Turismo

Nativos são expulsos do Litoral Norte

Turismo de luxo e a especulação imobiliária aos poucos afastam os moradores da Costa dos Corais e do Norte de Maceió

Por Claudio Bulgarelli / Tribuna Independente 17/10/2026 08h42 - Atualizado em 17/10/2026 09h28
Nativos são expulsos do Litoral Norte
Em Maragogi, em breve será inaugurado um dos maiores complexos imobiliários, o Greensea Oceanic - Foto: Divulgação

Quase todos os municípios da Costa dos Corais alagoana, e mesmo alguns bairros do litoral norte de Maceió, já estão vivendo um processo agressivo de gentrificação e espoliação silenciosa, com avanço desordenado do turismo de luxo e a forte especulação imobiliária, que estão destruindo o patrimônio cultural e empurrando as comunidades locais para longe da praia e dos locais de seus antepassados.

A Rota Ecológica, por exemplo, que abrange os municípios de Passo de Camaragibe, São Miguel dos Milagres e Porto de Pedras, já foi transformada, ao longo da última década, em vitrine do turismo “ecossustentável” no Nordeste. Maragogi, que já vive esse processo a mais tempo, vai ter, em breve, na Praia de Peroba, um dos maiores complexos imobiliários e turísticos da região.

Batizado de Greensea Oceanic, o empreendimento é anunciado como o maior home resort da região, e prevê mais de 1.500 unidades habitacionais ou de hospedagem, cinco conjuntos de piscinas, 14 quadras esportivas e um centro comercial com 22 lojas.

Localizado em frente às piscinas naturais de Peroba, próximo à divisa com Pernambuco e à cidade de São José da Coroa Grande, o projeto poderá impulsionar o turismo, movimentar a economia e gerar novas oportunidades de emprego. O terreno já está cercado por tapumes publicitários, mas ainda não há informações confirmadas sobre o início das obras, o valor do investimento ou a previsão de entrega. A implantação do complexo também dependerá das exigências legais e ambientais aplicáveis à região.

E a gentrificação não está restrita as belas praias do Caribe alagoano. Na Praia da Garça Torta, localizada no Litoral Norte de Maceió, marcada pela especulação imobiliária, conflitos fundiários e pela pressão sobre as comunidades tradicionais de pesca artesanal e moradores de baixa renda, também está passando pelo processo de verticalização. A construção de novos edifícios de alto padrão e prédios residenciais (como o Dom Pietro, da Bezerra Engenharia) na Rua São Pedro e proximidades tem gerado forte reação de moradores. O Ministério Público de Alagoas (MP/AL) recomendou a suspensão de licenças para a construção de novos “espigões” em Garça Torta, Guaxuma e Riacho Doce até a aprovação de um novo Plano Diretor para Maceió. Mas as obras continuam.

Mas por trás das piscinas de borda infinita, e das diárias de até cinco mil reais, todos precisam conviver, ou no mínimo enxergar, que existe uma contradição gritante, já que o território vendido como paraíso natural é o mesmo onde a maioria da população vive com menos de um salário mínimo, sem acesso a esgotamento sanitário e com baixo IDHM.

Segundo dados do IBGE (2010–2018), apenas 3% das residências em Passo de Camaragibe, 8% em São Miguel dos Milagres e 4% em Porto de Pedras possuem esgotamento sanitário adequado, resultando em uma média de apenas 5% na Rota Ecológica. O Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM) varia entre 0,53 e 0,59, entre os mais baixos de Alagoas. Mesmo assim, o PIB per capita de Porto de Pedras, impulsionado pelo turismo, ultrapassa R$ 34 mil, e São Miguel dos Milagres e Passo de Camaragibe superaram R$ 17 mil, cada um. Mas o crescimento econômico convive com a estagnação social, e a riqueza produzida pelo território não retorna para quem habita na região.

pescadores

Expulsão e perda de acessos

nas praias da Rota Ecológica

O morador de São Miguel dos Milagres conhecido como Marcelo “Peixe Frito”, o Marcelo Siqueira, figura tradicional da região, foi daqueles que mais sofreu com o processo de gentrificação, quando, alguns anos atrás, teve que “sair” de seu espaço na praia de São Miguel dos Milagres, onde tinha um restaurante, para dar lugar a um enorme empreendimento da construtora Telesil.

No ano passado, o guia de turismo e pescador, João, denunciou o conflito generalizado e de grande repercussão que ocorreu em Porto de Pedras, na Praia do Patacho, envolvendo o avanço do turismo de luxo sobre as áreas tradicionais de pescadores artesanais. O conflito ganhou visibilidade com episódios de demolição e incêndios de palhoças (barracas usadas para guardar materiais de pesca e jangadas) em praias e povoados da região. Pescadores tradicionais relataram expulsões e cercamentos promovidos por grandes condomínios “pé na areia” e resorts em construção.

E, cinco são os pontos mais claros desse processo. Despossessão e “Urbanização Excludente”, expulsão dos nativos e isolamento geográfico, privatização da orla e perda de acessos coletivos, inviabilização das economias tradicionais e ocupação desordenada com discurso de “Falsa Sustentabilidade”, onde estudos acadêmicos sobre o turismo na região denunciam que a marca “Rota Ecológica” funciona muitas vezes como um discurso puramente mercadológico que encobre práticas antiecológicas.

Empreendimentos de luxo deverão ser

erguidos entre Alagoas e Pernambuco

Na última semana, a atriz Luana Piovani chamou a atenção para empreendimentos imobiliários associados ao jogador Neymar, com previsão de 28 condomínios de luxo entre Alagoas e Pernambuco. Segundo ela, o projeto tem participação de Neymar como investidor e previsão de movimentar R$ 7,5 bilhões em vendas. Em Pernambuco, o empreendimento já enfrenta questionamentos do Ministério Público, que pediu a suspensão de autorizações para obras na região de Tamandaré, diante de preocupações com impactos ambientais e a ausência de estudos exigidos pela legislação.

Em 2022, a geógrafa Rennisy Rodrigues Cruz, em pesquisa publicada pela Revista Ciência Geográfica, chamou a atenção para o que definiu como “acumulação por espoliação”, que descreve a apropriação privada de bens comuns e o deslocamento forçado de populações tradicionais. Em seu artigo, a Rota dos Milagres vive processo, já que praias, restingas e trilhas se tornam propriedades muradas; acessos públicos são desviados; e os moradores, antes protagonistas da pesca e do turismo artesanal, passam a ser tolerados apenas como parte do “cenário autêntico” vendido aos visitantes.

Para muitos moradores, e pesquisadores, esse tipo de exploração, começou a partir do “Réveillon dos Milagres”, produzido pelo grupo Tamo Junto, produtora que conglomera uma série de empresas nas áreas de entretenimento, gastronomia, e até casamento.