Cidades

19 de novembro de 2019 09:23

Cratera gigantesca ameaça engolir campo do CSA e Hospital José Lopes

Indícios como retorno de água por poços e depressões no solo apontam para avanço do processo de afundamento na região

↑ Deformidade estaria aos fundos da antiga casa de saúde José Lopes, onde já houve avanço de 2m da lagoa (Foto: Adailson Calheiros)

Informações apuradas com exclusividade pela reportagem da Tribuna Independente apontam para a formação de uma dolina, ou como os especialistas costumam chamar “sinkhole” no bairro do Mutange, em Maceió. A deformidade estaria aos fundos da antiga casa de saúde José Lopes, área que concentra o maior nível de avanço da lagoa, já são mais de 2 metros nos últimos quinze anos.

Um cruzamento nos dados antigos e em novos estudos teria indicado que há uma área de instabilidade onde o afundamento está acentuado. Procurado pela Tribuna, o pesquisador Abel Galindo confirmou a situação e afirma que a abertura de uma cratera na região deve ocorrer “em breve”.

“Aquele olho do furacão ali é uma coisa muito grave. Quando eu fiz aquilo ali [estudo] já havia dois metros de afundamento em 15 anos. Eu estive lá essa semana, preocupado. Porque há a informação de que os estudos da interferometria e batimetria na lagoa, causaram preocupação à CPRM com a possibilidade de que haverá um colapso, o que se chama de sinkhole. O afundamento total daquela área em torno e nos fundos da antiga casa de saúde Dr José Lopes poderá acontecer em breve”, diz o engenheiro.

Em julho deste ano, Abel Galindo havia adiantado que essa região, que compreende o campo do CSA, Casa José Lopes até a casa de Saúde Miguel Couto, já teria um avanço de mais de 2 metros da lagoa. No relatório conclusivo a CPRM também apontou afundamento de 40 cm no solo deste trecho.

“Já há indícios de retorno no fluxo de água. Tem um poço artesiano na casa José Lopes que a água sobe. A terra desce e a água sobe. É uma movimentação muito forte. Está descendo e se espera que a casa do José Lopes e a vizinhança vai descer, assim como aconteceu lá na Bahia. Tem uns dois meses que fiz o último trabalho e estive lá recentemente, falei com o zelador e ele disse que a parte alta, já próximo à rua, essa parte já está com depressões e com água, a água está vindo por baixo, na parte do jardim já está cheio de caranguejo, já está aquele solo tipo de mangue. Na própria casa tem rachaduras, o negócio é sério. Pode acontecer o que houve lá na Bahia. A possibilidade há. Eu não posso dizer que vai acontecer de certeza. Eles [CPRM] dizem que sim. Dão certeza”, pontua Galindo.

Procurado pela reportagem, o Serviço Geológico do Brasil solicitou mais tempo para disponibilizar as informações solicitadas.

Em audiência pública realizada na Câmara Federal no último dia 7 deste mês, o coordenador dos estudos da CPRM, Thales Sampaio elencou 50 ocorrências de sinkhole no mundo, algumas delas ligadas a exploração por mineração.

No Brasil, o exemplo citado foi a cratera de Matarandiba, na Ilha de Vera Cruz, Bahia. Na ultima medição realizada pela mineradora Dow Química, em fevereiro deste ano, a cratera ultrapassava os 90 metros de comprimento, e 36 de profundidade. Quando foi descoberta, menos de um ano antes, a cratera tinha 69 metros na borda.

“Me questionaram se existe exemplo no Brasil do que está ocorrendo, e sim, existe a cratera de Matarandiba, próxima a Ilha de Itaparica na Bahia. Só que lá é uma área sem habitantes, a ilha onde ocorre a exploração é da empresa que faz a mineração, a Dow Química”, disse Thales durante audiência.

A relação e a possibilidade deste tipo de ocorrência na região não é descartada por Abel Galindo. “A força tectônica está puxando, tende a se fechar. Essa força é muito grande, está arrastando todo o maciço que tem em cima. Está puxando e aí racha. Essa tectônica salina está causando tudo isso”, afirma Abel Galindo.

O pesquisador vai além. Para ele, o risco existe e só não aconteceu ainda devido a composição do solo. No entanto, não é possível prever uma data ou determinar, com as informações disponíveis até agora, qual a área de impacto.

“Deve descer as minas essa parte toda pode descer e a casa José Lopes a vizinhança também. Toda essa parte. Exatamente aí está aquele condomínio Bosque do Mundaú, inclusive mandei mensagem para a Defesa Civil sugerindo que tire aquele pessoal dali. Não podemos dizer se vai acontecer no próximo mês, no próximo ano, mas pode acontecer e a CPRM diz que vai acontecer de certeza. Eu acho que não aconteceu ainda porque temos umas camadas de folhelhos e arenitos sãs. Isso é que tá salvando”.

SINKHOLE

A deformidade conhecida tecnicamente como sinkhole é um vazio de superfície resultante de algum processo interno do solo. O escorregamento ocorre para dentro de um “vazio” existente e podem levar tudo o que está em superfície.

O coordenador do movimento SOS Pinheiro, Geraldo Vasconcelos afirma que vem acompanhando os estudos apresentados sobre a região e acredita que há uma área de “maior probabilidade”.

“Há fortes indícios no quintal e em cômodos da antiga Clínica José Lopes e Residencial Bosque do Mundaú. Chamo atenção que desde a Audiência no Senado, venho lutando muito com o MPF, MPE e Defesa Civil Municipal e Estadual, no sentido de priorizarmos a retirada das famílias do ‘Arco Vermelho’, inclusive com alguns desgastes pessoais. Nosso entendimento é de que iríamos adotar uma operação de guerra para a remoção dessas pessoas do Arco Vermelho. Entretanto o que assistimos foi exatamente ao contrário, depois da audiência do Senado pararam totalmente as ações de evacuação”, explica.

Para Geraldo Vasconcelos, é necessário que uma evacuação ocorra com a maior brevidade possível.

“Se há conhecimento dessa gravidade e ações em curso, nós enquanto cidadãos não estamos sendo comunicados como deveríamos ser, afinal temos uma Lei específica para que tenhamos acesso as informações (Lei nº 12.527/2011 – Lei Geral de Acesso a Informações Públicas), de outra forma, só posso entender como omissão do poder público diante de tamanha gravidade. Retiraram 2.200 famílias do Pinheiro em um toque de mágica. Então por que tanto protocolo para retirar exatamente quem mais corre risco? Por que?”, questiona o líder comunitário.

Leia mais nas versões imprensa e digital da Tribuna Independente desta terça-feira (19)

Fonte: Tribuna Independente / Evellyn Pimentel

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