Cidades

23 de outubro de 2021 13:16

Pandemia deixa 97 crianças órfãs em Alagoas

34% tinham menos de um ano de idade quando seus pais vieram a óbito; dados são de março de 2020 a setembro deste ano

↑ Segundo a Arpen, número de crianças de até seis anos órfãs pela pandemia do novo coronavírus no país chega a 12 mil (Foto: Marcelo Camargo / Agência Brasil)

A pandemia de Covid-19 deixou 97 crianças de até seis anos órfãs em Alagoas. Em todo o país o número chega a 12 mil. A triste estatística foi contabilizada por cartórios e o levantamento considera dados de março de 2020 a setembro deste ano.

Conforme o levantamento, das 97 crianças, 34% tinham menos de um ano de idade, além disso, duas ainda estavam em período gestacional quando um dos pais faleceu devido a complicações do coronavírus. O percentual em Alagoas está acima da média nacional, onde segundo a Associação Nacional dos Registradores de Pessoas Naturais (Arpen-Brasil), 25,6% das crianças de até seis anos que perderam um dos pais na pandemia não tinham completado um ano.

A Arpen – entidade que representa os cartórios de registro civil do Brasil e administra o Portal da Transparência – afirma ainda que no Brasil 223 pais morreram antes do nascimento de seus filhos, enquanto 64 crianças, até a idade de seis anos, perderam pai e mãe vítimas da Covid-19.

“A base de dados dos cartórios tem auxiliado constantemente os poderes públicos, os laboratórios e os institutos de pesquisas a dimensionar o tamanho da Covid-19 em nosso país e o fato de termos essa parceria com a Receita Federal para a emissão do CPF na certidão de nascimento dos recém-nascidos nos permitiu chegar a este número parcial, mas já impactante”, afirmou o presidente da Arpen-Brasil, Gustavo Renato Fiscarelli.

PROCESSO DE LUTO

A psicóloga infantil Solange Guastaferro explica que o processo do luto para crianças é diferente em relação aos adultos porque envolve uma rede de apoio fortalecida, olhar atento, uma relação de confiança e escuta ativa para quem ficou com a responsabilidade dos cuidados.

“Tudo vai depender de com quem essa criança vai ficar. Se vai ter um apoio seguro, acolhimento. Na pandemia muitas crianças estão passando por isso. Eu mesma atendi dois adolescentes que perderam os pais e isso é muito doloroso, é muito difícil. Mas, se a criança tem uma rede de apoio, um apoio seguro onde os responsáveis vão trazer a lembrança dos pais, para que guarde na lembrança os momentos bons. O ideal é que isso [o luto] não acontecesse na infância, mas na realidade isso acontece e impacta na vida delas. Por isso é tão importante o suporte familiar”, destaca.

Psicóloga: “orientação é falar a verdade em linguagem que elas entendam”

Um ponto fundamental segundo a especialista é falar a verdade. Mesmo muito pequenas, Solange afirma que elas possuem capacidade de assimilar a informação. A orientação é sempre falar a verdade, mas utilizando uma linguagem que a criança entenda.

“A gente tem que entender que depende muito da idade da criança, mas sempre tem que falar a verdade. Isso é uma coisa muito importante. Tem pessoas que acreditam que a criança não vai assimilar. Mas a partir dos três, quatro anos deve se explicar. Se para um adulto já é difícil entender a morte, que dirá para uma criança. Mesmo assim precisamos explicar, dar a oportunidade da criança de ir ou não a um enterro, por exemplo. Devemos explicar usando a linguagem e o imaginário da criança, porque os desenhos trazem essa opção de que é possível assimilar. O que não pode esconder tem que falar a verdade dentro da capacidade da criança de entender”, detalha.

Em alguns casos a intervenção profissional se dá necessária. A psicóloga afirma que diversos recursos são aplicados para ajudar a criança a lidar com a perda e as emoções relacionadas.

“É lógico que pode precisar de um apoio. Antes da pandemia recebi crianças que perderam avós ou avôs. A criança pode desenvolver depressão e na terapia a gente dá suporte para ressignificar essa morte. E isso depende, têm famílias que vão conseguir dar um apoio, mas têm crianças que vão precisar porque é diferente a depressão na infância. Isso se percebe no comportamento da criança que perde o interesse pelas coisas, fica com vergonha, apática. Ela não sabe explicar. O adulto sabe, a criança não. É o adulto que vai observar, se o desempenho na escola está ruim e então procurar ajudam na terapia. A gente vai ajudar essa criança a entender essa morte a gente não vai trabalhar para que ela esqueça, mas que ela entenda o significado da finitude das pessoas”, ressalta Solange.

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Fonte: Tribuna Independente

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