Turismo
Viajar em tempos de IA: as mudanças que guiam nossos roteiros e propósitos
Costumo me definir como uma "travelholic", neologismo em inglês que pode ser traduzido como "apaixonada por viagens" ou até mesmo "viciada em viajar". Porém, quando saio de casa, não me vejo como uma turista, e sim como uma viajante. Embora os termos sejam usados como sinônimos, eles carregam nuances que fazem toda a diferença.
Enquanto "turista" remete mais diretamente à indústria do turismo, "viajante" está ligado à própria experiência de me locomover para um lugar. É uma palavra menos técnica, que fala do deslocamento, da descoberta e do que acontece pelo caminho.
Celebrado todo 27 de setembro, o Dia Mundial do Turismo nos convida a colocar essa visão em perspectiva. Criada pela ONU Turismo em 1980, a data nasceu para chamar atenção para a importância econômica e social de uma atividade que, hoje, movimenta uma quantidade monumental de cifras na economia.
Segundo dados do Conselho Mundial de Viagens e Turismo (WTTC, na sigla em inglês), o setor deve contribuir com US$ 12 trilhões (cerca de R$ 61 trilhões) no PIB mundial, um crescimento de 3,2% em relação a 2025. O turismo deve responder por 9,9% da economia global e sustentar cerca de 376 milhões de empregos, cenário que, segundo as projeções, seguirá avançando nos próximos anos.
Os números no Brasil também são promissores. Nos primeiros oito meses de 2026, recebemos pouco mais de 6,4 milhões de visitantes internacionais, segundo Embratur, Ministério do Turismo e Polícia Federal. A Argentina sai na frente como maior mercado emissor, seguida de Chile e EUA. Um movimento que chama a atenção vem da Ásia: registramos a entrada de 113 mil chineses por aqui, alta de 73,3% em relação ao mesmo período de 2025. Já entre janeiro e julho, os gastos dos viajantes internacionais chegaram a R$ 33,6 bilhões.
Mais de quatro décadas depois da criação do Dia do Turismo, fica claro que o setor mudou - e muito. Diante de tantos avanços econômicos e, principalmente, tecnológicos, vale fazer uma pergunta em sintonia com os tempos atuais: em um momento em que a tecnologia é capaz de sugerir destinos, montar roteiros e até antecipar nossas vontades, o que significa, de fato, viajar?
Planejamentos e decisões
A maneira como buscamos, planejamos e pensamos as nossas viagens está mudando de forma acelerada. A inteligência artificial entra em cena para facilitar todo o processo, desde a sugestão de destinos e roteiros até a compra da passagem e a reserva do hotel. Não por acaso, esse é o tema proposto pela ONU para o Dia Mundial do Turismo deste ano: "Agenda Digital e Inteligência Artificial para Redesenhar o Turismo".
Ou seja, do nosso lado, o algoritmo participa da construção dos desejos, mas trago algumas ressalvas. Dados apontam que a IA ainda não conquistou o direito de decidir por nós. Segundo uma pesquisa da Booking.com, 63% dos brasileiros usaram IA em 2025 durante o planejamento ou a própria viagem, e 80% pretendem recorrer à tecnologia ainda neste ano. O uso, no entanto, está atrelado à assistência: 44% usaram a IA para sugestões de atividades e restaurantes, enquanto apenas 18% chegaram a utilizá-la para fazer reservas.
O dado que mais me chama a atenção é outro: 51% dos brasileiros entrevistados dizem que a IA os ajudou a descobrir novas ideias de destinos e roteiros. O levantamento, realizado em janeiro com mais de 32 mil viajantes de 34 mercados, teve um recorte específico para o Brasil e ouviu pessoas que haviam viajado a lazer nos 12 meses anteriores.

Daniela Filomeno no Pantanal, um dos biomas que se beneficia do turismo sustentável e consciente • CNN Viagem & Gastronomia
É como se houvesse uma hierarquia da confiança: aceitamos que a IA nos inspire ou sugira uma atividade, mas que não defina toda a nossa viagem.
Eu sou do time que nunca abre mão da curadoria humana. Um dos prazeres da viagem começa antes dela, na pesquisa, na mudança de ideia, na indicação de colegas e até no acaso. Um levantamento da Civitatis com mais de sete mil viajantes da América Latina e da Europa mostra que metade deles ainda não utiliza IA para organizar viagens. Informações desatualizadas, links que não funcionam, atrações inexistentes e recomendações pouco adequadas pesam nessa relação.
Hoje, minha visão é que a IA funciona melhor como um ponto de partida, organizando informações. As decisões, porém, têm que ser essencialmente humanas, pois as vivências jamais serão sentidas por uma máquina. Penso ainda que há um paradoxo: quanto mais a tecnologia otimiza a viagem, maior a nossa vontade de desacelerar.
A viagem além do destino
Em vez de uma coleção de lugares e checklists de atrações, o que tenho feito nas minhas jornadas é permanecer mais tempo em um destino, o que me permite vivenciá-lo de maneira mais profunda. É a lógica do "slow travel", em que menos pode, sim, ser mais.
O "onde vamos?" divide a mesma importância do "por que vamos?". Como já escrevi em outras colunas, uma viagem pode ser moldada em torno do vinho, da gastronomia, da arte, da música, do bem-estar ou de um jogo de futebol, por exemplo. Uma miríade de outros conceitos passam por aqui, como "vivências autênticas" e "viagens com propósito", que são fatores que têm orientado escolhas de viajantes, como aponta o relatório de tendências do Ministério do Turismo.
A conexão com a natureza e as escolhas mais conscientes ampliam esse universo. Falo por mim: mais do que escolher um destino apenas pelo nome, quero sentir e viver aquilo que ele tem a oferecer. É nesse movimento que ganham espaço termos como o glamping, que combina a experiência de estar ao ar livre com o conforto e as comodidades de uma hospedagem tradicional.

Daniela Filomeno no Glamping Chapada dos Veadeiros, em Goiás • CNN Viagem & Gastronomia
Para termos uma ideia, o mercado global de glamping está em alta e deve chegar a US$ 4,2 bilhões em 2026, cerca de R$ 21,6 bilhões, segundo dados da Grand View Research, um crescimento de 10,5% em relação ao ano anterior. O fenômeno vai ao encontro de experiências ao ar livre e do ecoturismo. Destinos como Cambará do Sul (RS) e Chapada dos Veadeiros (GO) reúnem exemplos onde a natureza e a rusticidade ditam o tom da jornada, mas com opções de hospedagem que não abrem mão do conforto.
Essa transformação também esbarra no próprio significado de luxo. Segundo os inspetores do Guia Michelin, que acabou de divulgar sua edição global com os melhores hotéis do mundo, o cenário da hospitalidade tem colocado em evidência novas formas de conforto e autenticidade. Nesse contexto, surge o "rough luxury", conceito que aproxima a simplicidade rústica de um serviço sofisticado.
São movimentos que apontam para uma mesma direção: viagens mais lentas, imersivas e com propósito, mesmo que o objetivo seja apenas descansar.
Viagens mais curtas e a quebra da rotina

Daniela Filomeno em frente ao casarão da Fazenda São Luiz da Boa Sorte, em Vassouras (RJ) • CNN Viagem & Gastronomia
Essa mudança também aparece na valorização de viagens mais curtas para lugares próximos, especialmente fora dos grandes centros urbanos. No Brasil, feriados e fins de semana prolongados são oportunidades para descobrirmos destinos a poucas horas de casa. No segundo semestre, viagens de um a três dias aparecem com força, enquanto feriados abrem espaço para estadias de média duração, entre quatro e sete dias.
Dados do Airbnb apontam outra faceta: entre setembro e novembro, as buscas por viagens nacionais em família cresceram 40% na plataforma em relação ao ano passado, enquanto a procura por destinos fora dos grandes centros aumentou 31%. Em vez dos locais mais óbvios, aparecem lugares como São Miguel dos Milagres (AL), Santarém (PA) e Lençóis (BA). Relaxar e fugir da rotina aparece como a principal motivação.
Quem nunca se deixou seduzir por aquela escapada necessária para quebrar a rotina? Quando penso nas viagens curtas, me vêm à cabeça as cidades de montanha do Sudeste, da Serra da Mantiqueira à Serra Fluminense, passando ainda pelas pouco comentadas Montanhas Capixabas, assim como os hotéis-fazenda do Vale do Café, no Rio de Janeiro. Também vale ficar de olho nos festivais gastronômicos e culturais que movimentam o interior, especialmente em cidades paulistas, alguns deles possíveis de encaixar em um bate e volta.
São viagens que partem, muitas vezes, de um pretexto. Pode ser o friozinho, uma festa, um vinho, um encontro com o passado. Mais uma vez, o "porquê" tem nos levado a descobrir um lugar que não estava no radar. É preciso lembrar que a viagem não precisa ser necessariamente um grande acontecimento planejado por meses a fio.
Um feriado pode ser suficiente para mudar o cenário e um fim de semana pode servir para descobrirmos uma cidade próxima. Significa encontrar uma brecha no calendário e saber aproveitá-la.
Temos mais ferramentas do que nunca para encontrar destinos, comparar preços e montar roteiros. Podemos ir mais longe em menos tempo e organizar uma viagem em poucos minutos. Ao mesmo tempo, permanecer, experimentar e descobrir algo sem planejamento são vontades que escapam dessa lógica e estão mais em alta do que nunca.
A tecnologia pode sugerir os caminhos, mas viajar continua sendo uma escolha humana. Felizmente, ainda somos nós que damos sentido ao caminho e à bagagem que levamos de volta para casa.
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