Política
Aliados de Flávio Bolsonaro e Alfredo Gaspar intimidam estudantes da Ufal
Universidade Federal de Alagoas toma providências e pede segurança ao Governo de Alagoas, TRE/AL e Polícia Federal
Estudantes da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) denunciaram ameaças e intimidação política no campus de Arapiraca, no Agreste alagoano, na noite de quinta-feira (8). Relatos compartilhados em grupos de WhatsApp dos centros acadêmicos apontam que ocupantes de veículos com material de campanha de Flávio Bolsonaro (PL) teriam abordado integrantes da comunidade universitária e procurado identificar quem afixou cartazes contrários à candidatura do senador. Também circulam denúncias de perseguição a estudantes que usam adesivos de apoio ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Uma das mensagens encaminhadas aos representantes estudantis descreve a situação como gravíssima e afirma que os ocupantes de um veículo ameaçavam retirar cartazes e acionar a Justiça. Segundo o relato, a intervenção de uma professora fez com que os envolvidos deixassem o local.
Outra denúncia, compartilhada entre estudantes, aponta que um carro preto com a bandeira do Brasil estaria perseguindo alunos identificados com Lula ou o PT e ameaçando avançar contra eles. As circunstâncias desse relato ainda precisam ser esclarecidas, assim como a eventual relação entre os episódios.
Fotografias que circulam nas redes sociais mostram uma caminhonete com adesivos de Flávio Bolsonaro, do candidato a vice-presidente Alfredo Gaspar (PL) e do vereador de Arapiraca Alisson da Tim (PP). A presença do parlamentar entre os envolvidos foi apontada pelos denunciantes. A identificação dos participantes e as responsabilidades pelos fatos dependem de apuração.
Até a publicação desta matéria, não havia confirmação oficial localizada sobre eventual registro policial ou conclusão de investigação relacionada às denúncias.
PROVIDÊNCIAS
Em nota encaminhada à imprensa na última sexta-feira (9), a gestão central da Universidade Federal de Alagoas informou que já tomou providências junto aos órgãos de Segurança Pública do estado e à Polícia Federal para que seja feita apuração dos fatos registrados ontem à noite, no Campus Arapiraca.
A Ufal prestou total apoio e solidariedade à docente e aos estudantes que sofreram insultos e agressões verbais dentro da unidade em Arapiraca, além de rechaçar qualquer tipo de intimidação em relação aos atos organizados pelo movimento estudantil no Campus A.C. Simões, em Maceió.
“A gestão [Ufal] vê com muita preocupação esse tipo de intervenção de agentes públicos ou quaisquer outras pessoas, que não têm o direito de entrar em uma instituição pública e ameaçar a comunidade acadêmica. O espaço universitário é plural, diverso e democrático e deve ser respeitado. Diante da gravidade dos fatos ocorridos, a Ufal reafirma o compromisso inegociável com a integridade física, a liberdade de manifestação e a segurança de estudantes, docentes, técnicos-administrativos e terceirizados”.
De acordo com a universidade, as seguintes providencias foram tomadas: enviou expediente à Secretaria de Segurança Pública, à Superintendência da Polícia Federal em Alagoas, ao Ministério Público Federal, ao Tribunal Regional Eleitoral (TRE/AL), à Prefeitura e à Câmara Municipal de Vereadores de Arapiraca, com o intuito de solicitar apoio institucional imediato, apuração rigorosa dos fatos e a identificação dos responsáveis pelas ameaças; Também solicitou reforço no monitoramento e nas ações ostensivas de segurança nos perímetros dos campi, em Maceió e Arapiraca, com o objetivo de prevenir confrontos, conter eventuais atos de violência e garantir o funcionamento seguro e democrático da vida universitária; e reforçou, ainda, que não tolera qualquer forma de violência, intimidação ou coerção dentro de seus espaços acadêmicos e reafirma o papel da universidade pública como um ambiente livre, democrático, pautado pelo diálogo, pelo respeito à diversidade e pelo livre direito de pensar e de manifestação.
EPISÓDIOS DE
HOSTILIDADE
O episódio ocorre pouco mais de um mês após o candidato a deputado federal Flávio Moreno (PL) entrar no Instituto de Ciências Humanas, Comunicação e Artes (ICHCA), no campus da Ufal em Maceió, gravar vídeos criticando manifestações políticas e chamar estudantes de “comunistas”.
Reportagens publicadas em 1º de setembro, informaram que a campanha do candidato recebeu R$ 701,5 mil do Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC), composto por recursos públicos. Em 9 de setembro, foi noticiado que a Justiça Eleitoral manteve o vídeo publicado pelo candidato nas redes sociais, mas determinou o prosseguimento da investigação sobre o caso.
Na ocasião, a direção do instituto repudiou os atos de hostilidade e agressividade verbal, ressaltando que a violência e a intimidação são incompatíveis com a convivência acadêmica. A unidade também informou que medidas de segurança seriam adotadas e que os órgãos competentes haviam sido acionados para apurar os fatos.
A Associação dos Docentes da Universidade Federal de Alagoas (Adufal) também condenou os ataques. Em manifestação publicada em 2 de setembro, a entidade defendeu a universidade pública como espaço de pluralidade, pensamento crítico e livre circulação de ideias.
CONSELHO
UNIVERSITÁRIO
Na terça-feira (6), o Conselho Superior Universitário (Consuni) da Ufal aprovou, por unanimidade, a Resolução nº 168/2026, que estabelece uma moção em defesa da educação pública, da autonomia universitária e do Estado Democrático de Direito.
O documento reafirma o compromisso institucional com o respeito às instituições democráticas e à soberania do voto popular, além de repudiar a desinformação, a violência política e os discursos de ódio que ameacem a sociedade e o processo eleitoral.
A manifestação ocorre durante a campanha para o segundo turno da eleição presidencial, marcado para 25 de outubro, em uma conjuntura de mobilização de estudantes e entidades acadêmicas em diferentes regiões do país.
Professor universitário diz que ataques “não são casos isolados”
O professor adjunto de Administração Pública da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), Leonardo Prates Leal, relatou que um grupo de oito a dez homens entrou no campus de Arapiraca na noite da quinta-feira (8), em veículos plotados com material de campanha de Flávio Bolsonaro.
Segundo o docente, o grupo é liderado pelo vereador de Arapiraca conhecido como Vavazinho e teria intimidado professores e estudantes.
“O campus Arapiraca foi invadido por um grupo de mais ou menos oito a dez homens. Eles entraram fazendo arruaça com o carro, intimidando professores, alunos e colegas. Como vocês podem ver nas mensagens, vivemos uma situação de profunda ameaça e pânico”, afirmou.
De acordo com Leonardo, professores e representantes da direção da unidade começaram a se mobilizar para adotar providências e garantir a segurança da comunidade acadêmica. O docente relatou que o episódio provocou insegurança entre estudantes e servidores, com alunos deixando de frequentar aulas e professores receosos de retornar ao campus.
“Muitos alunos e professores têm se questionado sobre a real segurança que nós temos para voltar ao campus”, disse. Ele acrescentou que a comunidade tem procurado órgãos estaduais e federais de segurança pública e instituições de Justiça, além de divulgar manifestações de repúdio.
Para o professor, as intimidações contra universidades não são episódios isolados, mas integram uma dinâmica de hostilidade contra instituições de ensino e pesquisa.
“Um traço comum é um repertório de violência contra as instituições de ensino, contra a pesquisa, contra a liberdade acadêmica”, declarou. Leonardo defendeu a preservação da autonomia universitária e do ambiente democrático e alertou para os impactos desse tipo de ação.
“Quando você ataca a ciência, ataca a universidade, ataca estudantes, docentes, eles terminam atacando a democracia como um todo. O que demonstra que o que está em jogo é a própria democracia, são as próprias instituições da liberdade democrática”, concluiu.
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