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O que significa Bugonia? Título do filme com Emma Stone é explicado

Título remete a um antigo ritual e reforça a crítica de Yorgos Lanthimos à ilusão de soluções fáceis.

Por Diego Almeida com Observatório do cinema 28/11/2025 17h33 - Atualizado em 28/11/2025 17h49
O que significa Bugonia? Título do filme com Emma Stone é explicado
O que significa Bugonia? Título do filme é explicado - Foto: Reprodução

ATENÇÃO: Esta matéria contém spoilers do final do filme!

Bugonia, novo filme de Yorgos Lanthimos, apresenta uma trama marcada por paranoia, violência e ambiguidades morais. A história segue Teddy (Jesse Plemons) e seu primo Don (Aidan Delbis), que sequestram Michelle Fuller (Emma Stone), poderosa CEO de uma farmacêutica.

Convencido de que ela é uma alienígena infiltrada para destruir a humanidade, Teddy mergulha em uma espiral conspiratória que estrutura toda a narrativa. Embora o filme esclareça a maioria das dúvidas sobre esses personagens, ele deixa sem resposta direta um elemento essencial: o que, afinal, significa o título?

A origem da palavra “bugonia”

A palavra “bugonia”, derivada do grego antigo e traduzida como “nascimento do boi”, descreve um ritual presente em textos clássicos, como o poema Geórgicas, de Virgílio. Esse rito envolvia sacrificar uma vaca para que abelhas supostamente surgissem espontaneamente de seu corpo – uma forma mística e improvável de renovar uma colmeia. Apesar de seu caráter fantástico, o procedimento aparece em textos agrícolas com um tom prático, como se fosse uma metodologia legítima de apicultura.

Para estudiosos da obra, como Elizabeth Manwell, o bugonia possui natureza paradoxal: apresenta-se como instrução técnica, mas é essencialmente irrealizável. Além disso, por exigir que o animal seja sufocado sem derramamento de sangue, o ritual envolve sofrimento prolongado – algo que carrega simbolismos profundos sobre sacrifício e renascimento. Esses elementos ajudam a entender por que o termo foi atraente para a equipe do filme.

Por que o filme escolheu esse nome

O roteirista Will Tracy explicou, em entrevista, que o título serve tanto por seu significado quanto por sua ambiguidade sonora. “Bugonia” remete a insetos, flores, lugares ou até doenças, gerando estranhamento imediato – uma sensação proposital dentro de um filme que mistura absurdo, crítica social e ficção científica. O desconhecimento do público sobre o significado literal da palavra adiciona força simbólica à história.

Essa escolha se conecta diretamente aos temas do filme, especialmente à obsessão de Teddy com as abelhas e o colapso das colônias. Embora Michelle negue qualquer ligação entre sua empresa e a morte dos insetos, sua revelação como alienígena traz nuances inesperadas à narrativa. Ao descobrir que ela pertence a uma raça que tenta salvar – e depois desistir de – corrigir a humanidade, o espectador é levado a pensar em sacrifícios globais, renascimento e destruição.

Como o final se conecta ao título

O final do filme, no qual Michelle elimina toda a população humana de forma instantânea, é frequentemente interpretado como profundamente pessimista. De certa forma, a extinção da humanidade pode ser vista como uma espécie de bugonia: um sacrifício “sem sangue” por meio do qual a natureza, sobretudo os insetos, teria chance de se regenerar. Nessa leitura, o filme sugere que os humanos perderam seu direito de pertencer ao planeta.

No entanto, essa interpretação está longe de ser definitiva. O ritual clássico, afinal, era uma fantasia agrícola – uma tentativa de encontrar respostas mágicas para problemas reais. Da mesma maneira, Teddy acredita que pode resolver questões ambientais, políticas e emocionais ao derrotar um inimigo externo, seja ele Michelle ou uma suposta conspiração alienígena. O filme, ao confirmar suas suspeitas de formas exageradas, expõe a fragilidade desse pensamento.

Assim, Bugonia não afirma que a humanidade está condenada, mas alerta para o perigo de buscar soluções fáceis para desafios complexos. Lanthimos usa o simbolismo do título para reforçar que, ao entregarmos nossas angústias a teorias conspiratórias, a salvadores improváveis ou à esperança de renascimento milagroso, ignoramos o trabalho duro – e necessário – para enfrentar as crises reais. No fim, o problema não é o sacrifício, mas a fantasia de que ele nos salvará.

Bugonia
está em cartaz nos cinemas.

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