Educação

28 de junho de 2018 21:22

A grande chance: assentados da reforma agrária se preparam para entrar na Universidade

Alagoas é o pioneiro do Brasil a ofertar curso de graduação em Agroecologia para agricultores rurais

↑ Na roça, jovens assentadas sonham com cadeira na Universidade (Fotos: Sandro Lima)

Uma estrada de barro de ladeira íngreme dar acesso ao Assentamento Padre Emílio April, distante 76 quilômetros da capital alagoana, localizado no município de União dos Palmares, na Zona da Mata de Alagoas; não parece, mas por lá, existem jovens agricultores da reforma agrária cheios de sonhos de uma vida melhor no campo, e essa possibilidade está bem próxima de se tornar realidade. Sabe por quê? A partir de agosto deste ano, eles terão a ‘grande chance’ de sentar numa cadeira de universidade.

É que Alagoas é o primeiro Estado do Brasil a ofertar 50 vagas para o curso de Agroecologia do Pronera (Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária) pela Universidade Federal de Alagoas (Ufal) para assentados da reforma agrária. A fascinante batalha pela conquista da graduação emociona a equipe de reportagem. Focados neste propósito, um grupo de jovens assentados não pensa em se dispersar, isso mesmo, meninos e meninas estudam bastante, sobretudo aos domingos numa associação no próprio assentamento criada recentemente.

A equipe do Tribuna Hoje conversou com três dos cinco jovens do Assentamento Padre Emílio que batalham arduamente para conquistar um futuro próspero por meio do ensino superior.

Eles superam o preconceito por ser do campo e se dividem entre a produção na agricultura para garantir o abastecimento de alimentos aos moradores assentados e das cidades próximas, com horas e horas de estudo resolvendo questões, fazendo simulados, com o apoio de três professoras que não são do assentamento, mas que toparam se dividir para ajudar esses jovens.

Edcláudia da Rocha Silva, de 23 anos, é um desses jovens, que seguem na preparação para a prova do vestibular, desde março passado, ela não esconde o entusiasmo em tentar conquistar uma vaga na Universidade. Casada e com uma filha de 2 anos, a jovem diz que a sua vida é o campo.

“Já tentei morar em Maceió, mas retornei para o meio rural. Cheguei a cursar um período do curso de Agropecuária em Satuba (município da região metropolitana da capital), mas os custos elevados me fizeram desistir, me identifiquei demais com este curso, infelizmente interrompi, mas quando soube que esse ano a Ufal iria ofertar um curso de graduação específico para nós, coloquei na cabeça que essa é a grande chance de mudar a nossa realidade, aliando a prática com o conhecimento teórico”, contou.

Rotina de estudos vai de domingo a domingo

Jovens estudam na associação do assentamento de ‘olho’ na vaga para o curso de Agroecologia  

“A cada dia que passa meu coração acelera e traz novo ânimo na expectativa pela prova, não vejo a hora disso acontecer, estou bem otimista”, destacou.

Com os olhos marejados, Edcláudia Silva se lembra da quantidade de jovens, ainda menores de idade, que deixaram o campo em busca de oportunidades na cidade, justamente pela carência de políticas públicas para essa faixa etária. E ela não está enganada, enquanto a população rural está envelhecendo, os mais jovens continuam a migrar para centros urbanos, de acordo com a prévia do censo Agropecuário 2017, que deverá ser divulgado no próximo mês de julho ou agosto pelo IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Edcláudia crer na capacidade produtiva dos trabalhadores rurais na geração de renda e soberania alimentar do país

Edcláudia crer na capacidade produtiva dos trabalhadores rurais na geração de renda e soberania alimentar do país

PROTAGONISMO

“Penso que é nos jovens rurais que está depositada a continuidade da atividade agrícola das famílias do campo, somos responsáveis por essa capacidade produtiva do país e em manter a soberania alimentar do Brasil”, frisou. “Entendo que nossa função social e primeira tarefa histórica sejam a de produzir alimentos para eliminar a fome das famílias camponesas e gerar renda às famílias assentadas”, salientou a jovem Edcláudia.

Edcláudia não é a única que pensa assim. A jovem Juliana Bispo da Silva, de 20 anos, que também mora no assentamento Padre Emílio April, concluiu o ensino médio em 2016, tentou duas vezes vestibular, porém acredita que esse ano emplacada uma vaga na Ufal no curso de Agroecologia. Ela também vai tentar vestibular para o curso de Agroecologia.

Juventude camponesa tem desejo em comum: Continuar no campo e fazer outros retornarem para casa

“Nós somos o futuro do campo, não podemos deixá-lo morrer, nossos pais estão envelhecendo e é a gente que deve mudar essa realidade, somos discriminados e olham para nós de forma diferente, por isso precisamos nos manter firmes e mostrar que não é bem assim, esse curso veio para nos devolver a esperança de termos nossos jovens de volta para casa”, ressaltou.

Outra candidata a vaga é Ivânia Rocha da Silva, de 17 anos, que é prima de Edcláudia, ela está concluindo o ensino médio, e acredita que para a juventude camponesa tem como lema: “olhar o ontem, viver o hoje e construir o amanhã”.

Ela contou que o anúncio do curso de Agroecologia trouxe novo ânimo aos assentamentos, até mesmo para quem ainda nem terminou o ensino fundamental. “Esse curso vem aprimorar e enriquecer os camponeses, confesso que estava meio sem foco, queria terminar o ensino médio e parar de estudar, não sabia o que queria agora eu sei. Meus pais me incentivam e garantem que se estudar dar para passar sim”, observou.

ÊXODO RURAL

Dona Maria Aparecida Marques da Silva, de 40 anos, sabe bem a dor de ‘perder’ quatro filhos. O verbo é considerado uma morte pelos assentados, quando os jovens decidem deixar o campo em busca de trabalho na cidade.

Maria Aparecida lamenta saída dos filhos para sobreviver na cidade

Maria Aparecida lamenta saída dos filhos para sobreviver na cidade

“Quando esse curso foi dito por aqui, até eu me animei, e olhe que nem terminei o ensino fundamental, mas estou no EJA (Educação de Jovens e Adultos) aqui na associação do assentamento e quero tentar Agrocecologia com fé em Deus, porque só a enxada não dar”, contou. Dois filhos de dona Maria Aparecida estão em Minas Gerais, um em São Paulo e outro voltou há pouco tempo para Alagoas.

De acordo com o Superintendente do Incra-AL (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária), César Lira, este curso de graduação da Ufal é uma oportunidade para centenas de famílias camponesas distribuídas em 178 assentamentos em Alagoas, além das 69 comunidades quilombolas existentes no Estado.

Foto: César Lira, Superintendente do Incra-AL, diz que educação superior prevê dignidade para assentados

César Lira, Superintendente do Incra-AL, diz que educação superior prevê dignidade para assentados

Para ele, a falta de incentivo do filho do assentado é gritante, e é por esta razão, que há o êxodo rural dos jovens cada vez mais cedo. César Lira lembra a situação vista pelos filhos dos assentados, que se resume muitas vezes, em ver os pais no cabo da enxada, com roupas rasgadas, com os dentes a fazer.

“O Incra não quer isso, os assentados precisam e nada é mais justo do que ter um veículo, por exemplo, para que possa escoar a sua produção, e essa é a nova política do Incra nacional de garantir a dignidade dessas pessoas. O Incra começa a investir ainda na agroindústria fortemente e principalmente na educação, que é um marco importante neste processo de qualificação e aprendizagem”, declarou Lira.

IGUALDADE NO CAMPO

O superintendente do Incra em Alagoas explicou que dos 30 Incras do país, Alagoas é um dos cinco que conseguiu aprovação do Pronera para cursos de nível superior. “Alagoas é o primeiro do Brasil a ofertar o curso de Agroecologia, e o sentimento é o melhor possível, no sentido de que estamos rompendo barreiras no que diz respeito à sobrevivência e dignidade entre as famílias assentadas”, colocou. “E, sobretudo, o acesso a politicas públicas com educação superior onde os assentados vão estudar, se qualificar e participar fortemente do mercado de trabalho”, emendou.

César Lira classifica o momento como um divisor de águas, já que para ele, os assentados dispõem de um potencial enorme e o Incra está explorando essa competência para que assim garanta essa notoriedade não apenas na produção, mas também do ponto de vista científico para o crescimento dos assentamentos dentro do Estado de Alagoas, bem como no restante do país.

No Ceca

Curso terá ajuda de custo, alojamento, refeição e material didático

O curso de graduação em Agroecologia pelo Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária (Pronera) será ofertado no Centro de Ciências Agrárias (Ceca) da Ufal, e foi aprovado na sessão do Conselho Universitário (Consuni), no dia 4 de junho deste ano.

Durante o período que vão ficar no Ceca, para as aulas, os estudantes irão contar com alojamento e as três refeições diárias, além de material didático, que são pagos com recursos do projeto. Além disso, haverá uma ajuda de custo para os alunos. As inscrições no vestibular são gratuitas e todas as informações estão no site.

A reitora da Ufal, Valéria Correia, declarou que desde que foi assinado o termo de Execução Descentralizada com o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), em novembro do ano passado, as equipes da Universidade se desdobraram para cumprir todos os prazos.

“Foram destinados para esse programa, recursos do Incra da ordem de R$ 1,9 milhão para execução do curso até 2023, por meio do Pronera, sendo que os R$ 220 mil para esse ano já foram liberados. Tivemos um grande envolvimento da Proginst (Pró-Reitoria de Gestão Institucional), do DCF (Departamento de Contabilidade e Finanças) e do Ceca para dar agilidade aos processos. Agradeço pelo empenho nesse projeto de tamanha importância social”, revelou.

Conforme José Ubiratan Rezende Santana, analista em reforma e desenvolvimento agrário do Incra, além de garantir a democratização do acesso à Universidade para os trabalhadores rurais, o curso vai permitir que esses assentados estejam qualificados para gerenciar a produção nas áreas em que atuam.

“Eles vão assumir o protagonismo, unindo os elementos científicos ao saber local dos agricultores. O curso, se conecta ainda com a Política Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica, por atender aos compromissos firmados pelo Incra com a sociedade civil, de formar 5 mil beneficiários da Reforma Agrária em Agroecologia por meio do Pronera”.

Radar ambiental

Cresce demanda por produtos agropecuários

Foto: Feira Agrária na Praça da Faculdade em Maceió com mais de 100 produtos de assentamentos em Alagoas livres de agrotóxicos

Feira Agrária na Praça da Faculdade em Maceió com mais de 100 produtos de assentamentos em Alagoas livres de agrotóxicos

Atendendo a crescente demanda por produtos agropecuários de qualidade e que sejam produzidos com baixo impacto ambiental, o curso de formação irá promover aos beneficiários da reforma agrária a chance de obter conhecimentos fundamentados na ética profissional e política com viabilidade econômica e justiça social.

O coordenador do curso em Agroecologia, Rafael Navas, diz que o objetivo do curso é formar os beneficiários da reforma agrária para atuarem nas áreas de assentamento dentro dos princípios da agroecologia. E essa graduação estará pautada na pedagogia da alternância, que integra o aprendizado em sala de aula com as práticas no dia a dia do campo.

Juliana Bispo e Ivânia Silva acreditam que teoria e prática vão agregar na vida profissional

Patrícia Medeiros, coordenadora pedagógica no curso explica que as atividades do curso são divididas em Tempo-Escola e Tempo-Comunidade. O Tempo-Escola será realizado em módulos, com duração de 25 dias em média.

“Após esse período o aluno irá desenvolver em sua comunidade os Projetos Integradores, incorporando os conteúdos discutidos no Tempo-Escola, aproximando teoria e prática e a interdisciplinaridade. Os projetos integradores incluirão atividades de pesquisa e extensão, explica a coordenadora pedagógica do curso”, detalha.

As inscrições para o vestibular seguem até o dia 20 de julho, conforme o edital.

 

 

 

 

Fonte: Tribuna Hoje / Produção, reportagem e edição: Ana Paula Omena / Fotos: Sandro Lima

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