Cidades

28 de abril de 2018 10:26

‘Valeu o boi’: elas também se destacam

Cada vez mais mulheres disputam circuitos de vaquejadas; atletas alagoanas contam suas histórias e conquistas

↑ ‘Sou a única mulher da família que pratica o esporte. O melhor é que tanto eu quanto o meu esposo amamos o que fazemos. Ele corre junto comigo, é meu esteira’ (Foto: Cortesia)

Quem conhece a vaquejada ou já foi alguma sabe que é uma “modalidade esportiva” praticada no Nordeste brasileiro, na qual dois vaqueiros a cavalo devem derrubar um boi dentro dos limites de uma demarcação a cal, puxando-o pelo rabo. Vence a dupla que obtiver maior número de pontos.

Durante muito tempo, o esporte teve a predominância masculina, por ser uma prática que requer força e agilidade dos competidores. Mas isso está mudando. Cada vez mais o sexo feminino entra na pista e compete com maestria. Elas também têm força para derrubar o boi e não deixam nada a desejar aos homens.

O locutor do esporte narra toda a ‘jogada’, no grito de ‘valeu o boi’ ou ‘zero boi’, e entre uma competição e outra, as mulheres vêm se destacando nos últimos anos. Em Alagoas, nove vaqueiras disputam os principais circuitos de vaquejada dentro e fora do estado. Elas são da Associação Brasileira de Vaqueiras (Abrava), que já conta em todo país com cerca de 150 associadas.

A Abrava trabalha desde 2012 o reconhecimento destas atletas do ‘valeu o boi’, auxiliando as vaqueiras nas provas oficiais e realizando suas próprias competições. Entre os principais campeonatos está o Circuito Abrava, realizado em oito etapas nos estados de Pernambuco, Paraíba, Maranhão, Ceará e Pará.

A reportagem da Tribuna Independente conversou com três vaqueiras alagoanas que amam o esporte e já colecionam diversos prêmios.

A estudante de administração e formada em Inseminação Artificial em Bovinos (IAB), Gracy Liima, residente de Palmeira dos Índios, região Agreste do estado, conta que sua paixão pelo o esporte vem de berço.

“Corro vaquejada desde 4 anos de idade. Comecei muito cedo através de meu pai que era um grande vaqueiro. Ele praticamente antes de falecer me deixou como legado a vaquejada”, lembra a vaqueira.

Única mulher da família a seguir os passos do pai

 

Gracy disse que, apesar da família ser grande e ter muitas mulheres, ela é a única mulher da família que seguiu o esporte. “Minha família é muito grande, mas de mulher só eu mesma que corro. Porém, tenho tios e primos que praticam a vaquejada e sobrevivem dela também”, disse a campeã de circuitos de vaquejadas que já tem uma legião de seguidores nas redes sociais.

“Comecei a disputar mesmo a partir dos 12 anos, onde corria na categoria mirim para um rancho com um dos maiores vaqueiros atual do Brasil Celso Júnior em uma vaquejada de Satuba, aqui em Alagoas. Já ganhei vários prêmios disputando entre os homens também. Porque há seis anos não existia a categoria feminina. E hoje, as vaqueiras tem sua própria premiação. Minha última vaquejada foi em março deste ano em Taquarana onde fui campeã e rachei o prêmio com outra vaqueira. Fiquei em 1º, 2º e 3º lugar nessa competição”, conta Gracy.

A estudante comenta que perdeu as contas dos prêmios que ganhou por que já foram muitos desde primeira competição.

“Ganhei bolões de vaquejada, como chamam os organizadores, troféus e outros. Já foram muitos. Mas meu maior prêmio foi ano passado onde fui campeã e a melhor vaqueira da Abrava, uma das maiores premiações que já tinha passado por mim. Hoje, por conta dessa consagração, tenho 17 mil seguidores nas minhas redes sociais e até fãs clubes. Então, só tenho que agradecer a Deus por ter sido a melhor vaqueira do Brasil e representando meu estado e aos amigos e familiares que me incentivam”, comemora a vaqueira.

SONHO

Para que outras mulheres que gostam do esporte e sente um preconceito ou falta de incentivo, Gracy Liima criou a Associação Alagoana de Vaqueiras (AALVA). “Fundei a associação para abrir espaço para as meninas do nosso estado que queiram participar”, ressalta.

Vaqueira disputa torneios acompanhada do esposo

 

Há alguns séculos as mulheres não podiam sequer montar cavalos. Elas andavam apenas ao lado dos animais sempre acompanhadas de uma figura masculina.

Atualmente, o sexo feminino está mais conscientes da sua capacidade e destemidas, exercendo um papel de destaque nos torneios por todo o Brasil. Muitas deixam qualquer ‘‘marmanjo” para trás na hora da competição.

Foi assim com a Paulojacintense Daiane Lima que resolveu calçar suas botas, atacar as luvas e sair em busca do sonho de ser uma vaqueira campeã. E ela fez isso com o apoio e incentivo dos familiares e em especial do seu esposo que também é vaqueiro.

“Meu esposo é vaqueiro e domador de cavalos. Foi com incentivo dele que comecei a correr vaquejada. Hoje, participo de vários campeonatos no estado”, conta Daiane.

A vaqueira, que afirma não ter outra profissão além dessa, começou a disputar com 24 anos. Atualmente com 25 anos, ela já tem alguns prêmios alcançados com muito treino e luta em 11 disputas.

“Sou a única mulher da família que pratica o esporte. O melhor é que tanto eu quanto o meu esposo amamos o que fazemos. Ele corre junto comigo, é meu esteira [vaqueiro secundário que ajuda o puxador]. Em todas as vaquejadas que participei sai com prêmios”, relata à vaqueira.

A vaquejada mais recente que Daiane participou foi no início de abril entre os dias 6 á 8, no Parque Princesa dos Montes, na cidade de Chã Preta, interior de Alagoas.

E como não podia ser diferente, Ely Pereira da Silva, esposo e companheiro de pista, estava presente na competição. “Correr vaquejada é uma paixão. Os prêmios são incentivos pelo trabalho realizado”, comenta o companheiro de Daiane.

PREPARAÇÃO

Agora o casal está se preparando para o Circuito de Vaquejada promovido pela Associação dos Vaqueiros do Brasil (AVAQ), que deve acontecer no segundo semestre de 2018.

 

Cada vez mais, em Alagoas e em todo o Brasil, mulheres ganham mais espaço em corridas de vaquejada, um esporte que por muito tempo foi dominado pelo sexo masculino; atualmente, são mais de 150 vaqueiras no País (Foto: Cortesia)

Vaqueira se prepara para disputar circuito de maior prêmio na categoria feminina

 

Outra que não esconde o prazer em ser vaqueira é Elisandra Matos. A estudante de 21 anos, moradora de Colônia Leopoldina, já tem 17 prêmios.

“Eu sempre gostei do esporte desde criança. Sempre andei a cavalo e tive contato com a vida de gado, mas só comecei a derrubar boi a partir dos 17 anos. É uma herança familiar. Minha paixão por vaquejada veio através do meu pai. E eu sou a única mulher da família a seguir esse caminho”, conta.

Lisa, como é chamada, já participou de muitas vaquejadas e até perdeu as contas.

“Foram várias. Não sei dizer ao certo quantas. Já ganhei algumas. A última foi no final de semana passado na cidade de Maranguape no Ceará, onde me classifiquei em terceiro lugar com duas senhas”, comenta orgulhosa da conquista.

A vaqueira disse que cada conquista tem um significado diferente.

“Os prêmios são muito importantes. Cada um deles tem um significado enorme na minha vida. É parte de um sonho que eu venho construindo a cada dia. Sempre que posso me dedico e treino para me preparar para alguma competição. Agora, em especial, estou me preparando para a ‘Vaquejada do Milhão’ que acontecerá em dezembro aqui em Alagoas, onde terá um espaço para nós vaqueiras com uma ótima premiação na categoria feminina”, avalia Lisa.

Representantes ressaltam importância da categoria

 

Os representantes da Associação Alagoana de Criadores de Cavalo Quarto de Milha (ALQM), organizadores de vaquejadas em todo o Nordeste, ressaltam a importância da categoria feminina no esporte.

Em entrevista para o Blog TV Quarto de Milha, a presidente da Abrava, Simone dos Santos Siqueira, competidora desde os 16 anos, contou que muitas atletas ficam impossibilitadas de participar das competições.

Segundo ela, na maioria das vezes o preço das inscrições somadas às despesas de viagem e aluguel das baias, comparadas à premiação dada no campeonato para as mulheres, não compensa.

“Tudo é custo hoje. Tem muita despesa. A maioria das meninas são estudantes e os pais financiam. Muitas trabalham em outras profissões para também financiar suas participações no esporte”, informou Simone.

Ela disse que valorizar a premiação poderá ser um reflexo para também melhorar o reconhecimento delas como profissionais. Simone contou ainda, sem revelar nomes, de uma situação absurda que passou.

“Uma vez divulgaram em um cartaz uma competição, que teria tropa feminina em uma sexta-feira, às 18h, com premiação de R$ 3 mil reais e com senha grátis. Saímos e nos deslocamos com várias meninas, de vários estados. Chegando lá a prova não aconteceu. Nem na sexta, nem no sábado e nem no domingo, que eram os dias de competição”, contou a presidente da Abrava que finalizou ainda incentivando as competidoras a não desistir.

CAMPANHA

A campanha “Respeita as Vaqueiras”, das meninas da Paraíba, foi criada especialmente para as vaqueiras, para que elas possam ter mais respeito, e serem valorizadas.

Com a hashtag #respeitaasvaquiras nas redes sociais, elas divulgam vídeos e fotos e pedindo que a classe feminina seja mais valorizada nos circuitos de vaquejadas de todo o país.

Manifestação cultural x proteção ao meio ambiente

 

A prática da vaquejada consiste em uma manifestação cultural popular que remonta ao século XVII, e que é amparada pela Constituição Federal.

O Art. 215 diz que o Estado garantirá a todos o pleno exercício dos direitos culturais e acesso às fontes da cultura nacional, e apoiará e incentivará a valorização e a difusão das manifestações culturais. O Estado protegerá as manifestações das culturas populares, indígenas e afro-brasileiras, e das de outros grupos participantes do processo civilizatório nacional.

Ou seja, a proibição da vaquejada concorreria para o enfraquecimento da cultura/tradições nordestinas.

A prática já chegou a ser proibida em Alagoas e em outros estados do País sob o argumento de que a prática do esporte feria os direitos dos animais.

Em defesa, os organizadores e esportistas argumentam que tal manifestação contribui para o aquecimento da economia local, já que se estima que a atividade movimenta mais de 600 milhões de reais por ano, além de gerar milhares de empregos, direitos e indiretos. Por último, alegaram que os eventos têm o maior cuidado com os animais.

Por outro lado, os ambientalistas têm opiniões divergentes acerca do tema. Muitos afirmam que o esporte causa sim maus tratos aos animais (muitas vezes o rabo do boi é arrancado na corrida), e, portanto, deveria ser proibida com base na Carta Magna. Que diz que todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações.

A carta ressalta ainda que o Poder Público deve proteger a fauna e a flora, vedadas, na forma da lei, as práticas que coloquem em risco sua função ecológica, provoquem a extinção de espécies ou submetam os animais à crueldade.

Por conta dessas desavenças ocasionadas entre praticantes, sociedade civil e especialistas ambientais, uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) foi ajuizada no Supremo Tribunal Federal (STF), questionando lei cearense que regulamentava a prática da vaquejada no estado.

O debate gerou muitos comentários em todo o país. Muitos circuitos organizados no Nordeste, inclusive em Alagoas, a exemplo de Palmeira dos Índios e Rio Largo, foram suspensos, alguns no dia da abertura e outros quando o evento já havia começado. Os organizadores também entraram com ações na Justiça para a liberação da vaquejada.

No fim, pressionado pela bancada ruralista, o Congresso Nacional aprovou a Lei nº 13.364/2016, que elevou o Rodeio e a Vaquejada, bem como as respectivas expressões artístico-culturais, à condição de manifestações da cultura nacional e de patrimônio cultural imaterial. Mais adiante o próprio Congresso Nacional promulgou a emenda constitucional, acrescendo o §7º ao artigo 225 da Carta Magna.

O inciso diz que não se consideram cruéis às práticas desportivas que utilizem animais, desde que sejam manifestações culturais, registradas como bem de natureza imaterial integrante do patrimônio cultural brasileiro, devendo ser regulamentadas por lei específica que assegure o bem-estar dos animais envolvidos.”

Fonte: Tribuna Independente / Lucas França

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