Saúde

Jogos, apostas e uso excessivo de telas: como reconhecer sinais de comportamento compulsivo

Por Assessoria 10/09/2026 10h11
Jogos, apostas e uso excessivo de telas: como reconhecer sinais de comportamento compulsivo
Bet - apostas esportivas online - Foto: Imagem ilustrativa




O crescimento das apostas esportivas online e o uso cada vez mais intenso de celulares, redes sociais e jogos digitais levantam um alerta para a saúde mental.

Mais do que a quantidade de horas diante de uma tela ou a frequência com que uma pessoa aposta, o principal sinal de preocupação é a relação estabelecida com esses comportamentos e os prejuízos que eles passam a provocar na rotina.

De acordo com o professor Allan Maia, da Pós-graduação em Psiquiatria da Afya Educação Médica Maceió, a perda de controle é um dos principais indicadores de que o entretenimento pode estar evoluindo para um comportamento patológico.

“O sinal de alerta aparece quando começa a existir perda de controle e prejuízo na vida cotidiana”, explica o especialista.

Segundo ele, no caso das apostas, é preciso observar comportamentos como aumento progressivo dos valores apostados, irritação ao tentar parar, preocupação constante com apostas, ocultação dos gastos e, principalmente, a tentativa de recuperar o dinheiro perdido fazendo novas apostas.

Esse último comportamento, conhecido como “perseguir as perdas”, é considerado característico do transtorno do jogo.

O problema pode se agravar porque as plataformas digitais facilitam o acesso às apostas e reduzem o intervalo entre o impulso e a ação.

“As apostas mexem com um sistema cerebral muito importante para nossa sobrevivência: o circuito de recompensa”, afirma Allan Maia.

O especialista explica que o cérebro não responde apenas à recompensa, mas também à expectativa e à incerteza sobre quando ela ocorrerá.

Esse mecanismo, conhecido como reforço intermitente, pode estimular a repetição do comportamento.

Nos aplicativos de apostas online, esse processo é potencializado pela possibilidade de apostar em poucos segundos, acompanhar partidas ao vivo, receber notificações e realizar novas apostas imediatamente.

“O cassino, de certa maneira, passou a caber no bolso”, alerta o professor.

Os efeitos também podem alcançar a saúde emocional.

Ansiedade, depressão, irritabilidade e alterações do sono podem aparecer associadas ao comportamento compulsivo, tanto como consequência quanto como fatores que aumentam a vulnerabilidade.

“Pessoas com depressão, ansiedade, TDAH e outros transtornos psiquiátricos podem encontrar nas apostas, nos jogos ou no ambiente digital uma forma rápida de distração ou de alívio de emoções desagradáveis”, explica.

Com o tempo, porém, aquilo que inicialmente proporcionava alívio pode contribuir para o surgimento de novos problemas.

Nas famílias, os sinais podem aparecer antes mesmo de a própria pessoa reconhecer que perdeu o controle.

Esconder o celular, omitir movimentações financeiras, pedir dinheiro emprestado sem explicar o motivo, abandonar atividades sociais e comprometer estudos ou trabalho são alguns dos comportamentos que merecem atenção.

O impacto financeiro das apostas online também pode provocar consequências que ultrapassam quem aposta.

Dívidas, empréstimos e utilização de recursos destinados às despesas domésticas podem gerar conflitos e comprometer a confiança entre familiares.

Uma das razões para a continuidade das apostas mesmo diante dos prejuízos é justamente a tentativa de recuperar as perdas.

“A pessoa pensa: ‘se eu recuperar o que perdi, eu paro’. Perde novamente e passa a precisar recuperar um valor ainda maior. Forma-se um ciclo”, alerta Maia.

Diante dos primeiros sinais, o especialista recomenda buscar ajuda antes que a situação se torne insustentável.

Psicólogos e psiquiatras podem atuar na identificação dos gatilhos e no tratamento dos comportamentos compulsivos.

A avaliação psiquiátrica ganha importância quando há sintomas associados, como depressão, ansiedade intensa, TDAH, alterações do sono ou uso problemático de álcool e outras substâncias.

A família também pode ajudar estabelecendo limites concretos, reduzindo o acesso às plataformas, desativando notificações e utilizando mecanismos de autoexclusão.

No caso das telas, especialmente entre crianças e adolescentes, o equilíbrio deve considerar sono, atividade física, estudos, convivência familiar e relações presenciais.

Para Allan Maia, o principal objetivo não é tratar a tecnologia como inimiga, mas evitar que ela passe a controlar a vida.

“Talvez a pergunta mais simples para uma família seja também uma das mais úteis: ‘Essa atividade ainda está servindo à pessoa ou a vida da pessoa começou a servir a essa atividade?’. Quando ocorre essa inversão, é hora de prestar atenção.”