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22 de fevereiro de 2020 10:04

É preciso força e união

Na última matéria da série sobre as escolas de samba que optaram por não desfilar oficialmente, na tentativa de chamar atenção para falta de verbas e apoio, o D&A conversou com os dirigentes da Arco-íris e Unidos do Poço, que falaram da necessidade de união entre as agremiações alagoanas

↑ (Foto: Adailson Calheiros)

Quem passa apressado pela tumultuada e caótica Cleto Campelo, principal avenida do bairro do Jacintinho, não deve saber que a pequena casa azul de número 47 abriga um mundo mágico. Quem se deter na frente do prédio de dois andares que está sempre de porta  aberta, pode até estranhar ao perceber a existência de bonecos gigantes, ornamentos que imitam folhas de árvores pendurados nas paredes, croquis de roupas extravagantes nas mesas,  enormes cocares de índios, saias coloridas que simulam o movimento das ondas do mar,  tecidos coloridos espalhados e um senhor de semblante calmo, no meio a tudo isso,  trabalhando incansavelmente para construir essa visão surreal.  O estranhamento logo passa ao saber que o local é a sede da Escola de Sambas Arco-íris, que aos 27 anos  de vida, segue de cabeça erguida e defendendo suas cores nos carnavais alagoanos.

Com o premonitório nome de Ramos da Luz, o homem que é visto orquestrando esses mundo estranho por quem passa no bairro do Jacintinho,  é o principal ingrediente para o caminhar da Arco-íris. Um dos três fundadores da escola, ele diz que não é preciso esperar pelo gestor público para fazer um desfile digno. Corajoso, opta sempre por  ir atrás de recursos, mesmo que seja do próprio bolso, e se for preciso buscar os componentes da escola no dia do desfile.

“Olha eu me dedico a essa escola com toda minha energia. Tem amigos que dizem:  seu rosto está deformado. Mas é de  tanto sono que passo. Durmo pouco, trabalho muito, faço fantasias, alegorias e as esculturas de isopor para o carro alegórico com as minhas mãos. Não espero por ninguém e nem por nada. Faço o meu. Penso nisso daqui todo o tempo da minha vida. Se a gestão pública vier com as verbas, que são muito importantes para que façamos um desfile como deve ser feito, eu agradeço e aceito. Se não vier, teremos o básico. Mas não podemos ficar de braços cruzados, esperando que nos olhem. Achomwie é preciso que nos mostremos”, falou Ramos da Luz, mantendo um certo compasso entre as palavras para demonstrar  sua indignação com relação a maneira como as escolas de samba são vistas.

“Não sei o que aconteceu. Não sei se acham que escola não é cultura, se as novas tecnologias distraem os mais jovens e os afastam do que exige mais sacrifício para ser realizado e levam para outras manifestações culturais mais modernas. Uma coisa eu sei, que atualmente não tem sido dada a devida atenção para nosso trabalho, isso incomoda e nos deixa triste. Mas não vou desistir. Corro, vou atrás, chamo para ensaiar, penso o desfile, no samba, abro a porta da minha casa para quem desejar contribuir. Se for preciso, e eu souber que está interessado, vou buscar em casa”, disse.

Ao dizer que abre as portas de casa para a escola e para quem deseja  fazer parte da agremiação, ele não o faz em  sentido figurado. Morando em um sobrado, ele reserva toda parte de baixo e um grande quintal para brigar tudo que é patrimônio da Arco-íris. Não é difícil perceber que a vida pessoal de Ramos da Luz e a existência da escola se confundem o tempo inteiro.

“Isso é engraçado, minha esposa, que é falecida,  dizia que morávamos no barracão da escola. Eu não consigo separar minha vida disso tudo aqui. Não consigo ficar longe e ainda quero fazer uma reforma para abrigar tudo de maneira mais apropriada. Alguém tem que fazer isso, alguém tem que sair na frente, abrigar as fantasias, começar a reciclagem do material. Alguém tem que puxar o cordão. Então, a responsabilidade ficou meio que para mim e as pessoas  me cobram isso.  Claro que há os outros dirigentes,  que desenvolvem suas funções e são necessários para tudo fluir , ninguém é sozinho, é preciso o auxílio de todos. Todos fazemos nossa parte e temos nossa contribuição”, afirmou.

Para ele, o carnaval de 2020, sem parte das escolas desfilando oficialmente na orla da Pajuçara e só uma concordando com os termos da Prefeitura de Maceió , é um divisor de água para a sobrevivência das agremiações. “ Olha,  tudo tem um lado positivo. Nos encontrarmos e decidirmos que não podemos aceitar tudo que é imposto. Isso nos deixou unidos, não queremos  afrontar e nem brigar com ninguém. Queremos fazer o nosso. Realizar um desfile pelos bairros,  mostrar que podemos fazer algo bonito à altura do que o público deseja assistir, nos colocou em uma posição de menos concorrência e de igual para igual. Afinal, desejamos a mesma coisa. Nos mostrou, inclusive, que a verba pública é necessária, é a fonte principal , mas não é a única. Podemos  ter nossa própria receita. Temos que arregaçar as mangas e ir atrás. Aliás o primeiro passo é organizar a documentação das escolas para nos firmamos como entidades com pessoa jurídica, isso facilita muito e se faz urgente”, ponderou o dirigente, que sempre reserva parte do salário para a compra de material para a escola . “ Sei que não deveria ser assim, mas é  a saída emergencial, a mais rápida. Então me sacrifico”, garantiu o presidente da Arco-íris, enquanto trabalhava em um adorno para cabeça que representará as folhas das árvores.

Não à floresta queimar

Embalada pela vontade de protestar , este ano, a escola optou por um samba-enredo mais engajado e defenderá a preservação das florestas e de seus habitantes. “Nossa samba é ‘Livrai do fogo nosso verde’. Nessa esteira falamos do índio, dos incêndios que devastam nossas florestas, a importância desses espaços, das agressões contínuas que o meio ambiente  sofre e quanto isso é prejudicial. Também estamos a rodando a  necessidade de obter hábitos menos prejudiciais a natureza para que se preserve o planeta em que vivemos”, conta Ramos da Luz, apontando orgulhoso para a parte do que será um beija-flor em um dos carros alegóricos da escola.

“Nos dias de hoje não podemos fugir de nossa responsabilidade em passar uma mensagem para quem nos assiste. Não adianta só falar, temos que fazer e proteger a natureza. Afinal, fazemos parte dela. É tudo isso que mostraremos em nosso desfile, que é nosso objetivo principal. Aliás toda energia gasta, todo sacrifício que fazemos. Quando acaba o desfile encontramos a resposta dentro do coração. A satisfação do trabalho bem feito, da mensagem repassada do carnaval comemorado. É isso tudo que nos deixa felizes”, finaliza.

Vários sacrifícios e um desfile

O Grêmio Recreativo Escola de Samba Unidos do Poço é uma das escolas de samba mais antigas de Maceió. Fundada em 1955, já foi  29 vezes campeã do carnaval maceioense. Passou por um período de inatividade e luto, quando uma de suas dirigentes, Célia Dudu, faleceu. Hoje, tendo como presidente o filho de Célia, Toni Santos, a escola passa por dificuldades financeiras, mas seus componentes não perdem  a esperança dos tempos áureos, quando os desfiles esbanjavam luxo.

Com um salário de vigilante e morando na casa eu foi de sua mãe, Toni .paga o aluguel de um terreno onde guarda as armações dos carros alegóricos e algumas das fantasias da escola. Muitas coisas ele guarda em sua casa, com o orgulho de quem tem um tesouro para ser descoberto.

“Essa escola está no meio sangue, eu herdei como herdei meu DNA. A história da minha família. Claro que  lamento a situação de hoje de não ter como desfilar como gostaríamos. Como neto de fundador, filho de presidente e amante da Unidos do Poços, não queria que isso fosse acontecer na minha gestão. Mas estamos aqui firmes, forte e defender e para lutar pela escola”, afirmou.

Talvez essa gana de vencer e lutar, explique a dívida que Toni acumula desde 2018, quando vendeu bens próprios e fez crédito em seu nome para comprar o material necessário da escola. “Acreditei que a verba que viria seria maior do que foi. Então, fui comprar tecido em Recife, como diz por aí, dei uma viajada  no samba , me empolguei demais  e fui além do que podíamos. Não economizamos e as fantasias estão lindas e até hoje intactas. Não ganhamos o campeonato, claro que não concordo com o resultado, mas mostramos o que somos capazes de fazer. É assim mesmo, o terreno que alugo para guardar material também pago do próprio bolso, afirmou.

O samba-enredo que provocou as dívidas é um dos orgulhos do dirigente. “Falávamos das águas dias rua mistérios e das belezas. As fantasias ficaram perfeitas, dignas de qualquer escola. Muita pedras,  brilho e luxo. Foi o desfile mais empolgante e bonito que já fizemos nós últimos anos”, aponta.

Para 2020, apesar de dúvidas (quando a reportagem foi realizada Toni Santos não sabia se haveria  componentes suficiente e nem como realizaria o desfile ), a escola resolveu resgatar um samba que fala sobre a importância e boemia do antigo bairro de Jaraguá.

“É uma situação triste. Tem a ideia de sairmos de camisa, como forma de protesto por não haver verba no valor suficiente para fazermos as fantasias. De fato, eu não sei como vai ser. Mas estamos aí para cumprir nosso papel de levar alegria. Não iremos fraquejar, as escolas ficarão de pé, com ou sem fantasia”, disse.

 

Fonte: Tribuna Independente / Texto: João Dionisio Soares – Editor de D&A

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