Cidades

3 de outubro de 2020 17:06

População em situação de rua cresce durante pandemia em AL

Mesmo sem dados que comprovem os movimentos afirmam que piora nos indicadores econômicos é um fator determinante para o aumento

↑ Movimento diz que abrigos não são suficientes para todos (Foto: Arthur Melo)

Apesar de não existir dados atualizados sobre a quantidade de pessoas em situação de rua no estado de Alagoas, movimentos e instituições que lidam com essa população estimam um aumento durante a pandemia do novo coronavírus (Covid-19). De acordo com Rafael Machado, coordenador do Movimento Nacional de População de Rua (MNPR/AL), a piora nos indicadores econômicos e sociais, são fatores determinantes para apontar o aumento.

‘’Com a crise e desemprego causados por conta da pandemia da Covid-19, a população de rua cresceu. Apesar de não existir no estado um censo que comprove o número e se de fato houve aumento, a gente percebe no dia a dia. O movimento aponta só na capital alagoana, entre quatro mil e 4.500 pessoas vivendo nas ruas’’, comenta Machado.

O coordenador do MNPR/AL, afirma ainda que esse número pode ter aumentando, e ele não estar contando pessoas que vivem nessa mesma situação fora da capital em municípios como Arapiraca, Palmeira dos Índios e cidades do Litoral alagoano.

Rafael Machado, coordenador do MNPR/AL (Foto: Arthur Melo)

Ainda segundo Machado o grupo sentiu falta no Plano de Contingência do Estado um debate relacionado população de rua que não foi contemplada. “O Plano fala para quem tem casas, falado em distanciamento social, em equipamentos de proteção, mas nada referente à população em situação de rua. Preocuparam-se com as pessoas que tinham casas e esqueceram essa população que não tem censo, dados, ou seja, – que são invisíveis’’, critica.

GOVERNO

Em relação à população em situação de rua, durante o período de pandemia da Covid-19, a Secretaria de Estado da Assistência e Desenvolvimento Social (Seades) informou que  realizou o fornecimento diário de quentinhas provenientes do Restaurante Popular Prato Cheio, equipamento da Seades; o acolhimento e isolamento dos infectados com o novo coronavírus no Centro de Acolhimento e Isolamento Social (CAIS) para o cumprimento adequado do período de 14 dias de quarentena; a testagem para detecção do vírus da Covid-19, em parceria com o Consultório na Rua, nos equipamentos da rede socioassistencial de diferentes municípios do estado: abrigos provisórios e permanentes, Casas de Passagem e Centros Pops; articulação para a desocupação do antigo prédio da Corregedoria do Estado e o encaminhamento a abrigos provisórios. Todas as pessoas, que se encontravam no prédio, foram testadas em relação ao novo coronavírus;

Além disso, disse que após os 60 dias de funcionamento, a doação do acervo pertencente ao CAIS para o abrigo Casa de Ranquines: máquina de lavar roupa, bebedouro, poltronas, 60 camas, 60 colchões e 60 travesseiros. O abrigo tem capacidade de acolher até 600 moradores de rua. As doações continuam a outros abrigos e Casas de Passagem.  Realiza também  manutenção do funcionamento dos serviços regulares dos Centros Pops do estado e a entrega de máscaras de tecido aos Centros Pops do estado e ao abrigo da Casa de Ranquines.

A Secretaria de Estado da Mulher e dos Direitos Humanos (Semudh), também realiza ações voltadas para a população em situação de rua.  ‘’Entendendo seu papel de articuladora, procurou lideranças da igreja católica e outras secretarias de Estado e do município de Maceió, para viabilizar a liberação de locais para dois abrigos, o que garantiu o atendimento às pessoas em situação de rua. Também houve a articulação da Semudh junto à Seads para garantir o almoço diário para as pessoas que estão nos abrigos, bem como se disponibilizou para atender casos de violação de direitos humanos.  Outra ação refere-se à distribuição de 5 mil litros de leite por semana com a parceria da Seagri – Secretaria de Agricultura, Pecuária, Pesca e Aquicultura de Alagoas, dentro do Programa do Leite, também beneficiando a população em situação de rua’’.

A Semudh está articulando a efetivação do Comitê Estadual  para acompanhamento das políticas para a população em situação de rua, projeto já apresentado a  representantes de órgãos públicos, em fase de trâmites para garantir a participação da sociedade. ‘’A Secretaria mantém diálogo permanente com lideranças do Movimento que representam essa população buscando sempre mais ações e garantias para quem está em vulnerabilidade social’’.

ABRIGOS PROVISÓRIOS

Um plano de emergência entre a Arquidiocese de Maceió e a Prefeitura foi criado para garantir o acolhimento da população de rua durante o período de pandemia. Inicialmente, pelo menos mais de 240 vagas estavam garantidas com alimentação e os cuidados básicos para está população. Após três meses, um convênio entre prefeitura, governo federal e igreja (Fraternidade Casa de Ranquines) – elevou a quantidade de vagas aumentando para 600 pessoas.

Os abrigos ficam no Centro de Maceió. Um está sendo mantido no Centro de Educação de Jovens e Adultos (Ceja), localizado na Rua do Sol, cedido pela Secretaria de Estado da Educação (Seduc) e o outro abrigo provisório para pessoas em situação de rua do grupo de risco, especificamente os mais idosos, é mantido em uma das casas da Fundação João Paulo II, localizada na Rua Dr. Costa Leite, também no Centro.

Porém, mesmo com os abrigos, Rafael Machado afirma que não comporta a todos e que a população em situação de rua necessita de alguns cuidados específicos. ‘’Faltou um olhar mais critico e humano.  Foram poucos equipamentos de saúde ofertados. Só depois de quatro meses da pandemia foi lançando um centro de isolamento. Tivemos alguns casos de pessoas com Covid-19 em dos abrigos justamente por falta dessa atenção básica’’.

Machado não desdenha dos apoios e colaboração dos grupos religiosos, instituições, organização não governamental (Ong), sociedade civil organizada e até mesmo do poder público, mas diz que faltaram políticas públicas que beneficia a essa população antes, durante e pós-isolamento social.

‘’Queremos que os direitos das pessoas sejam mantidos, e tenhamos acesso à educação, saúde, moradia e emprego. Na saúde principalmente, até porque ela não tem avançado no estado. As maiorias dessas pessoas fazem uso de drogas, tem muitas que não estão no abrigo porque lhe dá com elas é complicado, e os gestores tem que conhecer o que elas estão passando. Não é apenas um público da assistência social, é da saúde também.  Temos o Caps, consultórios na rua à tarde, mas era para ser pela manhã. A saúde tem que trazer política de redução de danos’’, alerta o coordenador do MNPR/AL.

Instituições intensificam ações de distribuição de alimentos 

O Instituto Amigos da Sopa de Alagoas (Iasal) é uma das instituições sem fins lucrativos, formado por voluntários e colaboradores diretos e indiretos que atua colaborando na sobrevivência de comunidades carentes e pessoas em situação de rua.  Fundado em 2012 pelo idealizador, Tibério Jorge, as ações não pararam durante a pandemia, foram intensificadas seguindo os protocolos de saúde.

Instituto Amigos da Sopa intensificou ações durante pandemia (Foto: Arthur Melo)

‘’Nossas ações não pararam, atendemos mais de 500 famílias carentes nas terças, quintas e sábados com ações na parte alta e baixa de Maceió, como no Antares, praças, e comunidades. Todas as ações estão sendo feitas seguindo os protocolos e com agendamentos de letras. Além da distribuição de sopas e cestas básicas, também entregamos kits de higiene e limpeza – trabalhamos com voluntários e parcerias com empresas e com a Secretaria Municipal de Assistência Social’’, esclarece o irmão Tibério Jorge.

As ações acontecem três vezes por semana, com distribuição diurnas e noturnas, que atendem comunidades carentes de Maceió. Aproximadamente 4.000 litros de sopa são distribuídos por mês, totalizando 12 mil refeições para cerca de 520 famílias, além de moradores de rua.

Para Tibério, o isolamento social fez aumentar a demanda das instituições.  ‘’Uma vez que muitas famílias que também realizava essas ações não estavam fazendo por conta do distanciamento social, a demanda aumenta’’.

Quem também intensificou as ações voltadas as pessoas carentes em especial a população em situação de rua foi a Comunidade Espírita Nosso Lar. Segundo o representante da comunidade e voluntário, Vitor José, as ações são realizadas diariamente. “Com a pandemia tivemos que nos adequar a nova realidade, mas não paramos. Na verdade não tem como parar porque trabalhamos em prol das pessoas que necessitam. Fizemos algumas mudanças para atendermos. Assim como outras instituições levamos alimento, ações de saúde para que necessita – trabalhamos não só na comunidade do Vergel do Lago, mas temos uma caravana que faz a distribuição de sopas e outros produtos para os moradores de rua na capital’’.

Ainda de acordo com Vitor, a comunidade atende cerca de 100 pessoas diariamente entre moradores do bairro e pessoas em situação de rua durante a semana e umas 400 nos fins de semana. “Fora isso, temos um abrigo dentro da comunidade que trouxe idosos, alguns da rua parta ficarem aqui’’, comenta.

A sociedade civil organizada também continua atuando e alguns grupos não param de levar assistência a essas pessoas. O cantor Will Gomes, é um voluntário e junto a um grupo de amigos realizam ações gradativas distribuindo alimentação para as pessoas em situação de rua. “São ações que não pararam claro que passamos a ter certo cuidado por conta da Covid-19’’. O grupo de Will trabalha com as ações no bairro de Bebedouro e adjacências.

Marcos Antônio da Silva, mais conhecido como Marrom coordenador regional da Frente Nacional de Lutas (FNL), também atua de forma direta no combate a fome entre os moradores de rua. Ele conta que além de cobrar ações para o movimento, cobra para todas as pessoas sem teto e etc. ‘’Durante a pandemia a situação para esses grupos ficaram piores do que já eram, não tem ações pontuais dos órgãos governamentais voltados para elas. Até poucos dias o governo através da Secretaria da Mulher e Direitos Humanos estavam enviado quentinhas para esse grupo que está aqui nesse prédio na Praça dos Martírios, mas foi cortado. Além disso, tem os moradores de rua que sempre chega aqui pedindo comida e abrigo’’, ressalta.

Política de ações municipais também é referência no atendimento

Além dos movimentos e instituições, vale lembrar que a Prefeitura realiza o Serviço Especializado em Abordagem Social (Seas) em Maceió, voltado a essa população. E A sociedade pode contribuir através do telefone 0800 284 8048 disponibilizado pela Secretaria Municipal de Assistência Social (Semas) principal canal por onde o maceioense pode contribuir, de maneira direta, com o encaminhamento de pessoas em situação de rua para serviços oferecidos pelo poder público.

Vitor José, representante da Comunidade Espírita Nosso Lar (Foto: Arthur Melo)

CENTRO POP

A população de Rua em Maceió conta com dois Centros de Referência Especializado para a População em Situação de Rua (Centro POP) que ofertam assistência especializada e completa à população de rua. Os equipamentos funcionam de 8h às 16h e servem de apoio para higiene pessoal da população de rua. Nos espaços não apenas são encaminhados os usuários para o atendimento nos programas sociais, mas também são oferecidos cultura, lazer e esporte, com oficinas diária de resgate da autoestima e autonomia deste público.

Maceió conta ainda com duas unidades de acolhimento para população em situação de rua. Uma que atende adultos de ambos os sexos e outra Casa de Passagem Familiar, para famílias em situação de rua. Nestes espaços são ofertados alimentação, espaço para higiene pessoal e acolhimento de pernoite. As pessoas atendidas nas unidades de acolhimento são acompanhadas para resgate do projeto de vida.

Além da Semas, a Prefeitura de Maceió têm serviços ofertados para este público por meio da Secretaria Municipal de Saúde, com o Consultório na Rua, que leva atendimentos de saúde para a população em vulnerabilidade nas ruas. E ainda o Grupamento de Atenção à População em Situação de Rua (GPOP), da Secretaria Municipal de Segurança Comunitária e Convívio Social, ligado à Guarda Municipal de Maceió.

Fonte: Tribuna Hoje / Lucas França

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