Política
Jornalista questiona seletividade da imprensa na cobertura do dinheiro público em Alagoas
Fernando CPI defende em artigo investigação sobre Iprev, saúde e contratos públicos e cobra “imparcialidade” às vésperas das eleições
Às vésperas de uma eleição, o jornalista Antonio Fernando da Silva, conhecido como Fernando CPI, publicou um artigo em que questiona o que considera uma seletividade da imprensa na escolha dos assuntos relacionados ao uso do dinheiro público em Alagoas. Para ele, investigações devem alcançar governos, prefeituras, situação, oposição e grupos políticos sem distinção.
Ao comentar o caso do Instituto de Previdência dos Servidores Públicos de Maceió (Iprev) e os investimentos relacionados ao Banco Master, Fernando ressaltou que a apuração é necessária e deve ser conduzida com rigor. Segundo ele, há investigação da Polícia Federal e da Controladoria-Geral da União envolvendo R$ 97 milhões aplicados em letras financeiras do banco, com questionamentos sobre credenciamento, análise de risco, governança e tomada de decisão.
O jornalista, porém, ponderou que a cobertura não deveria se limitar a esse episódio.

Jornalismo sério não pode parar aí”
“Enquanto a sociedade acompanha diariamente um determinado episódio, quem está olhando para a saúde pública estadual?”, questionou Fernando.
Ele defendeu que contratos, pagamentos, fornecedores, terceirizações, restos a pagar, compras, serviços hospitalares, medicamentos, filas, obras, equipamentos e a execução orçamentária da Secretaria de Estado da Saúde também sejam alvo de apuração jornalística.
Conforme o jornalista, a própria Secretaria de Estado da Saúde disponibiliza documentos financeiros e orçamentários que permitem acompanhar a execução dos recursos públicos. Fernando salientou, entretanto, que eventuais suspeitas precisam ser comprovadas por documentos.
“Não se deve afirmar que existe um ‘rombo’ na Secretaria de Saúde sem demonstrar documentalmente qual é o valor, de onde veio, quem foi responsável e qual órgão de controle identificou eventual irregularidade”, ponderou.
Crítica à seletividade
Fernando considerou que o problema surge quando determinados assuntos recebem ampla exposição enquanto outros, igualmente relacionados ao dinheiro público, ficam fora do debate.

Isso tem nome: seletividade da pauta”, pontuou.
O jornalista salientou que a crítica não significa afirmar que todos os profissionais ou veículos de comunicação tenham interesses políticos ou econômicos. Segundo ele, há jornalistas independentes e comprometidos com a sociedade, mas também é legítimo questionar possíveis influências de audiência, publicidade, relações políticas e contratos comerciais na definição das pautas.
Para Fernando, a imprensa precisa manter o mesmo rigor diante de diferentes grupos.

Imprensa independente não escolhe o corrupto de estimação. Não escolhe o governo de estimação. Não escolhe a oposição de estimação. Escolhe a verdade como compromisso”, disse.
“O dinheiro público não tem partido”
O jornalista defendeu que suspeitas envolvendo diferentes áreas da administração sejam investigadas com o mesmo critério.
“Se existe suspeita no Iprev, investigue. Se existe suspeita na saúde, investigue. Se existe problema na educação, investigue. Se existem contratos públicos milionários, investigue”, afirmou.
Fernando acrescentou que o dinheiro arrecadado por meio dos impostos pertence à sociedade e não a grupos políticos ou empresariais.

O dinheiro público não tem partido”, destacou.
Imprensa e eleição
Para o jornalista, a responsabilidade da imprensa aumenta durante um período eleitoral, já que a escolha das pautas pode influenciar a percepção dos eleitores.
Ele comparou a diferença entre jornalismo e propaganda. Conforme Fernando, enquanto a propaganda busca convencer e trabalhar com narrativas, o jornalismo deveria apresentar fatos, documentos e evidências para que o cidadão forme a própria opinião.
“Propaganda procura convencer. Jornalismo deveria permitir que o cidadão forme sua própria opinião”, afirmou.
Fernando defendeu ainda que o papel da imprensa é investigar aquilo que não está necessariamente no centro do debate público.
“Talvez a maior obrigação do jornalismo não seja revelar aquilo que todo mundo já está comentando. Talvez seja revelar aquilo que ninguém quer que seja comentado”, disse.
A pergunta que fica
Ao concluir o artigo, Fernando questiona quais assuntos estão sendo deixados fora das manchetes e por qual motivo.
Para ele, a cobertura jornalística deveria acompanhar não apenas os casos que ganham repercussão, mas também contratos, licitações, despesas, fornecedores, restos a pagar e a atuação dos órgãos de controle.
“Em 2026, a pergunta não deve ser apenas ‘qual escândalo está sendo manchete?’. A pergunta mais importante é: ‘O que está sendo deixado fora da manchete — e por quê?’”, concluiu.
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