Cidades
ONG Movimento pela Vida era contra a instalação da Salgema em área povoada
Vários setores da sociedade alertavam para riscos que empresa representava

A população era contra instalação da Salgema Indústrias Químicas S/A no Pontal da Barra, em Maceió. Em meados dos anos 1970, quando o governo autorizou o início das obras, diversas reações ocorreram para que a empresa não fosse aberta no local. 10 anos após, em 1985, os protestos voltaram a acontecer após o anúncio da intenção de ampliação da capacidade operacional da empresa e da instalação do Polo Cloroquímico em Marechal Deodoro. Os historiadores Edberto Ticianeli e Geraldo de Majella comentam que na época já se temia os riscos que a empresa poderia trazer para a sociedade e para o meio ambiente.
Segundo Majella, houve manifestações no bairro do Pontal da Barra, no Centro de Maceió e na porta da Câmara Municipal de Vereadores. Nesse período, os historiadores afirmam que a mobilização contra a duplicação ganhou, em 1985, o reforço expressivo do “Movimento pela Vida” (Movida) uma organização composta por cientistas, ecologistas e políticos. Foi essa entidade que no dia 20 de abril de 1985 decidiu que realizaria um ato público contra a Salgema no dia 7 de maio.
Edberto conta que a passeata ocorreu somente no dia 17 de maio e contou com a presença de cerca de mil pessoas. “Participavam também o Programa de Meio-Ambiente da Universidade Federal de Alagoas [Ufal], representado pelo professor José Geraldo Marques; Instituto dos Arquitetos do Brasil; Sindicato dos Jornalistas; Sociedade Alagoana dos Direitos Humanos e dos DCEs da Ufal e da Faculdade Cesmac.”
Ato contra a duplicação da Salgema reuniu moradores do Pontal e do Trapiche, ambientalistas, jornalistas e políticos (Foto: Josival Monteiro / Arquivo Site História de Alagoas)
“O contexto em que Alagoas e o Brasil vivia no momento da escolha do local e depois na implantação da Salgema, foi a ditadura militar, o governo do general Ernesto Geisel. Em Alagoas o governador era Divaldo Suruagy, de quem se dizia uma espécie de ‘filho adotivo’ de Geisel’’, conta o historiador Geraldo de Majella.
Geraldo fez um relato histórico desse período. Ele aponta que naquela época vários setores da sociedade temia os riscos que instalação da Salgema poderia causar. “Os Vereadores com atuação contra a Salgema que se destacaram à época foram: Edberto Ticianeli, Fernando Costa, Jarede Viana, Kátia Born e Guilherme Falcão. Os Deputados estaduais Ronaldo Lessa, Selma Bandeira e Eduardo Bonfim também estiveram defendendo os moradores dos bairros atingidos, naquela época o Pontal e o Trapiche da Barra com a implantação da indústria.”
O historiador conta ainda que a resistência dos moradores da região foi fundamental no processo de arregimentação de forças políticas e de intelectuais. “Podemos lembrar os nomes de Nunes, liderança comunitária, o jornalista Hamilton Braxinsky, o Cesário da Colônia dos Pescadores do Pontal da Barra. Vale lembrar que o Sindicato dos jornalistas na gestão Denis Agra ampliou a visibilidade da luta ambiental em Maceió naquele momento.”
LOCALIZAÇÃO
“A escolha do local, as dunas do Pontal da Barra foi definida pelo vice-presidente da Dupont, empresa multinacional, inclusive o vice-presidente esteve em Alagoas. Anos depois passou a circular a notícia de que o campus da Ufal, instalado na antiga Escola de Aprendiz de Marinheiro, no Pontal da Barra, seria transferido para o Tabuleiro do Martins por questão de segurança”, relata Majella.
O historiador ressalta que o professor José Geraldo Marques foi o ponto de apoio mais sólido que se poderia ter. “Primeiro pelo comprometimento com a causa ambiental, segundo pela competência técnica que fez toda a diferença no enfrentamento com a direção da Salgema e com o governo estadual integralmente defensor dos interesses da indústria e, por consequência, contra a população e o meio ambiente”.
“Movida enfrentou o poder econômico e a pressão governamental”
“O Movimento Pela Vida, foi quem deu suporte na mobilização e em certa medida conduziu as lutas, as ações políticas e de rua, enfrentando sem medo o poderio econômico empresarial e a pressão governamental. É sempre bom destacar as figuras de Anivaldo Miranda, Rubens Jambo entre outros”, relembra Majella acrescentando que a professora Maria do Carmo Vieira, socióloga e professora da Ufal, foi quem primeiro defendeu uma dissertação onde as questões ambientais e sociais impactadas pela Salgema na região Sul de Maceió que causaram malefícios aos moradores.
Vale lembrar ainda que, com as ações e pedido de diversos setores da sociedade, vários processos foram parar na Justiça. Juarez Ferreira, jornalista e membro do Conselho Estadual de Cultura há época, foi o relator do processo de Tombamento do Pontal da Barra, como patrimônio paisagístico e natural de Alagoas, em 1988.
INSTALAÇÃO
A construção da fábrica de cloro-soda, o campo de salmoura e o terminal marítimo, em Maceió, tiveram início em 1974. A produção comercial só teve início em fevereiro de 1977 e a unidade de dicloretano, em 1979.
ACIDENTES
As fissuras e afundamento de solo, ocorridas em fevereiro de 2018 no Pinheiro e recentemente em residência do Mutange e Bebedouro, são só mais alguns dos problemas ocasionados com a instalação da empresa no estado. Vale lembrar que um dos momentos mais críticos provocado pela localização da empresa ocorreu no início da manhã de 31 de março de 1982, quando uma “violenta explosão’’, seguida de chamas que alcançaram cerca de 15 metros” como consta em reportagem da Gazeta de Alagoas, 1º/04/1982 atingiu a unidade de Diocloretano.
“Houve pânico, com correrias, desmaios e choros por parte dos moradores e familiares dos funcionários da empresa. As ruas próximas à Salgema, embora chovesse muito em Maceió, ficaram movimentadas, com o povo procurando abandonar suas casas”, noticiou a Gazeta de Alagoas.
MORTE
Pelo menos cinco pessoas foram atendidas na Unidade de Emergência Dr. Armando Lages. Vinte e cinco dias após a explosão, faleceu no Hospital dos Usineiros o trabalhador Genival Ribeiro dos Santos, de 44 anos, que trabalhava para uma empresa terceirizada. Morreu em consequência de queimaduras de 1º, 2º e 3º graus.
Historiador: relatório da CPRM é a prova que Braskem sabia dos problemas
“A censura à imprensa era a regra durante a ditadura militar e muitos acidentes e vazamentos de produtos químicos não foram noticiados pela imprensa da Alagoas. O governo, em ‘conluio’ com a Salgema, criou uma cortina de proteção’’, diz Majella.
Segundo ele, a Tribuna de Alagoas, jornal fundado pelo senador Teotônio Vilela e um grupo de empresários e profissionais liberais foi quem quebrou o silêncio imposto pelo governo à imprensa.
Geraldo diz que toda a proteção da empresa é voltada pelos os ganhos. “Tal como hoje havia financiamentos de campanhas para articular bancadas que defendessem a Salgema ou silenciasse sobre os problemas causados pela empresa”.
LUTA
“Hoje a população passou a conviver com o terror imposto pela Braskem, sucessora da Salgema. Os bairros do Pinheiro, Mutange e Bebedouro são vítimas diretas de um modelo de desenvolvimento e negócio que só prosperam em países onde o Estado [Poder Público] é cúmplice de crimes. E no caso Alagoas desde sempre tem sido “sócia” no crime de uma empresa que agora não tem como negar que destruiu três bairros, levando no rodo mais de 35 mil moradores ao desespero, a incerteza e com problemas de saúde que antes não tinham”, comenta o historiador.
Para Majella, o relatório da Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais (CPRM) é a prova de que a Braskem sabia do problema e de suas consequências. “A exemplo da Vale, em Minas Gerias, a Braskem continuou explorando as minas de sal-gema indiferente aos problemas e sem qualquer cuidado com a população atingida”.
Geraldo de Majella elenca os ganhos que a empresa trouxe na época.
O primeiro apontado por ele é que a unidade produtora de eteno a partir do álcool passou a funcionar em dezembro de 1981, eliminando a necessidade de importação da nafta para a produção de dicloretano.
O outro foi em 1981, quando a empresa teve lucro pela primeira vez. O ganho de Cr$ 10 milhões foi atribuído pelo seu presidente, Ronaldo Miragaya, ao crescimento das exportações, que no ano anterior foram 30 vezes maior.
O terceiro ponto foi que nesse período teve início à participação da Norquisa e Copene e a Odebrecht adquire participação no capital da empresa em Alagoas e em outras unidades, nascendo a Odebrecht Química S.A., que nos anos 90, com o processo de privatização do setor petroquímico, amplia o seu controle sobre outras empresas criando a OPP Petroquímica S.A e a Trikem S.A.
“Maceió poderia sofrer afundamentos”
O cientista ambiental e ecólogo José Geraldo Marques relata que o Movimento Pela Vida foi à primeira Organização Não Governamental (ONG) ambientalista em Alagoas. E que ela se tornou possível no momento pós-anistia do fim da ditadura, na década de 80.
O ambientalista conta ainda que já era bastante conhecido e até ridicularizado, porque com base em seus estudos científicos de impacto ambiental havia publicado que a cidade de Maceió poderia vir a sofrer subsidências por conta da atividade mineradora da então Salgema, hoje Braskem.
Marques confirma que a ação mais visível do Movimento pela Vida foi de fato a grande mobilização contra a duplicação da produção pela indústria da Salgema no mesmo local do Pontal da Barra, pleito imposto pela indústria ao Governo de Alagoas. “Com tal absurda duplicação todos os riscos ambientais seriam potencializados. Insisto em riscos no plural porque o problema da atual subsidência é apenas um deles, o primeiro que infelizmente se concretizou. Outros existem’’, alerta.
Unidade da Braskem no Mutange, atividade de mineração causou afundamento do solo em três bairros da capital (Foto: Edilson Omena)
Outra coisa que o ambientalista destaca é que a má localização da indústria tornava todos os riscos potenciais capazes de concretização, afetando diretamente a população maceioense. “Por isso, nós pedíamos a relocalização e nunca pedimos o fechamento. Quem se inventa de fechar e ameaça de fechar é a indústria em ataques espasmódicos de lockouts cenográficos’’.
ECONÔMICO
Do ponto de vista econômico, o que mais preocupava segundo Marques era a imposição da empresa para que o Estado de Alagoas assumisse os custos da duplicação, o que foi possível com empréstimos gigantes que o Governo fez e entregou de mão beijada. “Elevando a nossa dívida para o patamar impagável, que perdura até hoje’’.
“Fizemos uma passeata pelas ruas centrais da cidade, devidamente coberta pela imprensa local. Fizemos um comício na Rua do Comércio, no qual eu discursei, ao lado de Kátia Born e Anivaldo Miranda. Nada disso adiantou, a tal duplicação foi autorizada e feita. Os riscos foram potencializados e agora deu no que deu. Infeliz e lamentavelmente. A farra ainda não acabou. E uma dinheirama já rolou’’, pontua Marques.
Kátia Born: “não houve parecer técnico de alta complexidade para liberação”
Kátia Born foi uma das figuras que participou de vários atos contra a instalação da Salgema na área do Pontal. Ela comenta que os atos eram embasados em situações vivenciadas pela população.
“Fizemos esse movimento para que o Instituto do Meio Ambiente [IMA] não autorizasse a duplicação. Porque moradores da área relatavam vazamentos. Queríamos que ó órgão fizesse o estudo antes liberar a licença e houvesse uma área de proteção para o Pontal. A gente conseguiu que o terminal fosse na região do polo Cloroquímico. Conseguimos também que a tubulação fosse por cima e não por baixo como era previsto. Além disso, solicitamos aos técnicos que fizesse todo um estudo para a retirada da sal-gema no Bebedouro. Esses técnicos vieram e disseram que não ia prejudicar os moradores. Ainda disseram que a exploração era mais de mil metros abaixo. Eles fizeram uma demonstração na Câmara dos vereadores que não haveria perigo nenhum. Aí o IMA deu o parecer e conseguimos a instalação fora do Pontal. A ideia inicial era acabar com o bairro. Moradores iriam ser relocados”, relembra.
Born diz que o grupo se apegou ao parecer que foi dito que não haveria problemas aos bairros. “Não era nem do Pinheiro e sim do Bebedouro. Houve constatação do professor Marques e Miranda. Queríamos que fosse retirada a exploração na área, mas os técnicos disseram que não haveria prejuízos. Durante esse período não houve reclamação dos moradores do Bebedouro nem do Pinheiro. Porém começaram a surgir às rachaduras. Mas vale ressaltar que até aquele momento éramos contrários a exploração. Porém, os técnicos disseram o contrário. Há 35 anos já lutávamos para um parecer técnico de alta complexidade que nunca foi feito”, reclama.
Para Born a preocupação da época se concretizou de uma forma que não era discutido na ocasião.
“No momento nossa preocupação era com vazamentos e explosão. Mas 30 de exploração sem nenhum estudo eficiente era ‘previsto’ algum dano. Acho que o Governo Municipal, Estadual e Federal deviam se unir para proteger a população e a antiga Salgema já devia disponibilizar recursos para transferência dos moradores e até ela própria desapropriar toda área, já que grande parte dos problemas foram provocados pela extração do Salgema”, finaliza.
Edberto Ticianeli também reafirma a preocupação da época. “Participei dessa luta como vereador. Não havia ainda nenhuma discussão sobre o Pinheiro ou qualquer outro bairro que ficava sobre as minas. Todo o problema era a possibilidade de vazamento/explosão com danos aos bairros mais próximos à planta industrial do Pontal e os problemas de poluição, principalmente da lagoa Mundaú”.
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