Política
Há 40 anos, Alagoas perdia Selma Bandeira
Ativista estava em campanha quando morreu em acidente em 7 de setembro de 1986, junto com amiga, motorista e assessor
Um acontecimento trágico, sem precedentes na história política de Alagoas, marcou para sempre os alagoanos na década de 80. Em plena campanha para Câmara Federal, a então deputada estadual Selma Bandeira sofreu um acidente grave de carro, que ceifou a sua vida, há exatamente 40 anos atrás, no dia 7 de setembro de 1986.
Juntos com ela, morreram também a amiga Noraci Pedrosa, o motorista Calheiros e assessor parlamentar Adalberon. A notícia do acidente pegou de surpresa a sociedade alagoana, que ficou chocada com a tragédia, na região metropolitana de Maceió. Para o publicitário Luiz Dantas, que era casado com Selma, essa é uma efeméride dolorosa de lembrar. “Essa segunda-feira, 7 de setembro, marca 40 anos de saudade da deputada Selma Bandeira, data em que milhares de alagoanos choraram sua partida precoce, vítima de um brutal acidente na Ladeira de Satuba”, recorda-se o professor.
“Amada e querida por suas bandeiras de luta, Selma desfrutava de uma admiração gigantesca de homens e mulheres que viam nela a expressão da esperança, especialmente, para as minorias: trabalhadores do campo e da cidade, mulheres, negros, povos originários e a comunidade LGBT”, acrescentou Dantas, que é professor do curso de Comunicação Social da Universidade Federal de Alagoas.
“Os alto-falantes do Trapichão, naquele dia de futebol, anunciaram o fatídico acontecimento que, segundo torcedores, emudeceu o estádio e paralisou a partida daquele fim de tarde de um domingo ensolarado, em que se praticava o esporte bretão que consagrou Leônidas da Silva”, completou o professor.
Segundo ele, o acidente ceifou a vida de mais três pessoas: a enfermeira Noraci Pedrosa, o motorista Calheiros e o assessor parlamentar Adalberon, que viajavam com ela. Selma era candidata a deputada federal, estava em plena campanha e ia participar de um comício em Viçosa, na região da Zona da Mata alagoana. Ela viajava num Corcel II da Ford, dirigido por seu motorista particular.
Segundo relatos da época, um caminhão, com carga máxima de madeira, atravessou a pista na contramão, porque o motorista havia dormido ao volante após consumir bebida alcoólica, horas antes do trágico acidade. O impacto da colisão foi tão forte que matou, instantaneamente, a deputada e os outros três ocupantes do veículo.
O velório de Selma foi na Assembleia Legislativa de Alagoas. De lá, o caixão com o corpo dela foi levado em cima de caminhão dos Bombeiros, até o Cemitério Parque das Flores, no Tabuleiro. O sepultamento parou a ainda quase pacata Maceió, que mal chegava a 430 mil habitantes, com um cortejo gigantesco de pelo menos 10 km, como registrou a TV Gazeta de Alagoas, repleto de gente do povo a pé, carros, bicicletas e carroças.
FORMAÇÃO
Natural de Delmiro Gouveia, Selma Bandeira nasceu no dia nasceu no dia 1° de janeiro de 1944. Ela se destacou pela sua militância política e pelo papel ativo na luta a favor da cidadania. Médica formada pela Ufal, foi vice-presidente do Diretório Acadêmico da Faculdade de Medicina e ensinou biologia no Colégio Estadual de Alagoas.
Sertaneja destemida, nunca estudou em outro lugar que não fosse escola pública e logrou conquistar, com as melhores notas, a formação como médica, onde se dedicou à pediatria. Fez pós-graduação em Saúde Pública — equivalente, à época, ao mestrado de hoje —, podendo atuar como médica sanitarista. Também foi professora da Faculdade de Medicina da Ufal.
Após o golpe militar de 1964, Selma passou a atuar numa corrente política, na clandestinidade. O professor Dantas lembra que “ela foi perseguida de maneira voraz, apenas por suas convicções políticas, pela ditadura militar, numa caçada sem descanso pelo mais imundo lixo que uma mãe foi capaz de parir: o delegado Fleury”.
Dantas lembra ainda que quando Selma caiu — linguagem da época —, ela colecionava várias carteiras de identidade, com nomes variados como Helena, Maria, Beatriz e tantos outros. Além de ter que mudar de endereço e local de trabalho, onde morou e trabalhou como médica, no Nordeste e em São Paulo.
“Havia um cinturão de solidariedade de muita gente de coragem que usava de todos os meios para proteger os perseguidos pela ditadura. Entre esses, Ede Fon acolheu por muito tempo Selma em sua morada no Rio de Janeiro”, relatou o professor Dantas.
MILITARES DEMORARAM PARA PRENDÊ-LA; SEUS IRMÃOS TAMBÉM FORAM TORTURADOS
Segundo Luiz Dantas, os militares e os paramilitares, com todos os seus aparatos, alcaguetas e “xis-noves”, demoraram vários anos para prender aquela mulher pequena (1,62 metro de altura), de cabelos pretos, magra, que mostrava um sorriso capaz de abrir o coração de quem estivesse à sua frente, fosse quem fosse”, destacou.
Dantas lembrou ainda que os irmãos de Selma – Lauro, Maria das Graças, e seu cunhado Valmir – foram igualmente torturados de forma implacável pela ditadura militar, para que revelassem o paradeiro de Selma. Resistiram bravamente e nada disseram.
“Entretanto, num vacilo de um companheiro, Selma acabou presa, torturada e encaminhada para o Presídio Feminino Bom Pastor, de onde saiu graças à Lei da Anistia, que libertou comunistas, socialistas, crentes na democracia e na pluralidade, como também libertários das mais variadas matizes do pensamento. Nenhum golpista”.
O professor ressaltou ainda a trajetória política de Selma. “Assim que retornou a Alagoas, foi acolhida por um grande democrata: Guilherme Palmeira, governador, e seu fiel escudeiro, José Bernardes, secretário da Saúde, que ofereceram trabalho, salário e dignidade para ela e para tantos outros companheiros como ela”.
Selma filiou-se ao MDB, depois PMDB, e hoje MDB, que naquele tempo acolheu a esquerda de todas as cores, como os militantes do MR-8, PCB, PCdoB, PCR (partido onde atuava na clandestinidade), entre outros, até que esses partidos ganhassem cara própria.

Foi eleita deputada estadual gastando, em valores corrigidos, aproximadamente R$ 15.000,00, dinheiro que não paga, hoje, quarenta bandeiras tremulando na orla marítima de Maceió.
Assumiu a cadeira de deputada estadual e dedicou-se a construir um mandato popular e combativo, comprando brigas em várias frentes. Uma delas contra a famigerada “Gangue Sádica”, formada por rapazes e homens de famílias ricas que tinham o hábito de seviciar e torturar mulheres jovens, na sua grande maioria trabalhadoras em casas de família, abusadas em áreas abandonadas da orla marítima.
Nascida em Delmiro Gouveia, filha de um mecânico da Companhia Hidroelétrica do São Francisco (Chesf), seu Lauro, e de dona Alexandrina, recentemente falecida aos 107 anos, Selma morou no Farol, numa casa vizinha às caixas-d’água que hoje pertencem ao Clube de Engenharia de Alagoas. Em seguida, mudaram-se para o Stella Maris, à época um grande areião que mais tarde se transformaria no belo Corredor Vera Arruda.
Lauro Bandeira, que levou à frente a candidatura de Selma quando a irmã faleceu, a luta dela apresenta uma história pessoal rica, inspiradora e perseverante que reflete todos os desafios de uma mulher à frente do seu tempo, vivendo num Brasil mergulhado no mais sangrento e nefasto período da vida nacional: o estado de exceção com os milicos no poder, perseguindo e matando seus irmãos brasileiros.
Lauro recorda que a militância de Selma teve início ainda no movimento estudantil secundarista de Maceió, e se aprofundou como estudante de Medicina da Ufal.
AOS 22 ANOS, FOI À FUNDAÇÃO DO PCR EM RECIFE
“Em maio de 1966, aos 22 anos, Sela Bandeira participou em Recife da fundação do Partido Comunista Revolucionário (PCR), ao lado de Amaro Luiz de Carvalho, Manoel Lisboa de Moura, Valmir Costa e Ricardo Zarattini — assumindo, desde então, um compromisso convicto com a causa da justiça social e do socialismo”, lembra Lauro Bandeira.
“Por sua atuação no PCR, Selma foi perseguida pela repressão política em diversos estados do Nordeste, teve familiares presos e torturados, e foi ela própria presa em 1978, permanecendo detida no Presídio Feminino Bom Pastor, em Pernambuco”, acrescentou. “Com a Lei da Anistia, Selma foi uma das primeiras presas políticas a ser beneficiada. De volta a Maceió, redirecionou sua luta para as vias institucionais, elegendo-se deputada estadual em 1982 e, no ano de sua morte, concorrendo a uma vaga de deputada federal constituinte — sempre movida pela mesma sede de justiça social, democracia e saúde pública que marcou toda a sua trajetória”.
FAMÍLIA
Selma foi companheira de Manoel Lisboa –ícone da luta contra o regime militar, fundador do PCR, assassinado covardemente durante a ditadura. Ela teve outros envolvimentos até encontrar um amor fulminante, Luiz Dantas, durante uma reunião política, em São Paulo, onde ele foi designado, pelo então candidato a governador Franco Montoro, para ajudar no que pudesse seu amigo querido José Costa, então candidato a governador de Alagoas, pelo então PMDB.
Dantas recorda que no encontro dele com Selma. havia outros militantes e candidatos, “tempos românticos de uma política de convicções e de ideais, que há bastante tempo desapareceram”.
Após a reunião, Selma confidenciou a uma amiga que aquele galego grande mexeu fundo com ela e entendeu que foi correspondida prontamente: Luiz não tirava o olho dela e ela não tirava o olho dele.
Casaram-se em 1983 e ela passou a assinar Selma Bandeira Mendes Dantas Vale, mas dizia que, na verdade, tinha se casado em outubro de 1982, num jantar romântico no restaurante Bem (extinto), com lua cheia e o balanço das ondas como trilha sonora.
Sem filhos, o casal iniciou um processo para adoção que acabou não acontecendo em razão da sua morte. Quarenta anos depois, lembrar de Selma sempre deixa o professor Dantas emocionado. Afinal, ele trava quando é levado a falar ou escrever sobre Selma – uma Bandeira de Luta por Alagoas.
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