Cidades
De Rio Largo ao TJAL: os 10 anos de desembargo de Celyrio Adamastor
Corregedor-geral relembra trajetória iniciada em comarcas do interior e destaca desafios da modernização do Judiciário alagoano
Com o coração transbordando de gratidão e os olhos marejados pela caminhada percorrida. Foi assim que o desembargador Celyrio Adamastor Tenório Accioly respondeu as indagações da Tribuna. Para ele, olhar o calendário e ver que na próxima segunda-feira, dia 25, completa uma década no desembargo do Tribunal de Justiça de Alagoas, o faz revisitar cada passo dado desde a sua querida Rio Largo e os bancos da faculdade Cesmac.
“Assumo aqui, com a honra que a toga me impõe e a humildade que a vida me ensinou, a missão de responder a cada ponto sob a ótica de quem dedicou quatro décadas ao serviço do próximo”, destacou.
Para o magistrado, completar 10 anos de desembargo atuando no Tribunal de Justiça de Alagoas representa o ápice de um amadurecimento que começou no pó das estradas do interior. “Chegar ao segundo grau foi um chamado para uma responsabilidade ainda maior: a de ser a última trincheira da esperança para o cidadão alagoano. Esses dez anos são o coroamento de uma vida dedicada a ouvir. Sinto-me como um sentinela que, após muito caminhar, hoje pode olhar do alto e garantir que a Justiça seja aplicada com a temperança que a experiência exige e o vigor que o povo merece”, contou.
Celyrio Adamastor enfatizou ser difícil eleger um momento mais marcante dessa trajetória, quando olha para trás na magistratura. “Mas a minha promoção a desembargador em maio de 2016, pelo critério de antiguidade, tocou-me profundamente. Naquele momento, não era apenas o magistrado que subia os degraus, mas toda a minha história: o jovem de Rio Largo, o juiz das comarcas distantes... Senti que cada sentença proferida no interior estava ali, chancelando minha entrada no Pleno. Foi o reconhecimento de que a persistência e a retidão valem a pena”, declarou.
"Eu era a presença viva do Estado"
Ele que iniciou a carreira em 1986, passando por comarcas do interior antes de chegar à capital, salientou que essa experiência contribuiu para sua visão de Justiça. “O interior é a verdadeira escola da vida. Em Maragogi, Penedo e Coruripe, eu não era apenas o juiz; eu era a presença viva do Estado. Lá, a Justiça tem rosto, tem nome e tem pressa. Aprendi que o Direito não está apenas nos livros, mas no aperto de mão do agricultor e na angústia da mãe que busca o sustento do filho. Essa vivência humanizou minha visão; ensinou-me que, por trás de cada processo, existe uma alma que clama por dignidade”, contou.
Para Celyrio Adamastor, o trabalho desenvolvido nos Juizados Especiais ajudou a aproximar o Judiciário da população e classificou a experiência como uma revolução de proximidade e o maior legado que carrega na crença no diálogo. “Ali, aprendi que muitas vezes uma decisão célere e uma escuta atenta valem mais do que anos de litígio. A simplicidade e a oralidade me ensinaram que a Justiça não precisa ser pomposa para ser eficaz; ela precisa ser acessível. Levo comigo a convicção de que o Judiciário deve ser uma casa de portas abertas”, pontuou.
Atualmente como corregedor-geral da Justiça, ele diz que sua bússola na Corregedoria tem sido a orientação e o apoio ao primeiro grau. Sua prioridade é garantir que o magistrado e o servidor na ponta tenham condições de entregar um serviço de excelência. Focados na modernização dos processos, como a implantação do sistema processual e-Proc, no combate à morosidade e, acima de tudo, na humanização do atendimento nas serventias.
“Quero que a Corregedoria seja vista não como um órgão meramente punitivo, mas como um parceiro que ajuda a construir um Judiciário mais eficiente e transparente”, frisou.
JUSTIÇA CONCILIADORA
O magistrado tem defendido uma Justiça mais conciliadora e próxima da sociedade. Ele explicou como tem colocado em prática no dia a dia. “A prática reside no desarmamento dos espíritos. Precisamos incentivar a cultura do acordo antes mesmo da judicialização. No dia a dia, isso se traduz em magistrados que saibam ouvir além do que está escrito nos autos, em núcleos de conciliação fortalecidos e em uma linguagem mais simples, que o cidadão compreenda. Quando as partes constroem juntas a solução, a paz social é muito mais duradoura do que quando uma sentença é imposta”, defendeu.
A sociedade cobra cada vez mais rapidez e eficiência do Judiciário. Para ele, este é o grande desafio desta Era. E lembrou que a celeridade é um imperativo, pois "justiça tardia é injustiça manifesta", como já dizia Rui Barbosa.
“No entanto, não podemos sacrificar a segurança jurídica no altar da pressa. O equilíbrio vem com o uso inteligente da tecnologia — como a inteligência artificial para tarefas repetitivas — permitindo que o magistrado dedique seu tempo e sua sensibilidade ao que é complexo e humano. A rapidez deve estar no rito, mas a prudência deve estar na decisão”, ponderou.
O desembargador Celyrio Adamastor Tenório Accioly salientou que um dos maiores desafios enfrentados pelo Judiciário alagoano é atender a uma demanda crescente com recursos que nem sempre acompanham essa velocidade. De acordo com ele, a interiorização plena da justiça tecnológica, o combate ao congestionamento processual e a necessidade de se estar cada vez mais presentes nas comunidades vulneráveis são pontos centrais.
“Mas o maior desafio, creio eu, é manter a chama da motivação acesa em cada servidor, para que o cidadão sinta que o Tribunal de Justiça é, de fato, o seu porto seguro”, completou.
Olhar para o próximo com a humildade
Indagado sobre qual ensinamento a magistratura trouxe para sua vida pessoal ao longo desses anos, ele foi enfático: “Pessoalmente, a magistratura me ensinou a olhar para o próximo com a humildade de quem sabe que não é dono da verdade absoluta. Aprendi que julgar não é apenas aplicar a fria letra da lei, mas equilibrar a balança com a sensibilidade humana. A toga pesa, é verdade, mas o que ela me deu em termos de compreensão sobre a alma humana e a resiliência do nosso povo alagoano é impagável. Tornei-me um homem mais paciente, mais grato e, acima de tudo, mais consciente da minha pequenez diante da grandiosidade da Justiça Divina e dos homens”.
O magistrado acredita que o Judiciário está hoje mais acessível ao cidadão comum, sobretudo quando ele olha para o início da carreira em 1986. “Vejo um abismo — no bom sentido — entre o que tínhamos e o que oferecemos hoje. A tecnologia, com o processo eletrônico e as audiências virtuais, rompeu as barreiras geográficas que tanto dificultavam a vida do sertanejo e do morador das comarcas mais distantes. Mas a acessibilidade não é apenas digital; ela é, acima de tudo, humana. Hoje, o juiz não está mais encastelado; ele está no meio do povo, ouvindo, mediando e resolvendo”, afirmou.
“Ainda temos um caminho a trilhar, mas o Judiciário alagoano nunca esteve tão próximo de quem realmente importa: o cidadão comum que busca o seu direito”, garantiu.
O desembargador Celyrio Adamastor encerrou a entrevista com uma mensagem para os jovens operadores do Direito que sonham ingressar na magistratura.
“Aos jovens que sentem esse chamado, eu digo: preparem o intelecto, mas, acima de tudo, preparem o coração. A magistratura não é um cargo de poder, é um encargo de serviço. Não busquem a toga pelo prestígio ou pela vaidade, mas pela oportunidade sagrada de ser o instrumento da paz social. Nunca percam a capacidade de se indignar com a injustiça e jamais permitam que o volume de processos os faça esquecer que cada número ali representa uma vida, um sonho ou uma dor".
"Sejam firmes na aplicação da lei, mas profundamente humanos na compreensão da realidade. O Direito é a técnica, mas a Justiça é a alma da nossa profissão. Vale a pena cada noite de estudo e cada sacrifício quando se tem a consciência tranquila de ter servido bem à sua gente e ao seu Estado”, concluiu.
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