Política

Extração de areia pode provocar tragédia

Atividade predatória no Litoral Sul do Estado para tamponar minas da Braskem gera preocupação na população da região

Por Ricardo Rodrigues - repórter / Tribuna Independente 20/01/2026 08h09 - Atualizado em 20/01/2026 09h49
Extração de areia pode provocar tragédia
Uma área de grande extensão no distrito de Poxim, em Coruripe, litoral sul, é explorada com extração predatória de areia - Foto: Edilson Omena

A extração de areia em vários municípios alagoanos avança com força, principalmente no Litoral Sul do Estado, a ponto de gerar preocupação dos empresários e investidores da região. A atividade sempre existiu, até para abastecer o mercado da construção civil, mas nunca esteve tão aquecida e operando de forma tão predatória como agora, depois que a Braskem passou a comprar areia em grande quantidade para tamponar as minas de sal-gema, desativadas e localizadas no subsolo dos bairros que afundam em Maceió.

Um dos pontos onde a extração de areia comprada pela Braskem está mais avançada fica no povoado Poxim, na zona rural de Coruripe. A jazida de areia pertence aos donos da fazenda Águas de Pituba, que fica entre o balneário Dunas do Marapé e a foz do Rio Pituba. De acordo com informações dos moradores da região, até o leito do rio foi alargado pela extração predatória de areia.

Por isso, a Tribuna ouviu o empresário Gustavo Halbreich, dono da Reserva da Pituba, considerada um dos maiores empreendimentos da América Latina.

A reportagem questionou se a extração de areia no Poxim, na fazenda vizinha a do empresário, não poderia prejudicar seus negócios. A resposta de Halbreich foi direta:

“Poderá sim. Caso não seja acompanhado com rigor técnico pelas autoridades competentes, poderemos ter uma tragédia na região”, disse Gustavo Halbreich – dono também de uma grande construtora e casado com Thereza Collor, ex-secretária de Turismo de Alagoas. Segundo ele, seria uma temeridade deixar que uma atividade tão predatória sem o monitoramento permanente, contínuo.

Em entrevista exclusiva à reportagem da Tribuna Independente, na tarde da última sexta-feira (16), o empresário Gustavo Halbreich disse ainda que a preocupação com avanço da extração de areia no Litoral Sul não é só dos empresários da região. “É uma preocupação de todos os cidadãos, não só dos empresários. A população está revoltada com o silêncio dos órgãos públicos”, afirmou ele. “Espero que com a proximidade das eleições este assunto volte e seja tratado com a seriedade que merece”, acrescentou.

ACIDENTE

O empresário questionou por que a reportagem não ouve os donos das mineradoras que exploram a atividade ou os fazendeiros que vendem areia para a Braskem, sem saber que a grande mídia já tentou ouvir essas pessoas. Mas eles nunca quiseram falar. Na última vez em que a Tribuna foi ao Poxim – em julho de 2024, quando houve um acidente com duas mortes na AL-101/Sul –, o dono da fazenda Águas de Pituba, Haroldo Pacheco, foi ouvido, mas negou que estivesse vendendo areia para a Braskem.

O motorista de uma caçamba que saía da fazenda Águas de Pituba, carregada de areia, foi quem provocou o acidente que matou uma turista mineira e o motorista do micro-ônibus da empresa Look Receptivo – pelo menos foi esse o resultado do inquérito policial aberto pela Delegacia de Polícia Civil de Coruripe. No entanto, o proprietário da jazida do Poxim, Haroldo Pacheco, disse que a culpa do acidente teria sido do condutor da carreta, que também vinha carregada de areia, mas oriunda de Feliz Deserto.

Logo depois do acidente, a Justiça mandou suspender a extração de areia em Feliz Deserto, cuja jazida vinha sendo explorada pela empresa Geo Mineração, sob o comando do geólogo Oswaldo Costa e seu filho, o advogado Oswaldo de Araújo Costa Neto.

Contrato da empresa Mandacaru com a Arquidiocese (Foto: Reprodução)

Denúncia de extração em APA em investigação

Depois de ter a atividade suspensa pela Justiça, a pedido do Ministério Público Federal (MPF), eles tentaram vender uma licença de pesquisa, fornecida pela Agência Nacional de Mineração (ANM), para explorar uma jazida de areia em Ipioca, às margens do Rio Saúde.

Quando suspendeu a extração de areia em Feliz Deserto, o MPF mandou a empresa Geo Mineração fazer a recuperação da área, mas até agora nenhuma ação nesse sentido foi iniciada.

A área continua degradada, a exemplo do Sítio Bom Retiro, na Praia do Francês, em Marechal Deodoro. Depois de extrair areia além dos limites traçados pelo IMA, extrapolando as poligonais e avançando rumo às Dunas do Cavalo Russo, a empresa Mandacaru teve a atividade suspensa, mas até agora não fez a recuperação da área.

No Francês, a extração feita pela Mandacaru Extração de Areia era feita em parceria com a Arquidiocese de Maceió, na gestão do ex-arcebispo de Maceió Dom Antônio Muniz. Quando Dom Beto assumiu a Arquidiocese mandou suspender o contrato com a Mandacaru, que tinha sido renovado em 2018. O MPF também tinha pedido a suspensão da extração de areia no Francês, mas a Mandacaru recorreu e vinha explorando a área mesmo depois da Igreja Católica suspender o contrato.

Foi preciso a Arquidiocese, por meio da Fundação Leobino e Adelaide Motta, entrar na Justiça, no começo de 2024, para brecar a extração de areia no Francês, com o juiz ameaçando usar a força policial caso a empresa Mandacaru continuasse desrespeitando a decisão judicial. Sem a areia do Francês para abastecer a Braskem, o sócio oculto da Mandacaru, o empresário Lula Leão (ex-dono da Usina Utinga) foi explorar uma jazida do mineral em Piaçabuçu, na Fazenda Várzea do Roçado, nas proximidades do Pontal do Peba.

Por meio de seu advogado, Lula Leão disse que a extração de areia em Piaçabuçu está toda legalizada e que a empresa LE Mineradora estaria oferecendo o município com algumas compensações. Além disso, negou que a área explorada fique dentro da APA de Piaçabuçu, muito embora a jazida esteja praticamente dentro da Área de Proteção Ambiental. O gestor da APA, Mário Macedo, disse que solicitou do IMA uma fiscalização na área, mas até agora nada. “Estão pouco ligando”, comentou.

“IMA OMISSO”

Devido à “omissão” do IMA, o gestor da APA pediu ajuda ao Ministério Público Federal (MPF), que abriu um procedimento investigativo para apurar denúncia de crime ambiental na extração de areia realizada pela LE Mineradora. O caso está com a Promotoria do Meio Ambiente, com o procurador Lucas Horta, responsável pelas demandas ambientais daquela jurisdição, cuja sede é Penedo. A assessoria do MPF confirmou que a denúncia está sendo apurada, mas de forma sigilosa, a pedido do denunciante.

Na correspondência que enviou ao IMA, o gestor da APA de Piaçabuçu fez várias recomendações, mas até agora nenhuma delas foi cumprida, segundo o gestor da APA. Questionado se o IMA fez a fiscalização na área, ele disse: “Que eu saiba, não”. “Já comunicamos o MPF e tem um processo em andamento, mas não sei dizer como está. O pior que esse pessoal do estado e município tiram o corpo fora e jogam o povo contra o ICMBIO – publicando fake news”, afirmou Mario Macedo.

Há denúncia de extração em Área de Proteção Ambiental (Foto: Eedilson Omena)

Gestor da área quer providências do MPF e MPE

A Tribuna procurou o IMA para saber se o órgão teria feito alguma fiscalização na extração de areia em Piaçabuçu, mas o Instituto não deu retorno. No final do ano passado, o IMA divulgou nota falando sobre a ação do órgão na região do Pontal do Peba.

A nota do IMA foi uma resposta aos questionamentos feitos pelo gestor da APA, Mario Macedo. Ele quer que o MPF e o MPE tomem providências. Questionado sobre a extração de areia contínua em Piaçabuçu, ele respondeu: “Sim, a todo vapor”.

Na nota, o Instituto informou que enviou resposta ao ofício do ICMBio sobre o empreendimento LE Mineradora, que possui licença ambiental emitida pelo Instituto para operação no município de Piaçabuçu. No documento, o IMA encaminhou o relatório da última fiscalização, realizada em 25 de julho de 2025, que constatou a atividade de extração de areia restrita a uma única poligonal licenciada.

“Também foi enviado um mapa georreferenciado confirmando que o ponto de extração está a 2 km das dunas costeiras citadas pelo ICMBio no ofício. O IMA defende a importância do intercâmbio de informações e a cooperação técnica entre as instituições”, disse a assessoria de comunicação do IMA.

A Braskem também foi procurada, por meio da sua assessoria de comunicação, para se posicionar sobre a compra de areia para tamponar as minas desativadas de sal-gema, mas a empresa não quis se manifestar.