Saúde
Saúde do adolescente: médicos alertam sobre importância do acompanhamento preventivo nessa fase
Especialistas apontam sinais que merecem atenção dos pais e responsáveis, ressaltando que o cuidado médico deve ir além da investigação de doenças
A adolescência é uma fase marcada por transformações físicas, emocionais, sociais e comportamentais e, por isso, o cuidado médico precisa ir além da investigação de doenças. Depois da infância, quando são mais cuidados diretamente pelos pais ou responsáveis, muitos passam a frequentar menos os consultórios médicos e acabam procurando atendimento apenas quando surge algum problema de saúde.
Essa mudança pode fazer com que questões importantes relacionadas ao crescimento, vacinação, alimentação, saúde mental, sexualidade, comportamento e prevenção de doenças deixem de ser acompanhadas.
O Manual de Orientação “Consulta do adolescente: abordagem clínica, orientações éticas e legais como instrumentos ao pediatra”, da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), recomenda uma abordagem integral, considerando aspectos físicos, psíquicos, sociais, culturais e sexuais.
“A consulta do adolescente não deve ser apenas uma busca por doenças. Ela precisa ser também um espaço de acolhimento, prevenção e orientação. É importante que o jovem seja ouvido, que suas particularidades sejam consideradas e que, gradualmente, ele desenvolva autonomia e responsabilidade pelo próprio cuidado”, explica o pediatra Samir Kassar, professor do curso de Medicina da Afya Unima e integrante do Comitê de Pediatria Ambulatorial da SBP.
Para ele, o atendimento precisa criar um ambiente no qual o jovem se sinta ouvido e participe progressivamente das decisões relacionadas à própria saúde. O Manual da SBP orienta que a consulta seja cordial e evite julgamentos, favorecendo uma relação de confiança. O documento também destaca que o adolescente deve compreender seus direitos à privacidade e ao sigilo, respeitados os limites relacionados a situações que representem risco à sua saúde ou à integridade física.
Outro aspecto que deve ser resgatado durante a consulta é a vacinação. A SBP recomenda que o estado vacinal seja verificado e que a caderneta seja consultada, evitando que a avaliação fique baseada apenas na informação verbal da família.
A consulta também pode abordar temas que nem sempre chegam espontaneamente ao consultório. O Manual utiliza como referência o modelo HEEADSSS, que permite ao profissional investigar aspectos relacionados ao ambiente familiar, escola e trabalho, alimentação, atividades físicas e uso de telas, consumo de álcool e outras drogas, sexualidade, situações de violência e saúde emocional. A proposta é compreender o adolescente de maneira mais ampla, e não apenas a partir de uma queixa específica.
Na saúde das adolescentes, a ginecologista e professora preceptora do curso de Medicina da Afya Unima, Wanderliza Coutinho, explica sobre a primeira consulta. “Ela deve acontecer no início da puberdade para que a adolescente compreenda as transformações do próprio corpo, receba informações sobre menstruação, higiene, sexualidade e prevenção. Na maioria das vezes, esse primeiro atendimento não envolve exame ginecológico interno. É, principalmente, um momento de orientação e prevenção”.
A especialista destaca, ainda, que a puberdade precoce, atraso no desenvolvimento, cólicas incapacitantes, sangramento anormal, corrimento persistente ou outras mudanças que causem preocupação devem motivar avaliação médica.
Já a endocrinologista e professora do curso de Medicina da Afya Unima, Ariadne Guerrera, chama atenção para alterações que podem passar despercebidas quando não existe acompanhamento preventivo. “Nem sempre o adolescente apresenta um sintoma evidente. Alterações no peso, emagrecimento inexplicável, sede excessiva, aumento da frequência urinária ou mudanças importantes no desenvolvimento podem indicar a necessidade de investigação. Quanto mais cedo essas alterações forem identificadas, maiores são as possibilidades de acompanhamento adequado.”
A endocrinologista também ressalta a importância da prevenção da obesidade, da alimentação equilibrada e da atividade física regular durante essa fase. O objetivo não é estabelecer uma relação de restrição ou culpa com a alimentação, mas construir hábitos que possam acompanhar o jovem ao longo da vida.
Mais do que levar o adolescente ao médico somente quando aparece um problema, o acompanhamento preventivo ajuda a transformar a saúde em uma responsabilidade compartilhada entre família, jovem e profissionais. A participação dos pais continua sendo importante, mas o adolescente também precisa ser estimulado a conhecer seu corpo, tirar dúvidas, reconhecer sinais de alerta e assumir gradualmente o protagonismo sobre o próprio cuidado.
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