso tudo? É a desunião do parlamento. Se o governo chama um depois, der um espaço, depois chama outro e os caras virem que todo mundo está saindo para pegar vantagem, aí ou age em bloco – o que é muito difícil –, ou o governo pode começar a minar o grupo depois da eleição da Mesa Diretora”, completa o outro parlamentar, que lembra a quase derrota do governador para o mesmo Marcelo Victor há dois anos.

Na eleição da Mesa Diretora para o biênio 2017/2018, o deputado Bruno Toledo (Pros) apareceu como fator surpresa encabeçando a chapa articulada por Marcelo Victor para enfrentar Luiz Dantas (MDB), candidato do governador, o que quase gerou uma derrota para o Executivo, tendo até que ser realizada outra eleição para que Dantas alcançasse o número exigido de 14 votos.  Marcelo Victor ficou na 1ª Secretaria da Casa.

O cargo tem como responsabilidade nomear servidores, realizar pagamentos e autorizar despesas diversas. Mesmo assim, segundo os parlamentares ouvidos pela Tribuna, Renan Filho deixou Marcelo Victor aumentar a sua influência na Assembleia, sem qualquer resistência.

“Ele quase derrotou o governo na outra eleição. A gente não conseguiu nem fazer uma chapa governista. Para presidente a gente inscreveu, mas para o restante da mesa não conseguiu fazer. Na eleição deste ano é muito difícil. Ou o governo cede ou não vai aprovar o que quer”, relata um dos parlamentares.

Nas articulações durante o processo de criação das chapas, logo após a divulgação de uma imagem que mostra 18 deputados ao lado de Marcelo Victor, o governador Renan Filho tentou causar abalos no grupo, realizando algumas exonerações de pessoas ligadas a parlamentares que estavam no encontro com Marcelo.

À imprensa, o governador negou que tentou retaliar os parlamentares com exonerações de aliados que estavam apoiando Marcelo Victor à presidência da ALE.

Parlamentares se queixavam do trato em algumas secretarias

Francisco Tenório diz que Renan é hábil; Bruno defende independência dos poderes; Davi Maia cita crescimento da oposição (Fotos: Assessoria)

Nos primeiros quatro anos de Renan Filho à frente do governo, ao menos até a primeira metade do mandato, os deputados constantemente utilizavam a tribuna da Assembleia Legislativa para reclamar da dificuldade que tinham para ter acesso a algumas secretarias estaduais.

O caso mais notório foi quando Rozangela Wyszomirska, então titular da Secretaria de Estado da Saúde (Sesau) não permitiu que o deputado Inácio Loiola (PDT) não tivesse acesso à Pasta para levar as demandas da área. Inácio chegou a relatar, em plenário, que teria sido praticamente expulso da secretaria.

Para ele, a gestão de Wyszomirska foi marcada pela “falta de equilíbrio, inapetência e hostilidade no trato pessoal”.

“Certa vez, eu e o prefeito Jorge Dantas [ex-gestor de Pão de Açúcar] praticamente fomos colocados para fora do gabinete”, relatou na ocasião o parlamentar, sendo aparteado pelo deputado estadual Dudu Hollanda (PSD) que disse que as reclamações eram muitas. “Estive lá [na Sesau] uma só vez e fui atendido no corredor, sequer cheguei ao gabinete. Eu fui atendido, mas de forma prática e descortês”. Também em apartes, Léo Loureiro (PP) e Gilvan Barros (PSD) se associaram às críticas de Inácio Loiola.

Outra prova de que o governador não conseguiu convencer a sua bancada na ALE ocorreu na última semana quando o deputado Olavo Calheiros desistiu de ser candidato à presidência da Assembleia Legislativa. Ele era o candidato de Renan Filho.

Esta semana, a reportagem da Tribuna já havia recebido a informação de que o deputado estadual Antonio Albuquerque teria desistido de ser o vice-presidente na chapa encabeçada por Olavo Calheiros. O fato apenas reiterava que o grupo governista não conseguia retirar da base de Marcelo Victor os deputados que não abriram mão de apoiá-lo na disputa.

Deputados creem em recomposição

Três deputados ouvidos pela Tribuna têm opiniões distintas no tocante a como deve ficar a relação do parlamento com o governador Renan Filho após essa disputa pela presidência do Poder Legislativo.

Para o deputado Francisco Tenório (PMN), até então primeiro vice-presidente da ALE a “disputa” não gera impactos na gestão de Renan Filho, tampouco entre parlamento e governo.

“Não atrapalha em nada. O governador é um líder político, um estadista. Sabe a hora certa de compor, recuar e avançar. O Marcelo Victor também é um cara inteligentíssimo. O grupo de deputados que está com o Marcelo, em sua maioria, é de origem governista, que tem relação com o governador. Isso é uma disputa interna do parlamento, mas acho que não fiquem lesões graves. Como o governo está começando, ele tem condições de recompor algumas feridas que ficarem do processo eleitoral da Assembleia Legislativa. Ele tem tempo de recompor. Alguns arranhões ficam, mas são temporários”.

Pertencente ao grupo que se classifica como “independente” dentro da Assembleia Legislativa do Estado, o deputado Bruno Toledo (Pros) também acredita que tudo será normalizado após a eleição da Mesa Diretora.

“Acredito que a bancada governista deve ser composta pela maioria esmagadora do parlamento. Sinto que essa disputa iniciada não deixou sequelas intransponíveis. Com amadurecimento e humildade, tudo deve ser normalizado. Não acho que o momento deve ser aproveitado para formar bancada oposicionista, até porque o meu modo de pensar, sempre foi respeitado pelos demais, mas nunca foi tema abordado como forma de convencimento. A pauta sempre foi apenas sobre a eleição da Mesa Diretora”.

Por outro lado, o deputado Davi Maia (DEM), novato na Assembleia Legislativa, entende que o Poder Legislativo sai ganhando com essa queda de braço do governador. Ele acrescenta ainda que o governador está incentivando o fortalecimento da oposição com tais atitudes. O deputado está se referindo as exonerações de secretários indicados por parlamentares aliados ao Governo.

“Fica uma Casa muito mais independente do que qualquer outra coisa. Acho que essa relação é até muito melhor. O governador está incentivando o fortalecimento da oposição com essas atitudes, quando ele rompe com a própria bancada, com o próprio grupo político que o elegeu e não sei se vai ter tensão, até porque muitos dos deputados alegam que não querem fazer oposição ao governo. Acho que o Poder Legislativo sai muito maior nessa situação e toda a sociedade está aplaudindo a posição da Assembleia”.

Já Marcelo Victor nega que tenha qualquer disputa ou movimento contra o governador na Assembleia Legislativa e garante que, se eleito, irá trabalhar intensamente em prol da governabilidade e pronto para o diálogo.

BATE-VOLTA

O cientista político Ranulfo Paranhos entende que a atitude de Renan Filho ao exonerar pessoas ligadas a deputados que declararam apoio a Marcelo Victor é uma retaliação. Inclusive, isso foi dito pelo deputado Inácio Loiola em recente entrevista à Tribuna. Inácio é um dos deputados que apoiam Marcelo Victor. Ele teve a sua sobrinha Melina Freitas, exonerada do cargo de secretária de Cultura, e Osmar Lisboa, então vice-presidente de Gestão de Engenharia da Companhia de Saneamento de Alagoas (Casal), cunhado do parlamentar.

Ao contextualizar a interferência do governador Renan Filho na construção da Mesa Diretora do Poder Legislativo, Paranhos destaca que o pressuposto básico é ter poderes independentes, mas ressalta que a questão da relação entre governo e parlamento muda com o mecanismo de barganha. Ou seja, cedendo secretarias e autarquias em troca de aprovação nos assuntos governamentais.

“Isso no jogo político é aceitável, não é ilegal, o que não pode acontecer é Executivo e Legislativo em relação ao Judiciário. O Judiciário não pode entrar nessa. O Legislativo troca poder de voto, troca poder de agenda e isso é muito comum. E aí consequentemente é o que a gente chama de presencialismo de coalização. Eu lhe dou secretarias e você vem para minha base e me dar votos e a gente monta um bloco aqui, o governador faz maioria”, explica.

Em contraponto, o cientista político comenta que em determinados momentos acontece de o parlamento se “rebelar” e mostrar que o Legislativo é independente e que assuntos parlamentares só dizem respeito aos deputados, dando o exemplo do que ocorreu entre a ex-presidente Dilma Rousseff (PT) e o ex-presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (MDB).

“O PT desgastado no início de 2015 tentou intervir na eleição da Câmara num jogo onde Eduardo Cunha tinha mapeado todos os votos e estava prestes a ganhar a eleição. Quando o PT movimenta as peças para retirar o Eduardo, ele sai muito enfraquecido do jogo e aí o Eduardo cunha dá a resposta. Mas isso está corretíssimo. Ele [Renan Filho] pode até tentar fazer, mas não pode querer que as suas cartas sempre deem certo, seja sempre vencedoras, que é o que acontece aqui”.

Ranulfo ressalta que dentro de todo esse jogo político a grande questão que fica é sobre o que vai acontecer após a eleição da Mesa Diretora.

“O que é que vai acontecer? A Casa Legislativa vai voltar pra base do governo e vai aprovar a agenda do governo? Ou a casa vai ser uma maioria travando a pauta do governo?. Essa é a grande questão que a gente não sabe. Quando o governo perde a sua indicação para presidente da Mesa, o indicativo é que ele tenha dificuldades para governar. No nosso caso a gente não sabe por que a contenda me parece que é só em relação a Mesa Diretora. Eles estão prevalecendo a autonomia da Casa. É algo do momento e não acho que resvale na governabilidade”, finaliza.

Fonte: Carlos Victor Costa / Tribuna Independente

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