Política

20 de outubro de 2018 08:17

“Sou Estado”, garante Cabo Bebeto

Eleito deputado estadual com mais votos em Maceió, o militar surfa na onda Bolsonaro e prega independência na Assembleia

↑ Cabo Bebeto se assemelha a Bolsonaro e projeta que os “Caics” sejam transformados em escolas militares (Foto: Sandro Lima)

Com mais de 31 mil votos, Cabo Bebeto (PSL), policial militar, foi eleito deputado estadual com o apoio do presidenciável Jair Bolsonaro, o que lhe rendeu a maior votação entre os eleitos para a Assembleia Legislativa Estadual em Maceió: 22.066 votos. À Tribuna, ele reconhece o peso do apoio do ex-capitão do Exército e diz pretender fazer um mandato nas ruas como forma de tentar suprir a ausência do Estado junto à população. O deputado estadual eleito também destaca não ser nem oposição nem situação ao governo Renan Filho (MDB). “Quero mostrar onde um deputado pode fazer a diferença”.

Tribuna Independente – Que tipo de mandato o senhor quer fazer na Assembleia Legislativa, já que seu discurso foi o de mudança, o que fará de diferente dos atuais parlamentares?

Cabo Bebeto – Vejo a Assembleia de Alagoas pouco produtiva para o povo. O cidadão não tem nem conhecimento do papel de um deputado ou o que se tem feito. Quero ser bastante atuante e, sobretudo, estar na rua. Na minha função de policial militar, a gente termina se deparando, a cada quadra de rua que a gente anda, com a ausência do Estado – Município, governos estaduais e federal. Quero ser bastante participativo, bem próximo à população. Ainda não me debrucei sobre as finanças da Assembleia, mas já ouvi falar de alguns absurdos, como GDE [Gratificação por Dedicação Exclusiva] que não é ilegal, mas é muito imoral. Quero trabalhar isso, estar próximo à população e mostrar, na prática, onde um deputado pode fazer diferença. Para isso, vou tentar pulverizar ao máximo minha presença nos municípios do estado. Sei que minha eleição, certamente, foi mais fácil do que será uma reeleição. Então, preciso ter trabalho para que as pessoas me conheçam mais ainda, porque, provavelmente, vamos disputar uma reeleição.

Tribuna Independente – Pelo fato de o senhor ser militar, muita gente aponta que seu mandato será voltado apenas para as forças de segurança. Esse será um público preferencial de sua passagem pela Assembleia ou outros segmentos estarão no mesmo grau de relação com o deputado Cabo Bebeto?

Cabo Bebeto – Certamente, a segurança pública terá uma atenção bem maior. Até porque enxergo que, melhorando as condições de trabalho dos policiais, isso vai refletir na sociedade. Sempre pensei assim: policiamento é serviço e quem faz a diferença em serviço é a mão de obra e, estando satisfeita, vai trabalhar melhor. Outro segmento que percebo carente e abandonado é a educação. Sei que ela é a base de tudo. Com a educação você melhora sua saúde, tem um emprego melhor, interage melhor com as pessoas, você vota melhor. Por isso, acho tem de ser olhada com muita atenção.

Tribuna Independente – Como o senhor pretende se relacionar com o Governo do Estado e com seus colegas, já que o parlamento se organiza por bancadas?

Cabo Bebeto – Me reuni com o governador e disse a ele que vou votar de acordo com meu entendimento sobre as coisas, se for bom para Alagoas terá meu voto, se não for, não terá. Saiu uma matéria que me colocou na oposição. Fiquei tão chateado como se tivesse dito que era base. Eu sou Estado, nem governo nem oposição. Eu sou um cara muito chato e gosto das coisas muito certas. Já tive alguns contatos com colegas, antes e depois da eleição, e senti que muita coisa não será fácil, especialmente sobre a questão financeira. Talvez eu desagrade alguns colegas, mas, paciência, eu não posso desviar meu discurso ou o que penso em fazer lá. Mas meu mandato será aberto ao diálogo.

Tribuna Independente – O senhor tem dado bastante destaque ao “fator Bolsonaro” em sua vitória eleitoral. Mas qual o peso real que a campanha presidencial teve na sua?

Cabo Bebeto – Venho trabalhando internamente na minha Corporação, nas minhas mídias sociais há algum tempo. Não de hoje. Para essa eleição, por exemplo, houve algumas situações que ajudaram. Por exemplo, aquele vídeo de uma prisão que fiz e fui levar o preso em casa. Aquilo repercutiu internacionalmente. Posso atribuir 5% da minha vitória a isso; 5% a outros vídeos que repercutiram bastante aqui no estado; daria 20% ao apoio do Sikêra Júnior; 20% ao Eduardo [Bolsonaro]. Tudo foi muito importante. Como também a aproximação com o [Jair] Bolsonaro e a semelhança com ele em muita coisa. As pessoas que o queriam como presidente, o viam em mim aqui em Alagoas. Isso acabou casando muito bem. Se não fosse essa semelhança, o cara votaria em outro nome do partido. Se tivesse que atribuir um único responsável pela eleição, eu daria esse crédito ao Jair Bolsonaro, até pela dificuldade de transferência de votos.

Tribuna Independente – Até que ponto o senhor é semelhante ao Jair Bolsonaro e até que ponto é diferente dele?

Cabo Bebeto – Somos muito parecidos em tudo, até em falar as coisas demais. E isso é algo que eu preciso trabalhar em mim. Eu não falo do Bolsonaro o que algumas pessoas vendem sobre ele. Falo do Bolsonaro que eu acredito. E não acredito que ele é homofóbico ou racista. Ele não gosta de vagabundo e eu acho que gosto ainda menos. Não falo de alguém que comete um crime, até porque ninguém está livre de cometer um, falo do reincidente. Já prendi cara que já foi preso oito vezes. Desse aí não pena nenhuma e desejo todo mal do mundo a ele porque esse não tem mais jeito. Agora, não concordo com a forma como o presídio é, não tem ocupação, nem educação, nem a saúde lá dentro. Mas vou lhe dizer uma diferença: não sou muito fã do militarismo. Não é que eu não queira o Exército na rua ou acabar com a Polícia Militar. Eu sou contra a parte interna do militarismo, como a legislação militar. Sou militar e sei o quanto ela é escravagista, o quanto o militar não tem direitos. Então, você quer uma polícia humana e cidadã, mas não vai olhar como o cara é formado. Ninguém pega nosso regulamento disciplinar e vai ler. A Polícia Militar e os Bombeiros foram criados para ser força auxiliar do Exército, mas hoje somos muito mais polícia que militar e ninguém olha isso. Você quer que o cara lhe trate como um lorde, mas ele é formado como um bicho, muitas vezes.

Tribuna Independente – Por que esse debate não avança em Brasília, em sua opinião?

Cabo Bebeto – Porque o topo da pirâmide se alimenta disso aí. Sabe o que é o poder de dizer ‘está preso’? Um juiz para te prender analisa tanta coisa no mundo, mas um oficial [militar] diz que está preso e pronto. Ele recolhe você e acabou-se. E não dá em nada. Você pode processar e não dá nada. Nada. Não existe isso. No entanto, muito do que tem no militarismo, se olhar bem, é boa educação. A continência, por exemplo, é um bom dia. Dito isto, eu quero, por exemplo, transformar os Caics em escolas militares. Por quê? Porque o professor não tem mais segurança na escola.

Fonte: Carlos Amaral

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