Política

“O sofrimento humano não pode virar curral eleitoral”, diz Fernando CPI

Jornalista afirma que políticos devem ser cobrados pelo que fizeram durante os mandatos e defende troca da cultura do favor pela cultura do direito

Por Tribuna Hoje 01/09/2026 13h05
“O sofrimento humano não pode virar curral eleitoral”, diz Fernando CPI
Artigo de jornalista critica uso da pobreza como estratégia eleitoral em Alagoas - Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil


A exploração da pobreza para conquistar votos é uma das práticas mais graves da política alagoana, na avaliação do jornalista Fernando CPI. Às vésperas das eleições de 2026, ele critica o que considera uma estratégia de transformar necessidades da população em instrumento eleitoral e defende que o eleitor avalie o histórico dos candidatos antes de decidir o voto.

Segundo Fernando, a aproximação de políticos com comunidades vulneráveis durante períodos eleitorais precisa ser observada com atenção. Ele cita trabalhadores rurais, desempregados, mães, pessoas com deficiência, idosos e cidadãos que dependem de serviços públicos como grupos que podem ser alvo desse tipo de prática.

“O sofrimento humano não pode ser transformado em curral eleitoral”, afirmou.


“Dinheiro público não é favor”


Para o jornalista, um dos principais problemas está na tentativa de apresentar políticas públicas como benefícios pessoais concedidos por políticos.

“Fome não é cabo eleitoral. Miséria não é estratégia de campanha. Necessidade não é moeda política. Assistência social não é propriedade de político. Dinheiro público não é favor. E voto não tem dono”, pontuou.

Fernando ressaltou que obras, medicamentos, escolas, ambulâncias e programas de assistência social são financiados com recursos públicos e, portanto, não deveriam ser utilizados como demonstração de gratidão pessoal a governantes.

“O medicamento distribuído pelo Estado não é presente de candidato. A escola pública não é favor. A ambulância não é favor. O asfalto não é favor”, disse.

Conforme o jornalista, a tentativa de criar uma relação de dívida entre o cidadão e o agente público representa uma distorção da cidadania.

“Político não é proprietário do Estado. Político é temporariamente servidor dele. O mandato pertence ao povo”, afirmou.


Eleitor deve olhar o histórico


Fernando também criticou candidatos que, segundo ele, reaparecem em períodos eleitorais com novas promessas, deixando em segundo plano o desempenho de mandatos anteriores.

Para ele, o eleitor não deve analisar apenas discursos de campanha, mas comparar promessas, ações e resultados.

“Não escute apenas o que o candidato promete. Investigue o que ele fez quando teve poder”, recomendou.

O jornalista acrescentou que é fácil fazer promessas, participar de eventos e produzir vídeos durante uma campanha, mas que a atuação após a eleição seria um indicador mais importante sobre o compromisso de um político com a população.

“A verdadeira personalidade política aparece depois que as urnas são fechadas”, afirmou.


Crítica ao coronelismo



Outro ponto abordado por Fernando é a utilização de favores pessoais para criar dependência política. Segundo ele, essa prática mantém uma lógica semelhante à do antigo coronelismo, ainda que atualmente possa ocorrer por meio de redes sociais, marketing e outras ferramentas de comunicação.

“O velho coronelismo não precisa mais necessariamente andar de chapéu. Pode vestir terno, usar redes sociais e contratar marketing sofisticado. Mas continua sendo coronelismo quando a lógica permanece: ‘Eu lhe ajudo e você me deve o voto’”, disse.

Fernando defendeu que serviços públicos sejam tratados como direitos, e não como favores obtidos por meio de relações pessoais com políticos.

“O cidadão verdadeiramente livre não deveria precisar procurar padrinho político para conseguir atendimento público. Não deveria precisar pedir favor para marcar consulta. Não deveria precisar implorar por medicamento”, salientou.


“O voto é instrumento de soberania”



O jornalista também atribuiu ao eleitor responsabilidade pela manutenção de práticas de troca de favores por votos. Segundo ele, embora quem explore a vulnerabilidade da população possa ter responsabilidade moral e eventualmente responder por ilegalidades, o cidadão também precisa reconhecer a força do voto.

“Não existe político comprador de voto sem alguém disposto a negociar o voto”, ponderou.

Fernando afirmou que uma escolha feita na urna pode produzir consequências por anos e defendeu que o eleitor considere os impactos das decisões políticas sobre áreas como saúde, educação, segurança e desenvolvimento.

Para ele, a saída passa pela substituição da cultura do favor pela cultura do direito.

“Precisamos substituir a cultura do favor pela cultura do direito. Substituir o medo pela consciência. Substituir o curral eleitoral pela cidadania”, afirmou.

Fiscalização de todos


Fernando também defendeu que o eleitor não entregue um “cheque em branco” a nenhum grupo político.

“A democracia exige fiscalização de todos”, pontuou.

Segundo ele, a avaliação dos candidatos deve considerar histórico, mandatos, propostas, alianças, patrimônio e trajetória, sempre dentro dos limites da legislação e com base em informações verificáveis.

“Olhe a história. Examine os mandatos. Compare discurso e comportamento. Questione patrimônio e trajetória dentro dos limites da lei e dos fatos verificáveis. Observe alianças. Procure propostas concretas. Exija transparência”, disse.

“Alagoas pertence ao seu povo”


Ao concluir o artigo, Fernando afirmou que o Estado não pertence a famílias políticas, partidos, grupos econômicos ou ocupantes de cargos públicos.

“Alagoas não pertence a famílias políticas. Não pertence a grupos econômicos. Não pertence a partidos. Não pertence a governadores, deputados, senadores ou prefeitos. Alagoas pertence ao seu povo”, declarou.

O jornalista defendeu ainda que a principal mudança política não depende de violência ou perseguição, mas de consciência e participação do eleitor.

“Porque o maior inimigo da política corrupta não é outro político. É um eleitor que pensa”, afirmou.

Para Fernando, a população precisa chegar às urnas consciente de que nenhum candidato é dono dos votos.

“Alagoas precisa de representantes, não de donos. Precisa de propostas, não de compra de consciência. Precisa de cidadãos, não de currais eleitorais”, concluiu.