Cidades

14 de novembro de 2019 13:02

Universidade pública: “número de negros está longe do ideal’’

Para socióloga, políticas voltadas à educação mostram resultados, mas ainda falta muito para diminuir a desigualdade

↑ Segundo pesquisa do IBGE, pela 1ª vez, pretos e pardos são mais da metade dos universitários da rede pública (Foto: Ascom Ufal)

De acordo com dados divulgados ontem (13), da pesquisa Desigualdades Sociais por Cor ou Raça Brasil, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), pela primeira vez a população que se declara de cor preta ou parda passou a representar mais da metade dos estudantes do nível superior da rede pública de ensino em todo o país. O número exato é 50,3%. Apesar de não ter dados locais, a reportagem da Tribuna Independente repercutiu os dados com uma socióloga e representantes de movimentos e instituições.

“Esse dado nos mostra que, quando se há políticas públicas voltadas para educação, temos resultados, mas ainda está longe de ser o ideal. As políticas públicas postas pelo governo do PT [Partido do Trabalhador] na educação, mostra-nos que a longo prazo teríamos uma representatividade da raça negra nas universidades. Programas como cotas e o Prouni [Programa Universidade para Todos] são responsáveis por exponencial subida nos dados. Apesar de termos a maioria da população brasileira sendo negra e parda, não tínhamos essa representação nas universidades públicas’’, explica a socióloga Danúbia Barbosa.

Danúbia Barbosa diz ainda que o país está longe de ter o cenário ideal. “Muitos ainda não conseguem terminar o ensino superior e os que terminam têm mais dificuldade para se colocar no mercado, em relação a um branco. A maioria desses negros e pardos ainda está em cursos nas áreas de licenciatura. Os cursos ditos como de ‘elite’, medicina, odontologia, direito… Ainda temos pouca representatividade. Temos muito ainda para caminhar e mostrar que sem investimento em educação não podemos chegar a lugar algum’’.

Para a professora Lígia dos Santos Ferreira, do Núcleo de Estudos Afro-brasileiros da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), o aumento se deve a atualização da banca de verificação.

“Houve na verdade a instauração dessas bancas de verificação, porque as cotas sempre existiram – mas, o problema era que as pessoas não negras estavam ocupando os lugares das pessoas negras. E com as cotas no Brasil inteiro, os números de negros começam a aparecer. Na Ufal, a gente fez banca agora em 2019, e só no segundo semestre temos o número de 1.899 estudantes negros nos cursos da universidade, e antes estes números não existiam, porque era feito apenas por autodeclararão. Não havia uma validação, e por isso não víamos muitos negros. A Ufal é uma das últimas a colocar as bancas, mas desde 2013 e 2015 em todo o país já tinha. A UnB [Universidade de Brasília], por exemplo, já realizava isso desde 2013. Com isso, os números vão crescer ainda mais’’, disse Lígia dos Santos.

Índice cresce, mas negros permanecem sub-representados

 

A pesquisa com dados de 2018 aponta que naquele ano, no Brasil, os negros ou pardos passaram a ser 50,3% dos estudantes de ensino superior da rede pública. Porém, como formavam a maioria da população (55,8%), permaneceram sub-representados.

Além disso, entre a população preta ou parda de 18 a 24 anos que estudava, o percentual cursando ensino superior aumentou de 2016 (50,5%) para 2018 (55,6%), mas ainda ficou abaixo do percentual de brancos da mesma faixa etária (78,8%).

De acordo com a presidente do Instituto Raízes de África, Arísia Barros, as cotas vieram para fazer o diferencial.

“São políticas públicas que tentam puxar para cima quem estava embaixo. Não adianta pensar em igualdade se não começar a trabalhar as diferenças. É notório e de conhecimento que a população negra sempre esteve no processo de subalternos na questão de educação. Em Alagoas a cota vem trazer a questão da negritude, pontuando o que diz os índices da população. Quando invadimos esses espaços de saber mostra que nosso povo está subindo alguns degraus. Aqui no estado temos uma parcela desses jovens na universidade – que é um espaço de poder. Nós abrimos esse espaço, porque as cotas são políticas públicas. Mas ao mesmo tempo o sistema desqualifica porque muitos desses negros ganham menos quando ocupa o mercado de trabalho. E isso configura o racismo. Isso continua sendo uma senzala social. Para o racista, negro nunca deveria ter saído da senzala’’, ressalta Arísia.

O professor Clébio Araújo da Universidade Estadual de Alagoas (Uneal) de Arapiraca e atual Presidente do Conselho Estadual de Promoção da Igualdade Racial (Conepir) diz que as cotas ajudam na mudança. “O aumento da presença da população negra nas universidades públicas é reflexo direito do advento do sistema de cotas. As cotas representam não apenas um aumento numérico dos negros e negras nas universidades, mas também uma maior percepção do racismo e sua incorporação enquanto temática nos campos da pesquisa, ensino e extensão, o que significa dizer que as universidades ganharam muito com esse crescimento em termos de uma pluralização maior dos seus conteúdos nas diversas áreas de conhecimento, provocando, isso, a transformação de paradigmas historicamente hegemônicos nos currículos universitários’’.

Mas Clébio diz que, embora os números ainda esteja distantes da proporção representativa da presença negra no conjunto da população brasileira, os dados levantados pelo IBGE reforçam a constatação quanto ao acerto histórico da adoção das cotas enquanto políticas de ações afirmativas. ‘’Todavia, entendo que, para ampliarmos essa conquista, de fato, é necessário, por uma lado o investimento em recursos que garantam a permanência dessa população na universidade – o que não é garantido apenas pelo ingresso, em si -, haja vista as dificuldades econômicas que a população negra encontra para fazer frente aos custos de manutenção de uma vida acadêmica em nível universitário. Portanto, é necessário a definição de recursos para assistência estudantil aos cotistas em diversos aspectos, moradia (quanto envolve deslocamento entre cidades e estados), alimentação e acesso a livros, materiais e equipamentos indispensáveis aos estudos, sem os quais os cotistas não terão condições de se manter nos cursos superiores, principalmente aqueles de custos mais altos como medicina, direito e as engenharias, onde livros, por exemplo, muitas vezes custam mais que a renda mensal de uma família de baixa renda moradora de periferia.

SISTEMA DE COTAS

A Lei Federal de Cotas foi sancionada em 2016 e definiu que metade das matrículas nas universidades e institutos federais deveria atender a critérios de cotas raciais e sociais em quatro anos.

Fonte: Tribuna Independente / Lucas França

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