Cidades

11 de janeiro de 2019 19:06

Advogada pede proteção ao Estado contra ex-marido da cliente

Acusado teria agredido ex-mulher e agora está fazendo ameaças a ela e à jurista

↑ Julia Nunes fez 8 pedidos de prisão por descumprimento de medida protetiva, mas não teve resposta até agora (Foto: Edilson Omena)

O que poderia ser mais um caso de fim de relacionamento com alguns contratempos normais, tornou-se uma verdadeira novela com episódios de violência e perseguição. Até mesmo a advogada que estava acompanhando o caso virou vítima em um processo que chegou ao Conselho Estadual de Segurança.

Na tarde desta sexta-feira (11), a advogada Júlia Nunes foi com sua cliente (que terá sua identidade preservada por questões de segurança) à delegacia da mulher, no Salvador Lira, para prestar depoimento sobre as ameaças que tem sofrido. Segundo o relato dela, Wilson Faustino, ex-marido de sua cliente estaria rondando a sua rua, fazendo ameaças à sua integridade, e ataques diretos através de áudios de Whatsapp.

O acusado recebeu uma intimação para depor às 15h30, e chegou a confirmar que iria, segundo a chefe de operações da delegacia da mulher, Zeina Oliveira. No entanto, não compareceu até as 16h. A policial disse que seria feita uma reintimação e caso ele não compareça será feito um inquérito policial. “O inquérito nos permite agir sem a presença dele”. A próxima intimação é para o próximo dia 15.

Ex-mulher do acusado relata que sua vida tem sido um inferno há 3 anos, desde a separação (Foto: Edilson Omena)

Refém do medo e presas em casa

Júlia Nunes conta que começou a acompanhar o caso há 2 anos. Mas que nos últimos dias teme pela própria vida. “Eu fui indicada pela psicóloga do filho dele e hoje me vejo refém dele. Não estou saindo de casa desde o dia 5 de janeiro, porque ele não tem o que perder, mas eu tenho. Troquei de carro há 3 meses, e ele já sabe a placa”.

E apela para os riscos que pode estar correndo. “Eu quero saber o que é necessário para a justiça. Se só ameaças de uma pessoa totalmente desequilibrada, que fez um canal no Youtube confessando que dava na cara dela, e não tem medo da polícia não bastam. É necessário que ele entre na minha casa e atente contra a minha vida?”.

O caso tem origem em um relacionamento que no total durou 15 anos. Eles ficaram casados por 9 anos. A cliente de Júlia relata que a personalidade de seu ex já dava sinais de problema. “Ele sempre foi bem agressivo, mas depois que eu me casei com ele passei a ser presa. Em um dia, há 3 anos atrás, ele disse que pegou um espírito e ficou totalmente agressivo”. Ela lembra que ele costumava fazer isso antes, alterava a voz e a fisionomia e a agredia verbalmente alegando que estava possuído por um espírito, mas que desta vez foi diferente.

“Veio com um facão colocou nas minhas coisas. Eu estava no banheiro me arrumando para ir ao trabalho. Disse que um espírito disse a ele que eu estava traindo ele. Me bateu na cara, eu ainda troquei de roupa, ele me botou no carro, e com meu filho no carro me bateu no carro”.

Daquele dia em diante, a vítima voltou para a casa dos pais com o filho, e relata que sua vida se tornou um verdadeiro inferno. “começou gravar vários vídeos na internet me difamando, ameaçando a mim e aos meus pais. Não foi ao meu trabalho, mas ligou para lá me difamando e tentando me prejudicar. O intuito dele é acabar com a minha vida, ele mesmo diz”.

O filho do casal tem 11 anos, e em meio a toda essa confusão continua convivendo com o pai em visitas periódicas. A mãe ficou sabendo que a criança costuma ouvir falas agressivas contra ela durante essas visitas.

A jurista fez 8 pedidos de prisão por descumprimento de medida protetiva, mas não teve resposta até agora. Ela acredita que todo esse descumprimento da medida, essas ameaças se devem à certeza da impunidade. Afirma ter solicitado que a patrulha da Maria da Penha acompanhasse a cliente, também sem resposta. No entanto, desde que denunciou as ameaças a si própria e acionou o Conselho Estadual de Segurança, a advogada recebeu proteção da patrulha. Inclusive estava escoltada na ida à delegacia. A agente da patrulha Maria da Penha que estava no local informou que não foi acionada a lei Maria da Penha durante o processo.

Atleta e não criminosa

Bicampeã nacional de tiro esportivo, a advogada garante que isso não torna ela menos vulnerável que outras vítimas de ameaças ou violência.

“Eu sou a prova viva de que o atirador e o esporte não traz proteção. O atleta tem a consciência de que a arma não foi feita para ser usada, ela foi feita para o esporte. Ele me ameaçou, ele esteve na minha rua, e mesmo eu tendo um arsenal em casa, em momento algum eu peguei minha arma e fui atrás dele. Eu acionei a polícia. Eu acredito no poder do Estado, na proteção da polícia, da proteção divina. Não vou deixar de ser uma atleta para me tornar uma criminosa.

Se comprometendo a não vincular o esporte a nada negativo, Júlia afirma que não quer nunca atirar em alguém.

O caso ganhou repercussão nas mídias sociais nos últimos dias após a divulgação de vídeos da própria advogada relatando tudo. A reportagem do portal Tribuna Hoje teve acesso a vários vídeos do acusado, onde ele confessa agressões, dispara xingamentos a ela e faz ameaças.

Foto: Edilson Omena

Ameaças à advocacia

Ela também acionou a OAB, que está acompanhando o caso através da comissão da mulher advogada. “Estamos tendo um diálogo com a patrulha da maria da penha para que eles façam a fiscalização do cumprimento da medida protetiva, e em caso de descumprimento seja efetuada a prisão”

O advogado criminalista Raimundo Palmeira, conselheiro federal da OAB, está acompanhando o caso. Ele afirma que o episódio é uma ameaça à advocacia de uma forma geral, “No momento que um colega é agredido ou ameaçado, cada um de nós está sendo ameaçado”.

Com vasta experiência na advocacia, Palmeira observa que não há razão para o comportamento. “Já fizemos muitos processos criminais de alta repercussão e nenhum desses houve coragem de se ameaçar o advogado, ou advogada. Não é a partir da intimidação da figura do advogado que alguém vai conseguir o que pretende ”. O conselheiro identifica violência de gênero nas acusações à colega. “Talvez se fosse um advogado homem, uma situação dessa de violência contra a mulher não teria passado para ele”

 

Fonte: Tribuna Hoje / Emanuelle Vanderlei

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