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19 de março de 2018 10:50

‘O herói da série é a história’, diz José Padilha sobre O Mecanismo

Série sobre os bastidores da Lava Jato estreia em 23 de março na Netflix. Em entrevista, diretor detalha produção e critica políticos

↑ Foto: Reprodução / Redes Sociais

José Padilha, cocriador da série O Mecanismo com a roteirista Elena Soarez, tenta visualizar as dimensões da operação Lava Jato nos oito primeiros episódios da produção. A temporada inicial começa no escândalo do Banestado, em 2003, e termina em algum fato já consumado da força-tarefa que ele obviamente quer esconder do público até 23 de março, quando o seriado estreia na Netflix.

Em conversa com jornalistas no Rio de Janeiro durante o lançamento da produção, o cineasta de Tropa de Elite considera que o “herói da série é a história”. “Não é a câmera”, completa. Narcos, trabalho anterior de Padilha para a Netflix, chegou à plataforma em 2015, justo na época em que o canal de streaming teve um aumento gigantesco no número de assinantes.

“Então a Netflix passou a me atribuir poderes sobrenaturais”, brinca. “Aproveitei para enfiar o projeto que eu queria fazer”. Era O Mecanismo. Mesmo baseada no livro Lava Jato – O Juiz Sergio Moro e os Bastidores da Operação que Abalou o Brasil, do jornalista Vladimir Netto, a série tenta se descolar um pouco do conturbado mundo real ao trocar nomes dos personagens reais por alcunhas ficcionais.

Ibrahim (Enrique Diaz) corresponde ao doleiro Alberto Youssef. Marco Ruffo (Selton Mello), ao delegado da polícia federal Gerson Machado. A ex-presidente Dilma Rousseff é chamada de Janete. Petrobras vira PetroBrasil. Odebrecht, Miller & Brecht. “A gente pega uma história que aconteceu com um personagem e puxa para cá, embaralha tudo. Não temos distância do fato. Então contamos por múltiplos pontos de vista”, explica Elena.

Apesar da proximidade inescapável dos eventos da Lava Jato, Padilha procura sair do noticioso e abordar algo que se embrenha no cotidiano brasileiro. É a engrenagem estrutural que dá título à produção.

“É um ponto de vista que tira da mesa esse Fla-Flu ideológico no qual a gente vive. Repito cem milhões de vezes: para mim é uma besteira sem par essa discussão dos formadores de opinião. Porque os fatos são bem claros. Como vou defender qualquer um desses grupos (PT, PSDB ou MDB)? Só se eu for maluco”, exclama.

Padilha começou a rodar O Mecanismo logo após seu mais recente longa, 7 Dias em Entebbe (estreia em 12 de abril no Brasil), produção americana sobre o sequestro de um avião da Air France em 1976, em voo de Tel Aviv para Paris. Entre pesquisa, roteiro (todos os oito episódios foram escritos por Elena) e direção dos capítulos (compartilhada por Padilha, Daniel Rezende, Felipe Prado e Marcos Prado), a produção consumiu mais de um ano.

Encontro com Lula
Disposto a dar declarações pontiagudas sobre políticos e seus partidos, Padilha revela quase sempre votar em branco nas eleições. Enquanto Elena diz já ter apoiado o ex-presidente Lula no primeiro mandato do pernambucano, o diretor afirma que nunca confiou no petista.

Em 2007, ele voltava do Festival de Berlim com o prêmio máximo do evento, o Urso de Ouro, pelo primeiro Tropa de Elite. No retorno ao país, foi abordado por profissionais da Ancine (Agência Nacional de Cinema) que lhe informaram sobre um encontro com Lula. “Ele estava de porre às três da tarde abraçado com Sérgio Cabral (ex-governador do Rio hoje preso por diversos crimes de corrupção)”, descreve.

 

“Quando vi aquilo, já falei, ‘não compro’. Não tenho como comprar. Sempre achei, desde a primeira eleição, desde o governo Sarney, que todo o sistema político brasileiro funciona à base de corrupção. É quase darwinismo ao contrário. Se o cara se elege a presidente, pode saber. Se for honesto, não vai conseguir ser presidente. Como vai concorrer à eleição em que o desonesto recebe milhões de dólares de caixa 2 de empresas? Quando o honesto vai ganhar? O processo eleitoral te levar a concluir isso

Fonte: Metrópoles

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