Política

30 de maio de 2020 08:02

Covid-19 causa cancelamento de festejos juninos em Alagoas

Historiador comenta que somente a pandemia do novo coronavírus é a responsável em adiar a tradição dos últimos 50 anos

↑ Clayton Rosas ressalta que houve momentos em que o cenário econômico era desfavorável, mas a tradição foi mantida (Foto: Edilson Omena / Arquivo)

As festas juninas deste ano em Alagoas – e restante do Nordeste – terão os seus tradicionais palhoções desarmados – ou, sequer –, montados para cederem espaço às recomendações de isolamento social por causa da pandemia do novo coronavírus. Especialistas em saúde pública vêm expressando, nacionalmente, que pico da Covid-19 seja exatamente no mês de junho, na região nordestina.

Em Alagoas, a Associação dos Municípios Alagoanos (AMA), entidade que representa as gestões municipais no estado, acredita que as festas juninas deste ano não devem ser realizadas, conforme preconiza o decreto estadual que, entre diversas determinações, proíbe a realização de eventos públicos e privados.

Sem a festa que melhor expressa as tradições nordestinas, um fato histórico surge, conforme relato do historiador Clayton Rosas. Ao tratar do assunto com a reportagem da Tribuna Independente, Rosas menciona uma pesquisa que fez e não encontrou, nos últimos 50 anos, registros de cancelamento dos festejos juninos em Alagoas.

“Nas pesquisas realizadas não encontrei registros de cancelamento das festas juninas nos últimos 50 anos. Encontramos que em alguns anos pode ter havido uma diminuição dos investimentos do poder público na estruturação da mesma como foi o caso do ano de 2016 em que a Prefeitura de Maceió apenas fez os concursos de quadrilha e não deu apoio aos arraiais nos bairros, e no ano seguinte não fez a festa junina o que levou aos forrozeiros irem ao Palácio dos Martírios solicitar o apoio do Governo do Estado para realização do evento, sendo atendidos no pleito”, contextualiza o historiador.

Clayton Rosas avalia que este ano o cancelamento total das festividades juninas devido ao novo coronavírus haverá consequências em praticamente todos os segmentos da sociedade, desde o ambulante que tem nessas festas populares uma forma de ganhar algum dinheiro com o objetivo de sua manutenção, passando pelos forrozeiros que nesse período devido à imensa procura para shows e festas tem uma maior valorização da sua arte e consequentemente um aumento dos seus ganhos.

“O que ocasiona que a maioria dos forrozeiros investe na compra de uma sanfona melhor, de melhor equipar seu trio, pagar débitos que acumulam no decorrer do ano e fazer um caixa para garantir minimamente sua subsistência durante o resto do ano. Na minha opinião, esses estão sendo os mais atingidos com o cancelamento, estou falando aqui dos forrozeiros dos trios de forró Pé de Serra que em sua maioria são pessoas simples que vivem e dependem dessa festa para poder sobreviver”.

Apesar do prejuízo cultural, combate à pandemia é prioridade

A Associação dos Municípios Alagoanos (AMA) faz um destaque importante sobre os cuidados que a população precisa ter durante o período junino, já que a Covid-19, doença causada pelo novo coronavírus impacta diretamente no sistema respiratório de quem é infectado.

“Acender fogueiras em um momento como este não é prudente, pois devemos nos preocupar com a poluição que essas fogueiras podem causar ao meio ambiente, além dos prejuízos ao sistema respiratório da população. Devemos lembrar que um dos principais sintomas da Covid-19 está relacionado a problemas respiratórios”, informou à AMA em contato com a reportagem da Tribuna Independente.

A AMA destacou ainda o decreto estabelecido pela Prefeitura de Maceió, no qual proibiu a venda de fogos de artifício e acender fogueiras em espaços públicos e privados da capital. A medida tende a se estender para todo o estado, caso o governo estadual venha a incluir essa determinação em um futuro decreto.

“Em Maceió, o decreto leva em consideração um ponto muito importante para o combate ao novo coronavírus durante as festas juninas, que é a superlotação dos hospitais públicos e privados. Proibindo que as pessoas acendam fogueiras, o município visa evitar acidentes causados por fogo ou por complicações respiratórias devido à fumaça”, reforça a entidade que representa os gestores das prefeituras alagoanas.

A Associação avalia ainda que os prefeitos e prefeitas não podem pensar em festa em um momento tão crítico quanto a pandemia da Covid-19, tendo as atenções estão voltadas para garantir recursos, estrutura, insumos e condições de luta para combater o vírus. “Infelizmente, a população e as cidades vão amargar mais esse prejuízo”, complementa.

Sem condições de realizar os festejos em decorrência da pandemia, em um passado não tão distante, os municípios alagoanos que têm tradições mais fortes na organização das festas juninas já teriam anunciado, ainda em maio, as suas atrações musicais, editais, portarias e incentivos ao fortalecimento do setor cultural.

Municípios perdem incentivo às tradições

Atrações juninas, como trios de forró, eram contratados para diversas festas e eventos durante o período (Foto: Edilson Omena / Arquivo)

O historiador Clayton Rosas acredita que o setor do turismo e o poder público também deixarão de arrecadar nesse período em que há uma dinamização da economia com os diversos segmentos que contribuem no incremento da economia local.

Neste contexto, tanto a secretaria de Estado da Cultura (Secult) quanto a Fundação Municipal de Ação Cultural de Maceió (FMAC) ressaltam que sempre incentivaram a preservação e manutenção das manifestações da cultura popular, por meio de uma série de ações implantadas, a exemplo das políticas de editais visando democratizar o acesso aos recursos públicos.

A Secult lembra que nos últimos anos houve investimentos de mais de R$ 1 milhão para incentivos de diversas ações que tradicionalmente estão às vistas do público no período junino.

“Inicialmente, foi lançando o chamamento público Anavantú, prêmio Clemilda Rainha do Forró e edital Bumba-Meu-Coco, com recursos de R$ 630 mil voltados para Quadrilhas Juninas, Coco de Roda e demais grupos relativos aos festejos juninos. Também foi realizado o São João de Alagoas, no ano do bicentenário de Emancipação Política de Alagoas, em um investimento de R$ 1,2 milhão para o período em todo Estado, e o Arraiá da Cultura, em 2019”.

A Secult lembra ainda que no planejamento 2020, estava previsto o lançamento de mais uma edição dos certames Clemilda Rainha do Forró e Bumba-Meu-Coco, Festival de Coco de Roda e o São João nas Grotas. Com a pandemia do novo coronavírus, foi preciso reduzir os custos da Secult e suspender as ações do plano anual. Desta forma, a Secult lançou o edital “Festival Dendi Casa Tem Cultura”, com um investimento de R$ 300 mil, contemplando 340 grupos das mais diversas manifestações artísticas-culturais.

“A secretaria ressalta a importância do perfil junino na movimentação da cadeia produtiva da economia criativa de todo Nordeste e trabalha na apresentação de novas propostas para o segmento”.

De iniciativa na Paraíba, que realiza o São João em Campine Grande, denonimado de “Maior São João do Mundo”, o Estado informou que adiou a festa para entre 9 de outubro e 8 de novembro deste ano.

No entanto, esta perspectiva não é considerada como uma hipótese de que possa ocorrer em Alagoas.

Em 2019, Maceió investiu R$ 2 milhões

Em Maceió, os setores que mantém as tradições juninas em evidência já sentiram o impacto de ter as festividades canceladas por conta da pandemia da Covid-19.

Para se ter uma ideia destes prejuízos culturais e econômicos, a Liga de Quadrilhas Juninas de Alagoas (Liqal) anunciou que os concursos Forró & Folia e Etapa do Alagoano de 2020 foram cancelados, devido à pandemia do novo coronavírus. O evento sempre foi referência de público e divulgação nacional das tradições alagoanas no período junino. A medida cumpre o decreto estadual de emergência, que proíbe eventos e shows que provoquem aglomerações.

De acordo com o assessor especial da Fundação Municipal de Ação Cultural (FMAC), Marcos Sampaio, a FMAC sempre incentivou, por meio de editais e apoios, os festejos juninos na capital. E segundo ele, a paralisação das atividades culturais, por conta da pandemia da Covid-19, certamente, causará um impacto econômico grande em toda a cadeia produtiva.

O investimento do último São João, entre editais, contratações de nomes nacionais, estrutura de som, palco, iluminação e serviços como bombeiros civis, saúde, limpeza urbana e trânsito, segundo Marcos Sampaio, foi em torno de R$ 2 milhões.

“O impacto é imenso, pois atinge toda a cadeia produtiva vinculada aos festejos juninos, desde o comércio local, costureiras, figurinos, montagem de arraiais, alimentação, ambulantes, uma série de atividades econômicas, e principalmente músicos e técnicos. Além do aspecto econômico, deixamos de realizar a mais importante e tradicional de nossas festas populares, fundamental para a construção e preservação de nossa identidade cultural”, ressaltou Marcos.

Turismo sente a baixa e o forró tem que ser em casa

A Secretaria Municipal de Turismo, Esporte e Lazer (Semtel) de Maceió explicou que órgão não tem ainda como dimensionar, em números, os impactos econômicos do período junino.

“A informação que temos, segundo a ABIH-AL [Associação Brasileira da Indústria de Hotéis de Alagoas], é que haverá uma perda de R$ 1,5 bilhão no turismo de Alagoas em 2020”.

A secretaria informou ainda que Maceió tem mais de 90% dos hotéis fechados e que dos 26 voos diários, estão com apenas dois sendo realizados, e as atividades turísticas seguem paralisadas.

FORRÓ EM CASA

O historiador Clayton Rosas, reforça, que além dos prejuízos econômicos e turísticos, o sentimento de não poder sair às ruas para curtir as tradições juninas é de tristeza, mas, este ano, ainda resta uma opção.

“Por último quem também sofrerá as consequências será a população que deixará de curtir uma festa que é tradicional e terá como opção apenas dançar um bom forró com sua companheira ou companheiro dentro de casa”, finaliza.

 

Fonte: Tribuna Independente / Texto: Carlos Victor Costa

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