Entretenimento
Filmes e séries em que a Netflix tentou humanizar um criminoso
Afinal, entender é o mesmo que perdoar?
Existe um truque que a Netflix domina como ninguém: pegar alguém que fez coisas horríveis e, aos poucos, te fazer entender esse alguém. Às vezes até torcer.
Juntamos algumas produções em que a Netflix apostou na humanização do vilão, algumas com elegância, outras beirando o exploração pura. Você decide onde cada uma cai.
Dahmer
O que abriu a caixa de Pandora. A série de Ryan Murphy transformou o canibal de Milwaukee em fenômeno absoluto: mais de um bilhão de horas assistidas em menos de dois meses.
Evan Peters faz um Dahmer quieto, patético, quase frágil, e é aí que mora o incômodo. Ao passar tanto tempo dentro do apartamento sujo dele, a série Dahmer correu o risco de fazer o público sentir algo perigosamente parecido com empatia.
Murphy jurou que a regra era nunca contar a história pelo ponto de vista do assassino. Famílias das vítimas discordaram em alto e bom som, acusando a produção de reviver a dor delas para gerar audiência.
Monstros: Irmãos Menendez: Assassinos dos Pais
Monstros: Irmãos Menendez: Assassinos dos Pais é ainda mais escorregadia, porque o caso já é ambíguo por natureza. Os irmãos foram condenados por matar os próprios pais, mas sempre sustentaram que agiram depois de anos de abuso. A série brinca com essa dúvida o tempo inteiro e joga a pergunta na cara de quem assiste: quem são os verdadeiros monstros aqui?
Cooper Koch entrega um Erik vulnerável, de partir o coração, e a produção sabe disso. O resultado divide: para uns, dá voz a vítimas silenciadas; para outros, é manipulação emocional para transformar parricídio em melodrama.
Monstro: A História de Ed Gein
Ed Gein, o “açougueiro de Plainfield” que inspirou Norman Bates, Leatherface e o Buffalo Bill de O Silêncio dos Inocentes, ganha o rosto de Charlie Hunnam, um galã de Sons of Anarchy. A própria produção de Monstro: A História de Ed Gein descreveu o projeto como uma exploração “humana e terna” de quem Gein foi, colocando o homem no centro, e não os crimes.
“Terno” para descrever um profanador de túmulos que fazia objetos com restos humanos já diz muito sobre a aposta. É o retrato do psicótico como criatura solitária e digna de pena, moldada pela mãe e pelo isolamento.
Griselda
Sofía Vergara some por completo para virar Griselda Blanco, a “madrinha da cocaína” que comandou o tráfico em Miami. A minissérie Griselda a constrói como uma mãe guerreira num mundo de homens, uma imigrante que subiu na base da ousadia.
Você acompanha a ascensão dela quase como uma torcida, e esquece, por longos trechos, a montanha de corpos no caminho. É a velha estrutura do anti-herói aplicada a uma das criminosas mais brutais da história recente. Carisma vendendo crueldade.
Narcos
Wagner Moura como Pablo Escobar. Narcos transformou o maior traficante do mundo num personagem quase shakespeariano: homem de família, líder popular em Medellín, sujeito de convicções. A gente ri, se emociona e, sem querer, se apega. O narcotraficante como protagonista magnético é um modelo que Narcos ajudou a consolidar no streaming.
A crítica de sempre veio junto: ao dar profundidade e humanidade a Escobar, a série corre o risco de romantizar a figura para uma geração inteira de espectadores.
Elize Matsunaga: Era Uma Vez um Crime
A versão brasileira da fórmula. O documentário Elize Matsunaga: Era Uma Vez um Crime, dividido em quatro partes, tem um trunfo raro: a primeira e única entrevista de Elize, condenada por matar e esquartejar o marido, Marcos Matsunaga.
Com ela cozinhando, chorando, reencontrando a família, o retrato tira a “áurea de monstro” que a imprensa colou nela por anos, sem nunca dizer que ela é inocente, mas desmontando a ideia da assassina de sangue frio.
Inventando Anna
Nem todo criminoso da lista mata, alguns só roubam alto. Anna Sorokin, a golpista que se passou por herdeira alemã e enganou a elite de Nova York, ganha em Julia Garner uma vilã irresistível: esperta, engraçada, quase admirável na cara de pau.
Inventando Anna chega a te fazer querer que ela se dê bem, mesmo sabendo que o dinheiro roubado tem donos reais e prejudicados. É a humanização em outra chave: aqui o crime é vendido como ambição charmosa, e a fronteira entre golpe e “empreendedorismo” some de propósito.
Elize: Sombras de Uma Mulher
Cinco anos depois do documentário, a mesma produtora volta ao caso, agora pela porta da ficção. Com Lorena Comparato na pele de Elize e Henrique Kimura como Marcos, Elize: Sombras de Uma Mulher é um suspense psicológico que abandona os depoimentos e imagina as cenas privadas do casal que nenhuma investigação registrou. A câmera vai para o lugar mais perigoso possível: dentro da cabeça dela.
Assinado por Raphael Montes, o filme se defende dizendo que quer discutir violência doméstica e abuso dentro do casamento. Mas ao dramatizar a tensão que antecede o crime pelo ponto de vista da autora, ele caminha exatamente na corda bamba desta lista: quando o contexto vira quase justificativa.
CONFIRA A MATÉRIA ORIGINAL NO ENDEREÇO https://observatoriodocinema.c...
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