Cidades
Cooperativismo que amadureceu e avançou na profissão
Trajetória do jornalista Adailson Calheiros na construção da Jograf, que permaneceu por amor ao jornalismo
“A gente ficou mais por amor ao jornalismo do que por salário”: Essa é a trajetória de Adailson Calheiros na construção da Jorgraf.
Poucos profissionais acompanharam tão de perto as transformações da Tribuna Independente quanto o jornalista e editor de fotografias, Adailson Calheiros. Com mais de quatro décadas dedicadas ao fotojornalismo em Alagoas, ele esteve presente durante a crise que levou ao fechamento da antiga empresa, participou da ocupação do prédio pelos trabalhadores e ajudou a construir o caminho que deu origem à Cooperativa Jorgraf.
Ao recordar aquele período, Adailson afirma que a decisão de permanecer no prédio foi motivada pela necessidade de garantir direitos trabalhistas e, ao mesmo tempo, preservar o patrimônio que ainda poderia assegurar o futuro dos profissionais.
“A gente ocupou porque tinha três meses de salário para receber, além da indenização. Fizemos assembleias, contamos com o apoio do sindicato e dali nasceu a ideia de criar uma cooperativa entre jornalistas e gráficos.”
Adailson lembra que a mobilização contou com apoio do Sindicato dos Jornalistas e envolveu diversas assembleias até que surgisse a proposta de transformar a antiga estrutura em uma cooperativa administrada pelos próprios trabalhadores.
“O cooperativismo apareceu como a única alternativa para manter o jornal vivo e garantir que continuássemos exercendo nossa profissão”, resume.
Sem recursos, mas com disposição para recomeçar, os primeiros anos da Jorgraf foram marcados por dificuldades financeiras. De acordo com Adailson, praticamente não havia recursos para manter a operação.
Uma das primeiras medidas foi vender uma máquina da antiga gráfica para levantar capital. O dinheiro arrecadado foi dividido entre os cooperados.
“Cada um recebeu cerca de R$ 300 como ajuda de custo. Era o que tínhamos naquele momento. Dormíamos dentro da Tribuna para evitar que o prédio fosse ocupado.”
Ele conta que os trabalhadores organizaram piquetes, buscaram apoio junto ao poder público e enfrentaram um longo período de incertezas até que a cooperativa começasse a se estruturar.
Mesmo diante das dificuldades, abandonar o projeto nunca foi uma opção definitiva. “Muitas vezes a gente pensou que não iria aguentar. Mas sempre aparecia alguém dizendo que era preciso continuar. E a gente seguia em frente.”
Quase duas décadas depois da criação da Jorgraf, Adailson reconhece que a situação financeira dos profissionais nunca correspondeu ao esforço empregado para manter o jornal funcionando.
Segundo ele, muitos cooperados permaneceram por compromisso com a profissão. “A gente ficou mais por amor ao jornalismo do que por salário.” Ele observa que o mercado de trabalho para jornalistas em Alagoas também encolheu ao longo dos anos, tornando a cooperativa uma das poucas alternativas para muitos profissionais continuarem atuando.
Apesar das limitações financeiras, destaca que a Tribuna continuou formando profissionais e acumulando reconhecimentos. “Muita gente conquistou e segue conquistando prêmios trabalhando na Tribuna. Isso mostra que o jornal nunca deixou de produzir jornalismo de qualidade.”
Hoje aposentado como jornalista e servidor público, Adailson poderia ter encerrado sua trajetória profissional. No entanto, continua frequentando diariamente a redação.
Segundo ele, a motivação não está no aspecto financeiro, mas na paixão pelo ambiente jornalístico. “Eu continuo indo porque gosto da redação, gosto do jornalismo e não consigo me imaginar parado em casa.”
Ao olhar para a história construída desde a ocupação da antiga Tribuna, ele define a trajetória da Jorgraf como um exemplo de perseverança.
“A gente sofreu muito para chegar até aqui. Não deixamos a Tribuna fechar porque isso virou uma questão de honra.”
Para os cooperados mais jovens, Adailson deixa uma mensagem simples, mas baseada na própria experiência: “quem chega agora precisa entender que essa história foi construída com união, resistência e muito compromisso com o jornalismo. É isso que mantém a cooperativa viva até hoje.”
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