Política

1 de agosto de 2020 12:57

Mulheres em busca de maior representatividade

Eleição municipal apresenta um novo ciclo para que as mulheres tentem conquistar mandatos no Executivo e Legislativo

↑ Kátia Born exige respeito à luta das mulheres nas eleições (Foto: Sandro Lima/Arquivo)

A cada eleição as mulheres buscam um protagonismo maior dentro da política, mas ainda esbarram em alguns obstáculos que vão desde a falta de incentivo por parte dos partidos, como também o machismo enraizado na sociedade, que defende que o lugar da mulher é em casa. Fato enganoso, pois o lugar de mulher é onde ela quiser.

Em Alagoas, considerando os principais espaços de debate político, o maior índice de participação feminina é na Câmara de Maceió, com cinco vereadoras dentre 21 parlamentares. Na Assembleia Legislativa do Estado (ALE), o número de parlamentares mulheres é o mesmo do Legislativo Municipal. Ao levar em consideração as prefeituras alagoanas, dos 102 municípios, apenas 22 são administrados por mulheres. Quando se trata do total de vereadoras do estado, o percentual é de 14,96%. Entre 1.076 vereadores, apenas 161 são mulheres, distribuídas em 84 municípios alagoanos. Dezoito câmaras municipais não têm representatividade feminina.

Alagoas tem apenas uma representante – deputada Tereza Nelma (PSDB) – entre os nove que estão na Câmara Federal. As três vagas no Senado são compostas por homens, mas vale ressaltar que dois deles tem uma mulher como suplente. O senador Renan Calheiros (MDB) tem como suplente a vereadora Silvania Barbosa (PRTB). Já o senador Fernando Collor (Pros) tem a ex-prefeita de Santana do Ipanema, Renilde Bulhões (Pros).

Ainda dentro deste contexto, vários movimentos vêm surgindo e ganhando corpo no Brasil pela ampliação das mulheres na política e a reportagem da Tribuna repercute o tema com mulheres que se destacam no cenário político de Alagoas. A deputada federal Tereza Nelma, que também preside o PSDB no estado, por exemplo, anunciou que o partido está com 70% de seu diretório em Maceió com mulheres.

“O que está na lei não é garantir a participação de 30% de mulheres nas eleições e direções partidárias, mas sim de gênero. Invertemos a maioria em Maceió, elegendo um diretório municipal com 70% de mulheres e 30% de homens. Isso representa a abertura de espaços para que mais mulheres participem da política e ocupem cadeiras nos parlamentos e executivos, para tomar decisões de fato”.

Em Maceió, a única prefeita, até o momento, foi Kátia Born. Fora isso, apenas Lourdinha Lyra, que chegou ao posto de ser vice de Cícero Almeida, mas em oito anos de gestão, não sentiu o gostinho de sentar na cadeira de chefe do Executivo.

À Tribuna, Kátia Born cita essa situação da Lourdinha como um dos pontos que demonstra a falta de respeito com o gênero feminino e destaca que a questão não é que se vota pouquíssimo em mulher, mas que as mulheres têm uma maneira diferente de fazer política.

“As mulheres querem conquistar o voto. As propostas das mulheres são mais sociais. A grande maioria não se mete em negociatas. Então, é diferente uma candidata mulher. Muitas vezes nós temos mulheres que são ícones e elas quando chegam na política não são votadas.  A política é algo meio profissional. Se você não se envolve, se você não se espalha na cidade, em todos os segmentos, você percebe que com aquele trabalho você não se elege. Fora isso, a maioria são donas de casa. Ou seja, o tempo que ela se dedica a política é bem menor que o tempo que os homens se dedicam”, contextualiza a ex-prefeita da capital.

Kátia lembra da Lei das Cotas e do financiamento, mas ressalta que ainda é pouco. Ela destaca ainda o fato da mulher ter que combater o machismo, o racismo e o sexismo dentro da política.

“Essa discriminação nós temos que combater, pois a gente vê ministro se referindo às mulheres como turismo sexual. A mulher é vista ainda por um lado sexista e a mulher negra pelo lado sexista e pelo lado do menosprezo. É preciso que a gente tenha campanhas permanentes no país para que a gente mostre que a mulher é importante na política. Na eleição passada, o partido do presidente da República [O PSL. Jair Bolsonaro está sem partido atualmente] usou mulheres como laranjas para eleger os homens. Isso não pode acontecer”, defendeu a ex-prefeita de Maceió.

Necessidade de ir além dos mandatos eletivos

Após 14 anos, a Associação dos Municípios Alagoanos (AMA) voltou a ter uma mulher na presidência, a segunda em 39 anos de história da entidade. A presidente Pauline Pereira (PP) destaca que, cada vez mais, é importante ter mulheres na política.

“Nós estamos há muito tempo lutando por uma igualdade e respeito. Chegou a hora de a mulher estar em lugares de destaque na política e na gestão pública para podermos mostrar que somos competentes para liderar”, afirmou.

Em seu segundo mandato como deputada estadual, sendo a mais votada do estado na última eleição de 2018, Jó Pereira (MDB) vem assumindo um papel de destaque na Assembleia Legislativa. Ela entende que é preciso uma mudança cultural verdadeira e profunda para possibilitar o pleno exercício do poder das mulheres, e essa mudança cultural, segundo a parlamentar só vai acontecer com a mulher assumindo espaços de liderança, sendo protagonista e espelho.

“Foram criadas algumas alternativas, entre elas as cotas, para que a participação da mulher na política avançasse, mas infelizmente não temos avançado porque mesmo participando da política, não nos permitem exercer espaços de liderança, pois simplesmente não nos enxergam exercendo esses cargos”, enfatiza a deputada.

“Quantas mulheres nós temos líderes dos seus partidos, das suas bancadas? Quantas mulheres são presidentes de partido, quantas mulheres são presidentes das comissões? Por exemplo, na Assembleia Legislativa, eu sou presidente da Comissão da Mulher, mas das comissões mais representativas nenhuma tem uma mulher presidente. No Congresso Nacional a situação se repete, embora recentemente tivemos uma conquista, com a senadora Simone Tebet [MDB-MS] na presidência da Comissão de Constituição e Justiça”.

Jó avalia que o exercício dessa liderança precisa acontecer para que a mulher seja espelho e passe a fazer parte do imaginário popular de todos, homens e mulheres, enxergando as mulheres e suas contribuições. A parlamentar acredita que quando as mulheres assumem o Executivo, ações inovadoras acontecem. Pereira destaca o exemplo da primeira-ministra da Nova Zelândia, que no combate a pandemia da Covid-19, se sobressaiu com relação a outros líderes mundiais.

Paridade nos partidos também é luta que precisa ser encampada

Em primeiro mandato na Assembleia Legislativa e com um currículo que apresenta destaque em trabalhos sociais voltados para as mulheres, a deputada Fátima Canuto (PRTB) enxerga que a representatividade feminina ainda é baixa no Brasil quando se fala em política.

“As coisas acontecem com uma luta diária das mulheres, assim como foi a luta para ter o direito ao voto. A OAB [Ordem dos Advogados do Brasil] lançou um movimento chamado ‘Paridade Já’, no qual 50% da diretoria deve ser composta por mulheres. O ideal é que cheguemos ao momento em que a própria sociedade entenda a importância da participação da mulher na política e  comece a votar mais nessas mulheres. Vejo que hoje em dia, as pessoas estão olhando as mulheres de maneira diferente e apostando mais nelas”.

Ela diz ainda esperar que, em breve, as mulheres consigam alcançar todas as conquistas pela competência e não apenas por causa das cotas.

CÂMARA

Em seu terceiro mandato como vereadora em Maceió, Silvania Barbosa, que ainda é suplente do senador Renan Calheiros, traz em sua bagagem política passagens pela Mesa Diretora da Câmara de Vereadores. Por diversas ocasiões chegou até a assumir a presidência do Poder Legislativo e atualmente ocupa a cadeira de segunda secretária.

Para ela, o modelo da sociedade é patriarcal e racista, portanto habituou-se ter homens brancos ocupando cargos de poder. O mesmo exemplo, segundo a vereadora, está aplicado na política.

“Diz-se que a revolução feminina é a mais longa da história e que ainda passamos por ela. Sem dúvida, ao longo dos anos conquistamos maior representatividade na política e nos demais setores, porém muito distante da ideal. Para crescermos em representatividade é preciso que quem detenha o poder – homens ou mulheres – defendam a abertura de novos espaços para o nosso gênero”, considera

Fonte: Carlos Victor Costa / Tribuna Independente

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