Economia
Senac Alagoas ajuda a transformar tradição centenária da Ilha do Ferro em moda
Qualificação em corte e costura prepara 36 mulheres para criar a 1ª coleção de vestuário da Cooperativa Art-ilha, levando o Bordado Boa Noite a um novo capítulo de sua história
Na Ilha do Ferro, em Pão de Açúcar, existe um saber que atravessou gerações pelas mãos de homens e mulheres: o Bordado Boa Noite. A tradicional arte que carrega mais de um século de história consiste em desfiar o tecido e recompô-lo em faixas, exigindo tempo, precisão e paciência. Durante décadas, foi também uma das principais fontes de renda do Povoado. Agora, esse patrimônio cultural alagoano se prepara para ocupar um lugar diferente: a passarela.
No dia 28 de novembro, as bordadeiras da Cooperativa Art-ilha vão apresentar a primeira coleção de vestuário de sua história. São 20 peças desenvolvidas especialmente para levar o Boa Noite ao universo da moda. E, por trás dessa inovação, existe um processo de qualificação profissional realizado pelo Senac Alagoas, que formou 36 mulheres no curso Básico de Corte e Costura, em uma parceria que une educação profissional, cultura, empreendedorismo e desenvolvimento territorial.
O curso foi ministrado pela instrutora de moda do Senac Alagoas, Larissa Lins, na própria cooperativa, instalada em um cenário que parece ter sido desenhado para contar essa história. De frente para o Rio São Francisco, entre barcos, bordados e o pôr do sol que colore o povoado, as mulheres que aprenderam a bordar com mães, avós e outras familiares desenvolvem, também, a técnica de transformar tecido em roupa.
“Foi muito bom para todas as cooperadas. A gente só trabalhava com cama, mesa e banho e agora vai fazer essa linda coleção. Está sendo muito desafiador, porque a gente sabe fazer o bordado, mas produzir as peças é muito complicado [...] Esse apoio do Senac foi muito importante porque estamos fazendo uma coisa que nunca fizemos antes: a nossa primeira coleção de roupas”, diz a presidente da Cooperativa Art-ilha, Eridan Lessa.
Um novo capítulo para o Boa Noite
O projeto é denominado “Trama de Mulheres Bordando o Boa Noite” e realizado com recursos da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB), do Governo Federal, operacionalizados pela Secretaria de Estado da Cultura e Economia Criativa de Alagoas, reunindo diferentes parceiros em torno da preservação e da renovação desse patrimônio, incluindo o Senac.
A história do Bordado Boa Noite é muito mais antiga que a fama contemporânea da Ilha do Ferro pelo artesanato em madeira. Segundo a produtora cultural e agente territorial de cultura, Patrícia Mendonça, o bordado existe no território há mais de 100 anos, embora não seja possível estabelecer uma data precisa para seu surgimento.
No passado, homens e mulheres bordavam. O trabalho chegou a representar uma das principais fontes de renda da comunidade, com peças comercializadas em cidades como Maceió e Aracaju. Com o passar do tempo, porém, a produção foi perdendo espaço, e é justamente nesse ponto que a qualificação profissional oferecida pelo Senac ganha importância.
“Em 28 anos, elas nunca haviam produzido roupas aqui. As peças que fazem são, normalmente, compradas prontas e recebem o bordado, e isso acontece em pouca quantidade porque existe um custo maior. Não havia um padrão de coleção. Essa é a primeira vez que essas mulheres estão aprendendo corte, costura e modelagem de roupas”, conta Patrícia.
Ao transformar o bordado em elemento de peças de vestuário, a expectativa é alcançar novos mercados, agregar valor ao trabalho das bordadeiras e criar condições para que mais mulheres permaneçam vinculadas à técnica, além de despertar o interesse das novas gerações. “É extremamente importante retomar esse valor econômico, porque culturalmente o Boa Noite já é extremamente forte. A ideia é evitar essa evasão das mulheres bordadeiras e também influenciar as novas gerações, abrindo caminho para que elas se interessem pelo bordado”, afirma a agente territorial.
Da máquina de costura para a passarela
O desafio é ainda maior porque, apesar da experiência com o bordado e com a produção artesanal, as participantes nunca haviam trabalhado com uma máquina de costura para confeccionar uma roupa completa.
Mas o longo de 40 horas de aulas, elas passaram a ter contato com técnicas de corte, costura e modelagem necessárias para transformar as ideias da coleção em peças concretas. A formação conduzida pelo Senac Alagoas prevê uma coleção de 20 peças, que serão apresentadas no desfile de lançamento. As cooperadas também serão responsáveis por vestir as criações e levar o trabalho da comunidade à passarela.
A bordadeira da cooperativa e aposentada da atividade de pescadora, Rejania Souza, conta que a experiência representa uma possibilidade de ampliar aquilo que o Boa Noite já significa para sua vida. “Eu aprendi com minha mãe. Ficava vendo ela bordando e ela me ensinando do lado. O Boa Noite, para mim, significa a sobrevivência da comunidade. Antigamente, a gente trabalhava no tecido de algodão e vendia algumas peças para as pessoas que vinham de Maceió. Era dali que eu tirava o dinheiro para comprar minhas coisas, porque meu pai trabalhava na roça e nem tudo que a gente queria, ele podia comprar. Então, minha mãe me ajudava e eu também conseguia comprar o que queria com o meu dinheiro. Era a sobrevivência de quase toda a comunidade”, conta a aposentada.
Hoje, ela vê na nova formação uma oportunidade de fazer algo que antes parecia distante. “Vai melhorar mais 100% a demanda, porque há muita procura por roupa e não tem muita gente fazendo na comunidade. Agora a gente vai aprender a fazer nossas próprias roupas, coisa que a gente nem sabia fazer numa máquina [...] O curso foi maravilhoso, com nossas companheiras da cooperativa e também com outras mulheres da comunidade que vieram aprender e se incentivar. Quem sabe elas não entram também na cooperativa? Estamos aprendendo, estamos rindo, tirando os pensamentos ruins da cabeça junto com todas as meninas. Isso deixa a gente mais forte, mais alegre e mais satisfeita. E vai ter o desfile: nós vamos arrasar no palco”, comemora.
Uma tradição que quer continuar viva
Muito antes de chegar às passarelas, o Boa Noite já havia chamado a atenção de pesquisadores e instituições dedicadas à preservação da cultura alagoana. Há cerca de três ou quatro décadas, os pesquisadores Celso Brandão e Carmen Lúcia Dantas estiveram na região em busca de peças para pesquisas relacionadas ao Museu Théo Brandão para uma exposição em Roma.
Foi a partir de movimentos como esse que a produção artística da Ilha do Ferro começou a ganhar reconhecimento fora do território. Agora, o desafio é fazer com que esse reconhecimento também se traduza em sustentabilidade para quem mantém a tradição viva.
O Boa Noite precisa continuar sendo bordado. Mas, para isso, precisa também continuar sendo economicamente viável. A aposta na moda surge, então, como uma forma de fazer o passado conversar com o futuro.
A coleção desenvolvida para o final de novembro é apenas o primeiro passo. A intenção da cooperativa é ampliar a quantidade de peças disponíveis para comercialização e dar continuidade ao processo de qualificação, criando estoque e novas possibilidades para que o público que conhecer o trabalho durante o desfile também possa levá-lo para casa.
Enquanto isso, as mulheres seguem aprendendo, cortando, costurando e bordando o Boa Noite para um novo palco. Um novo passo dado por intermédio da qualificação profissional do Senac Alagoas, que ajudou a concretizar esse próximo capítulo.
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